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Richarlison escreve linda mensagem ao Time Brasil e quer lutar por mais investimento no esporte desde a escola

"O momento é de começarmos a pensar em deixar para as futuras gerações um maior investimento em esporte, desde a escola até o profissional"

O atacante Richarlison foi um dos destaques da seleção brasileira que conquistou o ouro olímpico no futebol masculino na Olimpíada de Tóquio 2020. A vitória sobre a Espanha por 2 a 1 deu ao Brasil um inédito bicampeonato olímpico, depois do título também na Rio 2016. Envolvido no maior evento esportivo do mundo, o atacante torceu pelos outros atletas do Time Brasil e escreveu uma carta aos companheiros dos outros esportes, divulgada em seu site. Ficou sensibilizado pelo que viu e quer ser uma voz para mudar a situação do esporte brasileiro, com mais investimento em esporte desde a escola.

A carta é linda. Mostra que Richarlison, assim como nós, se emocionou, vibrou e torceu muito para os muitos atletas brasileiros que foram para Tóquio estar na disputa contra os melhores. A delegação brasileira foi ao Japão com 309 atletas e 33 deles sequer vivem do esporte. Têm outras profissões para sobreviver, sendo que cinco deles são motoristas de aplicativo.

Tudo isso está no DNA do Time Brasil, matéria especial feita pelo ge.globo e que recomendamos. Dá para ter uma ideia de como o Brasil avançou, mas como também precisa avançar para ser uma potência. O quadro geral do Brasil é de um país que investe no topo da pirâmide e muito pouco na base, onde o investimento é mais necessário. Nos acostumamos a ver histórias sobre más condições de treino e preparação dos atletas brasileiros, que precisam superar isso pela medalha. Está na hora disso mudar. Richarlison parece disposto a fazer algo para mudar o cenário, que inclui até o futebol, o esporte mais privilegiado e que recebe mais investimentos.

Confira a carta de Richarlison:

Queridos atletas do Time Brasil,

Gostaria de dividir algo com vocês e com o nosso povo.

Pisar em solo olímpico é o grande sonho de todo atleta. Trazendo para a minha praia, o futebol, os jogadores da minha idade cresceram assistindo à luta da Seleção até chegar ao tão sonhado ouro. Foram anos e anos de tentativas, frustrações, derrotas, lágrimas, até aquele gol de pênalti do Neymar no Maracanã, em 2016. Por esse e diversos outros motivos, eu sempre quis estar aqui.

O meu caminho foi barra pesada, como o da maioria dos meninos que sonham em jogar bola, e como muitos de vocês em seus esportes também. Tive uma infância difícil, vim de família humilde e tive que ralar um bocado para chegar aonde cheguei. Quantas vezes fecharam a porta na minha cara… Eu perdi a conta. Mas persisti, batalhei e consegui. Bom, acho que isso é comum a todos nós que estamos aqui no Japão.

Por isso, desde que eu cheguei aqui, acompanhei e vivi as Olimpíadas ao máximo. Assisti as competições, vibrei, torci, fiquei bravo com juiz, xinguei, me emocionei e, mais do que isso: conheci trajetórias lindas de seres humanos de muita luta e perseverança, atletas que chegaram ao auge de seus esportes com pouco ou nenhum tipo de apoio ou estrutura.

O resultado desse esforço quase sobre-humano de realizar os seus sonhos serão novas Rebecas, Rayssas, Alisons, Ana Marcelas, Heberts, Isaquias, Darlans, Thiagos, enfim… meninas e meninos que surgirão adiante só porque foram inspirados por cada um de vocês. Contudo, acho que o momento é de começarmos a pensar em deixar para as futuras gerações um maior investimento em esporte, desde a escola até o profissional; e de melhorar as condições para que nossos atletas possam desempenhar o melhor possível e viver daquilo que amam fazer.

Passou da hora de nosso país entender que esporte não é só um cara chutando no gol ou enterrando a bola numa cesta: é bem-estar, saúde, disciplina e segurança. Nós levamos o nome do nosso país ao mais alto nível com muito orgulho, geramos exposição e rendimentos, além de representar nossa gente e nossa bandeira. Então, nada mais justo do que haver um retorno mais significativo.

Peço desculpas por falar a respeito sem lugar de fala. O futebol realmente é o esporte com maior investimento no país, com boas estruturas nos grandes clubes e transmissão em todas as plataformas. Mas não podemos viver eternamente em uma bolha, onde apenas alguns poucos se destacam, pois, dentro do nosso próprio esporte, mais de 90% dos jogadores no nosso país ralam todo dia por um salário-mínimo ou menos. E ainda há a disparidade para o futebol feminino, que é ainda maior, apesar de toda a trajetória de lutas e conquistas das meninas nos últimos anos.

A partir de agora, gostaria de pedir licença a todos vocês para ser mais uma voz gritando bem alto para ajudar a mudar essa situação. Para que possamos dar a oportunidade às crianças, que hoje se inspiram nas nossas trajetórias, para que cheguem ao Olimpo do esporte.

Tenho muito orgulho de fazer parte disso e de ser conterrâneo de todos vocês! Obrigado por tudo e parabéns a todos atletas do Time Brasil! Vocês são verdadeiros heróis e campeões!

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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