Salários atrasados, greve, juniores em campo e maior goleada da história da Série D: o São Caetano 0x9 Pelotas

Com um time montado às pressas para evitar o WO, São Caetano tomou uma goleada histórica e vive situação de calamidade financeira, com greve dos jogadores

O Pelotas conquistou a maior goleada da história da Série D, quarta divisão do Campeonato Brasileiro, no último sábado, 24. Fora de casa contra São Caetano, o time gaúcho venceu por 9 a 0 no Anacleto Campanella. Embora os recordes normalmente venham associados a algo positivo, este traz uma história triste. O clube paulista vive uma crise financeira e está com salários atrasados, viu seus jogadores e comissão técnica fazerem greve e recorreu a jogadores do time juvenil para impedir o W.O. Uma situação vergonhosa que o clube paulista se colocou, com um dirigente que tentou justificar o injustificável, criticou os jogadores e ainda minimizou a vexatória derrota.

Com os jogadores do time principal em greve, o São Caetano recorreu às categorias de base. O time foi montado às pressas, com 16 jogadores. O último deles só conseguiu chegar ao estádio Anacleto Campanella 10 minutos antes do início do jogo. A partida tinha início previsto para 18h, mas foi atrasado em sete minutos.

Como era de se imaginar, o que se viu em campo foi um massacre de um time profissional contra um catado montado às pressas. Foram seis gols do Pelotas só no primeiro tempo, com Marcão, aos cinco, Itaqui, aos 24, Ariel, aos 27, Itaqui novamente aos 32, Ariel, aos 38, e Mateus, aos 41. O segundo tempo teve um ritmo muito mais lento e tranquilo para os gaúchos, que ampliam o placar com mais três gols: Marcão, aos 16 e aos 42 minutos, e Jonatas, aos 28.

Com os 9 a 0, o Pelotas superou as maiores goleadas anteriores na Série D. O Plácido de Castro, do Acre, goleou o Vila Aurora, do Mato Grosso, por 9 a 1 em 2011. A quarta divisão brasileira foi criada em 2009. É também a segunda maior goleada do Pelotas na sua história. Só fica atrás de um 10 a 0 diante do Internacional de Santa Maria, no Campeonato Gaúcho de 1951. Nesta temporada, o Mirassol impôs uma goleada também marcante: 8 a 0 sobre o Nacional de Rolândia, do Paraná.

“Fico satisfeito com o resultado, com a nossa campanha e com a entrega do grupo e companheiros de comissão e gestão do clube. Gostaria que ninguém precisasse passar por isso no futebol brasileiro, mas a nossa forma para demonstrar respeito aos colegas adversários e a instituição São Caetano foi executar no jogo exatamente o que nos preparamos para fazer, indiferentemente de qualquer situação adversa. Espero que, em breve, possam superar este tipo de situação”, disse o técnico do Pelotas, Ricardo Colbachini, à Zero Hora.

O Pelotas é o  segundo colocado do Grupo 8, com 15 pontos em nove jogos disputados até aqui. Quatro dos oito times do grupo avançam à próxima fase da competição. O São Caetano, sem qualquer surpresa, é o último, com cinco pontos em oito jogos. São apenas quatro gols marcados e 19 sofridos, com os nove que tomou dos gaúchos. O clube paulista volta a campo no próximo domingo, diante do Novorizontino. Resta saber se terá jogadores para isso.

“Já ligaram falando que se não houver o pagamento vão entrar com a ordem de despejo”

O São Caetano foi o campeão da Série A2 do Campeonato Paulista, o que garantiu o seu acesso à primeira divisão estadual. Segundo informações do Diário do Grande ABC, as premiações relativas ao título da A2 e da Copa Paulista conquistada em novembro de 2019 ainda não teriam sido pagas aos jogadores.

Depois da conquista da Série A2, o São Caetano rompeu com um grupo de investidores, do advogado Paulo Fernandes, que era quem dava alguma estabilidade financeira ao clube. ele teria se desentendido com o presidente do clube, Nairo Ferreira. O técnico que dirigiu o clube na conquista da A2, Alexandre Gallo, ex-seleção olímpica e sub-20, além de tantos outros clubes, deixou o cargo logo depois do título, já com esse cenário colocado. Alguns jogadores também deixaram o elenco, como Everton Dias e Domingos, dois dos mais experientes.

