Os maiores Dérbis de todos os tempos

Há 100 anos, Guarani e Ponte Preta se enfrentaram pela primeira vez. O resultado desse jogo é motivo de discórdia entre pontepretanos e bugrinos até hoje, o que já mostra um pouco dessa rivalidade – a maior do interior do Brasil e uma das maiores do país. E justamente nessa data simbólica, os dois clubes se reencontrarão em uma semifinal de Campeonato Paulista.

Claro que os tempos são outros, os estaduais não têm a mesma importância, pelo contrário, mais atrapalham o calendário nacional do que qualquer outra coisa. Mas para Ponte e Guarani, ainda valem muito. Ainda mais em um jogo como esse que teremos, primeira decisão com mão única entre os rivais.

Em 1979, Macaca e Bugre decidiram uma vaga na final do estadual naquele ano. Na verdade, decidiram em 1980, mas valia para o ano anterior. No primeiro jogo, no Majestoso, vitória alvinegra por 2 a 1. Na volta, no Brinco, outro triunfo pontepretano, desta vez por 1 a 0.

Era uma época dourada para o futebol campineiro. O Guarani havia conquistado de maneira brilhante o Campeonato Brasileiro de 78, com um time inesquecível que revelou Careca e Zenon para o futebol brasileiro. A Ponte foi vice-campeã estadual em 1977 com uma equipe histórica, formada por Carlos, Oscar e Dicá. Acabou na segunda posição novamente em 79 e depois em 81.

Aliás, em 1981 (ano que nasci, inclusive), ocorreu o “Maior Dérbi de todos os tempos”. Claro, nunca haverá concordância em relação a isso. Mas recorro a personagens da história de Bugre e Macaca para tal afirmação. Na decisão do primeiro turno daquele estadual, que valia vaga na final, lá estavam mais uma vez os dois maiores rivais de Campinas. Na primeira partida, 1 a 1 no Brinco. Na volta, em 5 de agosto, vitória alvinegra por 3 a 2. Ficha abaixo.

Ponte Preta 3×2 Guarani

Local: Moisés Lucarelli, em Campinas (SP)
Data: 5/ago/1981
Árbitro: José de Assis Aragão
Público: 22.167
Renda: Cr$ 4.247.100,000
Gols: Osvaldo aos 37'/1T, Serginho aos 3'/2T e Odirlei aos 36'/2T (Ponte); Ângelo aos 45'/1T e Jorge Mendonça aos 9'/2T (Guarani)

Ponte Preta: Carlos, Toninho Oliveira, Juninho, Nenê e Odirlei; Zé Mário, Humberto, (Marco Aurélio) e Dicá; Osvaldo, Chicão (Jorge Campos) e Serginho. Técnico: Jair Picerni.

Guarani: Birigui, Chiquinho, Mauro, Edson e Almeida; Jorge Luiz, Éderson (Tadeu) e Jorge Mendonça; Lúcio, Careca e Ângelo. Técnico: Zé Duarte.

Fichas de jogos antigos servem para reviver a memória dos mais antigos, dar um mergulho no passado e clarear a mente dos mais novos. Jorge Mendonça, Carlos, Jair Picerni, Zé Duarte… Todos personagens não só do futebol campineiro, mas do futebol brasileiro. Então, vamos com a ficha daquele segundo jogo de 1979 também.

Guarani 0x1 Ponte Preta

Local: Brinco de Ouro da Princesa, em Campinas (SP)
Data: 30/jan/1980
Árbitro: José de Assis Aragão
Público: 34.222
Renda: Cr$ 1.511.250,00
Gol: Osvaldo aos 26'/1T

Guarani: Neneca, Mauro, Gomes, Edson e Miranda; Zé Carlos, Renato e Zenon (Marinho); Capitão, Miltão (Vicente) e Bozó. Técnico: Cláudio Garcia.

Ponte Preta: Carlos, Toninho, Juninho (Eugênio), Nenê e Odirlei; Wanderley, Marco Aurélio e Dicá (Humberto); Lúcio, Osvaldo e João Paulo. Técnico: José Duarte.

Foram muitas as decisões de campeonatos e/ou turnos entre bugrinos e pontepretanos nessa época. Renderam, inclusive, aquela famosa capa da Placar. Mas foi em uma partida “comum” que o Dérbi obteve seu maior público da história. Pelo terceiro turno do estadual de 1978 (que invadira o ano seguinte por causa do calendário sem datas devido à Copa do Mundo), Ponte Preta e Guarani se enfrentaram no estádio Paulo Machado de Carvalho, em São Paulo. A Federação Paulista de Futebol, presidida por Nabi Abi Chedid, marcou o jogo para o Pacaembu para atrair um público maior. Resultado: 38.948 torcedores nas arquibancadas.

Ponte Preta 0x2 Guarani

Local: Paulo Machado de Carvalho, em São Paulo
Data: 3/jun/1979
Árbitro: Hélio Cosso
Público: 38.948
Renda: Cr$ 1.335.640,00
Gols: Capitão aos 42'/2T e Zenon, de pênalti, aos 40'/2T
Cartões vermelhos: Nenê (Ponte); Mauro (Guarani)

Ponte Preta: Carlos, Toninho Oliveira, Eugênio, Nenê e Toninho Costa; Wanderley, Lola (Afrânio) e Dicá; Lúcio, Osvaldo e João Paulo. Técnico: Cilinho.

