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Lei de Gérson na Série C

Nos últimos meses temos visto uma disputa acirrada na Série C. Infelizmente, não é dentro de campo e sim nos tribunais. Expliquei uma parte da confusão na coluna Brasil, mas como o caso é muito complexo, convidei Felipe Portes, jornalista que acompanha o caso de perto muito antes das disputas começarem, para explicar melhor. Fica aqui o texto, para consulta e debate de todos que gostam de futebol. Com a bola rolando, não com advogados e tribunais. 

Por Felipe Portes, @portesovic

Desde o mês de maio, a credibilidade da CBF em relação aos seus campeonatos das Séries C e D tem sido colocada em xeque, semana após semana. Como se não bastasse o período de “transição” de Ricardo Teixeira para José Maria Marin, a confederação mostra não ter pulso firme para decidir os rumos das competições, em especial a Série C, que segue com um asterisco, a caminho da terceira rodada.

Dois meses depois de o Brasil de Pelotas (originalmente na D) entrar com um processo para tentar a vaga na C no lugar do Santo André, em função de uma liminar que favorecia os gaúchos, a confusão está longe de terminar. Tudo começou justamente com esse imbróglio, considerando a punição de seis pontos que o Xavante recebeu por escalar um atleta de forma irregular (Cláudio foi expulso na última rodada da Série C de 2010 pelo Boa, então Ituiutaba e entrou em campo pelo Brasil na estreia, em 2011). Por causa dessa punição, o time acabou rebaixado para a Série D, com dois pontos ganhos no Grupo D, e o Santo André se salvou, com oito pontos e com um gol a menos de saldo que o clube gaúcho.

Revertida a decisão, o Brasil perdeu a ação e aceitou disputar a Série D, que já estava atrasada em três semanas. Entre uma semana e outra, a Fifa prometeu punir o Xavante por acionar a Justiça Comum (medida ilegal de acordo com a entidade), e o Santo André foi ao STJD para impedir o pontapé inicial nas duas divisões até que o julgamento fosse concluído.

Como se já não fosse muita bagunça, o Treze também entrou com uma ação para que o Rio Branco fosse punido, já que os acrianos acionaram a mesma Justiça Comum para liberar a presença da torcida em seu estádio, em 2011. Sem a devida punição por parte da CBF, o Rio Branco fez um acordo e só abdicou de disputar a segunda fase da Série C.

Incrível foi ver a Fifa voltar atrás da própria palavra e anunciar que não, não havia nenhuma pendência em relação aos gaúchos e paraibanos, como dito dias antes. Sob a ameaça de serem banidos de todas as competições nacionais enquanto não retirassem suas ações e aí sim permitir o início dos torneios, os dirigentes do Brasil finalmente deixaram as páginas do noticiário e hoje disputam normalmente a Série D.

Seria o fim do enrosco judicial, não fosse o Treze voltar com tudo para brigar nos tribunais pela vaga na C. Já era dia 29 de junho, um dia antes da tão esperada estreia do certame, a CBF confirmou a inclusão do alvinegro paraibano para compor um bizarro grupo de 11 clubes (a priori eram 20 concorrentes, 10 para cada chave). Os compromissos do Galo da Borborema ficaram marcados para as quartas-feiras, isolando do restante das rodadas, até o fim da primeira fase, o que por si já é bizarro, visto pela ótica de simplesmente acomodar um time com a competição em andamento.

Na semana seguinte, mesmo com a sua participação garantida na terceirona, os dirigentes do Treze forçaram a exclusão do Rio Branco, tomando como base aquele mesmo processo ilegal. É uma espécie mais avançada da famigerada Lei de Gérson, verbete que consiste em “determinada pessoa agir de forma que leve vantagem em tudo que faz, se aproveitando de situações em benefício moral, sem se importar com questões éticas e morais”. No caso, como quinto colocado da Série D de 2011, os paraibanos pleitearam estar entre os 20 na C, e agora geram grande confusão.

É impensável que uma ou duas forças impeçam um campeonato de ter seu andamento normal. Olhando de maneira minimalista, temos um exemplo da criança que é dona da bola no campinho e que não aceita ficar de fora, impedindo todos os outros coleguinhas de jogar. Na noite desta terça-feira, o STJ tornou sem efeito a liminar expedida no último dia 6, que incluía o Rio Branco e impedia o Treze de participar da competição.

Permitindo situações absurdas e descabidas, a CBF somente assistiu a mais um episódio digno de comédia pastelão: no último domingo, o Icasa receberia o Rio Branco, de acordo com a tabela oficial. Como a ação que favoreceu o Galo foi emitida apenas na sexta-feira, as duas equipes envolvidas no processo viajaram para Juazeiro do Norte para enfrentar o mandante. No entanto, apenas (ainda bem) o Treze foi o adversário dos cearenses, que no fim venceram por 3 a 0, mostrando que ao contrário das brigas extracampo, os paraibanos não estão com essa bola toda em campo.

Enquanto aguardamos um ponto final (e absoluto, que se registre) nessa confusão, fica a sensação de impunidade e de egoísmo dos cartolas que tanto declaram prezar pela força das equipes de divisões inferiores com o discurso de união e justiça. Se alguma justiça de fato está sendo feita, é o Treze apelar tanto nos tribunais e penar dentro das quatro linhas.

Por uma Série C mais justa e sem asteriscos ou tapetões, senhores. E que no futuro, as punições sejam mais rígidas e pontuais, impedindo que os inícios dos nossos torneios não fiquem dependendo da boa vontade de homens de terno e gravata e liminares nas mãos.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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