Nario Ferreira, presidente do São Caetano, tentou minimizar o que acontecia em entrevista ao Diário do Grande ABC, antes da partida. “Tudo o que eles (jogadores) falaram é verdade. Os salários e aluguéis (estão) atrasados. Tudo isso se confirma. O que eu não acho que deveria (ocorrer) é ter essa atitude de não fazer os jogos. (Os jogadores deveriam) Pensar um pouquinho na entidade, mas recorremos aos meninos da base, dos juniores, para ter essa partida”

“Cada caso é um caso. Esse é um problema de uma gestão antiga, que está saindo agora. Eu estou voltando agora, há nove dias. O jogador tem razão? Têm. Os salários estão atrasados? Estão. Mas eles têm de cobrar isso da gestão que estava aqui. Alguns estão com cinco meses atrasados outros menos. Cada caso é um caso”, declarou ainda o dirigente.

Os jogadores e comissão técnica do São Caetano anunciaram uma greve na sexta-feira como forma de protesto pelos meses de salários atrasados, além de outros benefícios, como calote dos 13º salários FGTS e auxílio-moradia.

A Gazeta Esportiva recebeu contato de um jogador do elenco do São Caetano na sexta-feira, que falou na condição de anonimato. Ele relatou a situação do clube. “Vou falar da minha situação. Eu já tenho três salários atrasados, o quarto vai fechar agora em novembro, duas férias, um décimo terceiro, aluguel da moradia. Já ligaram falando que se não houver o pagamento vão entrar com a ordem de despejo. Então está nessa situação difícil aí. Hoje (sexta) nós não treinamos. Já entrei em contato com o sindicato para eles já entrarem com o protocolo de W.O”, contou o jogador.

O Azulão tinha receio que o WO pudesse não só eliminar o time da competição, algo que já está encaminhado, mas fazer com o que o clube seja impedido de disputar competições nacionais por dois anos. É uma interpretação do que está previsto no Regulamento Geral de Competições da CBF. Os artigos 59, 60, 61 e 62 tratam desse tipo de situação:

Art. 59 – Se uma equipe se apresentar com menos de 7 (sete) atletas ou ficar reduzida a menos de 7 (sete) atletas após o início da partida, perderá a quota da renda que lhe caberia, além de sofrer uma multa administrativa de R$ 50.000,00 (cinquenta mil reais) aplicada pela DCO por perdas e danos à competição, sem prejuízo da punição a ser aplicada pela Justiça Desportiva.

Parágrafo único – Os documentos da partida serão encaminhados ao STJD para verificação da ocorrência de infração disciplinar.

Art. 60 – Para efeito de possíveis penalidades aplicáveis pelo STJD por atraso da partida, caberá ao árbitro da partida identificar na súmula os responsáveis pelo atraso no início e/ou reinício das partidas, bem como informar o tempo e as causas geradoras de tais atrasos.

Art. 61 – O Clube disputante de competição que for suspenso pela Justiça Desportiva perderá por W.O., com escore de 3 a 0 (três a zero) em favor do adversário, as partidas que deveriam ser disputadas durante o período da suspensão e, decorrido o período, jogará normalmente as demais partidas.

Art. 62 – Se uma equipe abandonar, for excluída ou eliminada pela Justiça Desportiva de uma competição ficará automaticamente suspensa durante 2 (dois) anos de qualquer outra competição coordenada pela CBF, em qualquer categoria ou divisão.

O W.O. que gera a eliminação, segundo o regulamento, será apenas em “competições eliminatórias”. A Série D não é uma disputa inteiramente em confrontos eliminatórios, como a Copa do Brasil, mas tem fases eliminatórias. Como não há uma especificidade em relação a competições como a Série D, que tenham parte da disputa em fase de grupos e parte em confrontos eliminatórios, dá margem para interpretação. O São Caetano não quis correr o risco, até porque necessariamente o W.O. vai para o STJD, o que poderia gerar a sua expulsão do campeonato.

