Pelo investimento massivo realizado nas últimas temporadas, aguardava-se que o Zenit retornasse em breve ao topo do Campeonato Russo. O sucesso da equipe demorou a acontecer, com as derrocadas recentes. No entanto, depois de três anos rodando por mãos moscovitas diferentes, a taça retorna a São Petersburgo. Com duas rodadas de antecedência, os celestes confirmam o título nacional de 2018/19, seu quinto desde o fim da União Soviética. Apontam à recuperação da agremiação, também ambicionando campanhas melhores nas competições continentais.

Campeão pela última vez em 2014/15, o Zenit decepcionou nas últimas três temporadas. Em 2015/16, teve dificuldades para perseguir o CSKA Moscou. Um ano depois, também permitiria que o Spartak abrisse distância. E o tombo se tornou mais doloroso no campeonato passado, com uma queda acentuada após liderar durante todo o primeiro turno. Os celestes contratavam jogadores e traziam comandantes tarimbados, mas não conseguiam encontrar um norte ao seu trabalho. A mudança começou a partir da volta de Sergey Semak, antigo ídolo do clube. Após pendurar as chuteiras, o ex-volante integrou a comissão técnica dos celestes e da seleção como assistente, antes de causar impacto em seu primeiro trabalho como treinador principal. Terminou o Russão em sexto com o modesto Ufa, conquistando a inédita classificação à Liga Europa. Logo se tornou uma aposta óbvia em São Petersburgo.

Outro mérito do Zenit foi confiar em sua base de jogadores no início da temporada. O único contratado foi Claudio Marchisio, trazido a custo zero da Juventus. Ainda assim, os celestes contavam com um elenco forte o suficiente para brigar pelo título. Resultado: lideraram de ponta a ponta. A equipe somou 18 vitórias em 27 rodadas, com um desempenho excelente em seu novo estádio. Como mandantes, os campeões conquistaram 87% dos pontos. Além disso, diante das oscilações na virada dos turnos, a diretoria ofereceu novo impulso graças ao mercado de transferências. Se Leandro Paredes representava um desfalque ao meio-campo, a agremiação aproveitou o dinheiro pago pelo PSG para trazer Wilmar Barrios, Sardar Azmoun e Yaroslav Rakytskyi. Reforçou todos os seus setores e ainda ficou com o troco. Não à toa, o time emendou dez jogos de invencibilidade nesta reta final, com oito vitórias e dois empates.

O embalo recente permitiu ao Zenit abrir distância em relação ao Lokomotiv Moscou, seu principal oponente. E a confirmação do título aconteceu neste sábado. Mais cedo, os celestes empataram fora de casa com o Akhmat Grozny por 1 a 1, graças a um gol anotado por Sebastián Driussi nos minutos finais. No entanto, a vitória do Arsenal Tula sobre o Lokomotiv valeu a conquista antecipada. Os jogadores ficaram sabendo do feito ainda no avião, realizando uma enorme festa. Quando desembarcaram em São Petersburgo, a torcida já esperava enlouquecida, com sinalizadores espalhados pelas ruas. Uma prévia do espetáculo que deve ocorrer em casa, quando taça for entregue diante do CSKA Moscou.

O Zenit se beneficiou da ótima campanha da Rússia na Copa do Mundo. E o maior reflexo disso está em seu ataque. Artem Dzyuba havia sido emprestado na temporada passada, após entrar em litígio com Roberto Mancini. O treinador saiu, o centroavante voltou com moral do Mundial e retomou a posição como titular. Foi um dos artilheiros da campanha, com oito gols, além de seis assistências. Entretanto, quem realmente arrebentou no setor foi Sardar Azmoun. O iraniano chegou no meio da campanha, após uma passagem apagada pelo Rubin Kazan. Motivado pelo sucesso na Copa da Ásia, também causou estrago no Russão. Foram oito tentos em nove partidas em São Petersburgo. Juntamente com Driussi e Robert Mak, ambos preencheram bem a lacuna deixada por Aleksandr Kokorin, que passou o início da campanha se recuperando de lesão e, após o retorno, acabou preso por uma covarde agressão a um funcionário do governo russo. Não fez falta.

Além de Azmoun, os novatos Barrios e Rakytskyi foram outros dois que se encaixaram rapidamente no time titular, assim como Emiliano Rigoni – este resgatado de empréstimo à Atalanta. Também merecem menções especiais o goleiro Andrey Lunev, o zagueiro Branislav Ivanovic, o polivalente Yuri Zhirkov e o meia Aleksandr Erokhin, compondo a espinha dorsal. Único brasileiro do elenco, Hernani só foi titular em quatro partidas, geralmente saindo do banco de reservas em suas aparições. De qualquer forma, seja por lesões ou pelas transferências, a rotação na equipe foi grande ao longo da campanha. Manteve-se a consistência, sobretudo em casa, e a qualidade nas bolas paradas, uma arma fatal ao sucesso.

O título confirma o Zenit diretamente na fase de grupos da próxima Liga dos Campeões. A equipe vinha de boas campanhas na Liga Europa, apesar dos persistentes tropeços nos mata-matas. Agora, poderá se provar um degrau acima. E a expectativa é grande sobre este grupo, não apenas pela chance de progredir com as adições recentes, mas também pela continuidade do trabalho de Semak. A quem viveu grandes experiências em seus tempos de jogador, seja por clubes ou seleção, o futuro se mostra promissor.