Guarani: Neneca, Mauro, Gomes, Edson e Miranda; Zé Carlos, Renato e Zenon; Capitão, Careca e Bozó. Técnico: Carlos Alberto Silva.

São muitos outros clássicos históricos, como o de 18 de agosto de 1946, um domingo. Ainda no campo da rua Barão Geraldo de Rezende, mando bugrino, o Guarani fez 3 a 0 no primeiro tempo. Após o terceiro gol, impedido segundo os pontepretanos, dirigentes da Macaca invadiram o gramado e ordenaram a saída da equipe. Jogo cancelado, confusão armada, insinuação de compra do árbitro Aldo Bernardi, seu “sequestro”, confissão de culpa, desmentido diante da polícia e um jogo que ficou conhecido como “o Dérbi que terminou em rapto”. História longa… Recomendo a leitura da bibliografia deste post.

Há também o Dérbi com o primeiro relato de confusão entre bugrinos e pontepretanos. Lá atrás, em 21 de maio de 1916, o Bugre fizera 1 a 0 e, ainda na primeira etapa, conquistou um pênalti. Torcedores da Macaca não concordaram com a marcação e invadiram o campo do Hipódromo, onde aconteceu a partida. Os relatos não são claros se o goleiro Amparense, revoltado com a penalidade máxima, abandonou o gol ou não. Mas depois do segundo gol bugrino, uma enorme confusão começou nas arquibancadas, com brigas entre os torcedores. Algo totalmente atípico para a época. O jornal Diário do Povo retratou a briga da seguinte maneira: “…há momentos em que a gente tem a sensação de assistir a uma esplendida tourada ou a uma lucta romana”. Há outros trechos bem significativos: “As senhoras, umas gritavam outras rollavam pelas escadarias. Enquanto isso os de baixo forneciam bengalas, tijolos, etc, para os de cima”.

Já até comparei esse clássico com outro, europeu (O nosso West Ham x Milwall). Termino o post, pois, com um relato pessoal. De um jornalista que não nasceu em Campinas, mas adotou essa cidade como sua aos oito anos. Que não torce nem para Guarani nem para Ponte Preta. Que frequenta as arquibancadas do Moisés Lucarelli e do Brinco de Ouro da Princesa com o mesmo prazer. Que chegou na cidade já com o time definido, mas aprendeu a amar e respeitar esse clássico. Clássico que faz parte da minha formação futebolística. Eis o meu primeiro Dérbi Campineiro, o meu maior clássico do Brasil.

Guarani 2×0 Ponte Preta

Local: Brinco de Ouro da Princesa, em Campinas
Data: 26/jul/1998
Árbitro: Antonio Pereira da Silva
Público: 22.139
Renda: R$ 214.765,00
Gols: Barata aos 12'/1T e Paulo Isidoro aos 19'/1T
Cartão vermelho: Maurílio (Ponte)

Guarani: Pitarelli, Marco Antônio (Everaldo), Marinho, Marcelo Souza e Rubens Cardoso; Vaguinho, Paulo Isidoro, Jean Carlo e Pichetti (Roque); Robson Ponte (Silvinho) e Barata. Técnico: Oswaldo Alvarez.

Ponte Preta: Edinho, André Santos, Fábio Luciano, Ronaldão e André Silva; Ezequiel (Fabinho), Mineiro, Aílton e Vágner Mancini (Zinho); Maurílio e Régis (Vânder). Técnico: Celso Teixeira.

Fontes de pesquisa:

RSSSF – www.rsssf.com

José Ricardo Lenzi Mariolani – jogosdoguarani.sites.uol.com.br

RAC (Rede Anhanguera de Comunicação) – www.rac.com.br

Ponte Preta: a torcida que tem um time / André Pécora e Stephan Campineiro – Campinas, SP: Pontes Editores, 2010

Brinco – 50 anos / Coordenação editorial: Fernando Pereira – Campinas, SP: Lince – Gráfica e Editora, 2003

Adendo: para me posicionar sobre a polêmica envolvendo a questão de torcida única e não ficar em cima do muro. Após a morte do bugrino Anderson Ferreira, de 28 anos, durante briga entre as torcidas em um dérbinho antes do jogo do primeiro turno, houve uma reunião entre dirigentes dos dois clubes e representantes da Prefeitura e da Polícia Militar. Teria havido um acordo, no qual ficou estabelecido que o próximo dérbi teria torcida única. Agora, Marcelo Mingone, presidente do Bugre, confirma isso, e Márcio Della Volpe, presidente da Macaca, nega que havia sido fechado. Sou contra torcida única em clássico. Isso, pra mim, é um atestado de incompetência dos dirigentes. E acho que esse suposto acordo não deve valer para o clássico da semifinal. Nunca foi imaginado para uma decisão. Por isso todos os envolvidos devem trabalhar ao máximo para evitar a violência no Brinco de Ouro da Princesa e arredores e realizar uma festa maravilhosa, verde, preta e branca. Uma festa que Campinas merece.

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