Depois do jogo, precisando se justificar pelos 9 a 0 sofridos em casa, o presidente do São Caetano, Nairo Ferreira, se manifestou via nota oficial do clube. Elogiou os jogadores que entraram em campo, em uma manifestação patética de um dirigente que comanda um clube com salários atrasados. Valorizar os jogadores que entraram em campo, em situação de fragilidade, com muitos deles sendo apenas juniores, é uma covardia.

“Sabemos que o desejo de alguns eram que não entrássemos em campo, o VERGONHOSO W.O.”, diz a nota. “O que graças ao empenho dos verdadeiros amantes do clube não ocorreu. Ninguém entra em campo para perder, mas esse é um resultado comum em competições. Um perde outro ganha”.

Veja a nota do São Caetano na íntegra:

Eu, Nairo Ferreira, presidente do A.D São Caetano, venho por meio desta nota, enaltecer os atletas que hoje entraram em campo. Sabemos que o desejo de alguns eram que não entrássemos em campo, o VERGONHOSO W.O.

O que graças ao empenho dos verdadeiros amantes do clube não ocorreu. Ninguém entra em campo para perder, mas esse é um resultado comum em competições. Um perde outro ganha.

O que temos a glorificar esses guerreiros, abaixo de Deus, foi a coragem e determinação. Mesmo com salários atrasados e outras razões que os poderiam desmotivar, foram a luta.

O resultado da partida não ofuscará o brilho desses GUERREIROS AZUIS.

Entraram para história deste humilde clube com louvor, superaram as expectativas, foram para guerra, voltaram feridos, mas não abandonaram seu brasão carregado ao peito.

Seus familiares e amigos certamente sentirão muito orgulho de vocês.

Prometo me dedicar tomando como exemplo essa atitude de vocês, não medirei esforços em colocar a vida econômica do clube em ordem, e que num futuro próximo se orgulhem ainda mais de terem vestido a camisa do AZULÃO DO ABC.

O futebol pode passar por dificuldades, mas não ser envergonhado com a recusa de entrar em campo.

O desejo dos jogadores era receber seus salários e benefícios que são previstos, algo que o clube não fez, deixou de cumprir a sua obrigação mínima. Submeter jogadores das categorias de base a uma situação humilhante como essa não é algo que um dirigente deveria fazer. Muito menos com essa nota patética que o clube emitiu. Dizer que é um resultado normal é uma vergonha. Foi a maior goleada da história da Série D. Não é um resultado comum em competições, como a própria nota do presidente diz.

Ninguém é obrigado a trabalhar com salários atrasados. O que se viu no Anacleto Campanella é uma situação vergonhosa. E embora tenha ocorrido na Série D, esse tipo de situação, de salários atrasados por meses, é muito comum em todas as divisões, inclusive na Série A. A diferença é que os clubes da Série A tem maior poder de barganha, conseguem driblar a legislação ao deixarem de pagar os chamados direitos de imagem, mesmo que isso signifique derrota na Justiça, caso o jogador entre com uma ação. É uma escolha consciente: nem todos entrarão na Justiça, a maioria aceitará acordos e fica tudo por isso mesmo.

O futebol brasileiro precisava ser mais rígido em relação a isso. Infelizmente, não parece provável. A situação que o São Caetano passou não é culpa dos jogadores que entraram em greve, como o seu presidente quis deixar parecer na nota divulgada após o jogo. Culpar a diretoria anterior não é suficiente. É preciso resolver o problema. Ele é o representante do clube que está com salários atrasados e deixa jogadores em uma situação terrível. Não é possível fazer futebol profissional assim.

Ficou claro que o clube se preocupa mais com as consequências jurídicas da eliminação do que com os jogadores. Culpá-los por não entrarem campo com a situação como está, com ameaça de despejo e possivelmente outras situações terríveis, é covardia. Greve é direito do trabalhador, justamente para forçar o empregador a resolver o problema. Até porque a preocupação é com os próximos anos, já que mesmo que os jogadores entrem na Justiça para receberem os salários, esse processo demorará no mínimo alguns meses. Dá tempo para o clube se remontar para o Campeonato Paulista do ano que vem, com outros jogadores, e recomeçar um ciclo de irresponsabilidade.