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Russos temem que times da Crimeia levem país a perder a Copa 2018

Alguns jogos pela fase preliminar da Copa da Rússia podem causar problemas sérios à Rússia e até tirar a Copa do Mundo de 2018 do país. A preocupação é de dirigentes russos, que discutiram essa questão e a conversa acabou vazando, por interesse de alguém, para que fosse divulgado. Pode parecer um absurdo, mas a preocupação faz sentido, ainda que a consequência mais grave, de ter a Copa tirada do país, pareça uma possibilidade muito distante. Mas as punições ao país não são apenas possíveis: são esperadas pelos próprios dirigentes. A Copa do Mundo de 2018 parece ser a última carta de um jogo que está só no começo.

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Os jogos do SKChF Sevastopol, que venceu por 2 a 0 o TSK Simferopol, e do Zhemchuzhina Yalta, que perdeu por 2 a 0 para o Sochi, ambos pela fase preliminar da Copa da Rússia, estão dando o que falar. O SKChF Sevastopol, TSK Simferopol e o Zhemchuzhina Yalta são times da Crimeia, região que foi anexada pela Rússia em fevereiro, mas que ainda causa controvérsia no mundo. A Uefa, por exemplo, ainda não reconhece os times da região como sendo russos e sim ucranianos. Aliás, a Ucrânia reclama que a Uefa deveria intervir para impedir que times do seu território disputem competições como filiados da RFU, a Federação de Futebol da Rússia. Por enquanto, a Uefa está em silêncio quanto à questão, mas é provável que atenda as reivindicações dos ucranianos, uma vez que essa questão ainda não está politicamente resolvida. Vale lembrar que a comunidade internacional não reconhece a anexação da Crimeia e a Ucrânia considera que o território está sob ocupação russa.

A situação é mais grave do que se pode imaginar. A participação dos clubes ucranianos em competições de outro país infringe o regulamento da Uefa, o que pode – e deve – gerar problemas. A Fifa disse que deixará a questão nas mãos da Uefa, que por sua vez tem pedido que as duas federações conversem e negociem entre si. Essa é uma questão que preocupa, e muito, os dirigentes do país, segundo gravações divulgadas pela Novaya Gazeta. Ninguém quer entrar em um conflito direto, mas é evidente que por mais que os dirigentes estejam pisando em ovos, eventualmente uma decisão terá que ser tomada e isso poderá desencadear uma série de problemas para os russos.

Vladimir Putin quer integrar a Crimeia totalmente à Rússia, mas a questão pode criar um problema tanto com a Uefa quanto com a Fifa, que, como todo mundo sabem, fogem das polêmicas políticas, mesmo quando eles estão envolvidos até o pescoço nessas questões. A política, afinal, não é algo colocado em um pedestal e tratado isoladamente, ela envolve toda a sociedade, incluindo, claro, o esporte. Ainda mais quando se fala em Copa do Mundo e eventos dessa magnitude. Putin quer a Copa, a Fifa e a Uefa não querem problema com o país que receberá o próximo mundial. Só que a comunidade internacional e os problemas políticos são uma pressão grande para que algo seja feito. E dar uma de joão-sem-braço não poderá durar para sempre.

Há um temor entre os dirigentes que as sanções econômicas e esportivas que podem acontecer por pressão dos Estados Unidos e a União Europeia. O presidente do CSKA Moscou, Yevgeny Giner, que é nascido em Kharkiv, na Ucrânia, teme que as punições da Uefa e da Fifa façam com que os times russos sejam impedidos de jogar as competições europeias, como a Liga dos Campeões e a Liga Europa. A Uefa já definiu que os times ucranianos e russos não irão se enfrentar nas competições internacionais enquanto o conflito existir, mas essa é uma ação apenas temporária. Não poderá ser permanente, porque, cedo ou tarde, isso acabará acontecendo. As exclusões são plausíveis, já que a Rússia infringiu o regulamento da Uefa. E mais do que isso, teme também que a Copa do Mundo seja retirada do país, mesmo que, para os mais alarmistas, essa ainda seja uma consequência distante. Mas o temor é que a questão seja possível a longo prazo.

O presidente do CSKA teme até que a Fifa resolva dar a Copa do Mundo de 2018 à Inglaterra. Claro, se a Copa do Mundo fosse retirada da Rússia, o que parece altamente improvável, Inglaterra e Alemanha seriam os candidatos mais viáveis a receber a competição, por estarem mais prontas para isso. Talvez só os dois países tenham condição de receber uma Copa com tão pouco tempo de preparação. Como a Inglaterra foi candidata à sede da Copa de 2018, estaria propensa a aceitar as condições da Fifa – que inclui aqueles descontos e isenção de impostos, que tanto deu polêmica aqui no Brasil. Mais do que isso, pedir que a Inglaterra recebe a Copa seria uma imensa cartada política da Fifa para ganhar manchetes positivas no Reino Unido, onde recebe muitas críticas duríssimas. Afinal, como se viu na Olimpíada de 2012, a empolgação com a participação inglesa em um evento como esse pode acabar superando, ao menos em parte, com a organização da evento no país. Mas essa possibilidade é tão remota que nãoi vale nem a pena perder tanto tempo com ela.

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Perder a Copa é algo muito distante, mas as punições são dadas como certas pelos dirigentes russos. Sergey Galitsky, dono de uma loja de varejo, Magnit, além de dono do Krasnodar, clube da primeira divisão russa, acredita que a RFU só deveria admitir os clubes da Crimeia quando a decisão for tomada “no mais alto nível” – o que significa que só se Putin tomar essa decisão. Só que muitos acham que mesmo Putin titubearia em relação a essa questão, mesmo sendo o principal articulador da anexação da Crimeia, politicamente. Tudo porque esse seria um movimento arriscado e uma aposta que poderia levar a perder a Copa, algo que para Putin, como já ficou claro, é muito importante. O ministro do esporte da Rússia, Vitaly Mutko, não se pronunciou sobre o assunto, o que leva a imaginar que essa é uma questão não resolvida no governo. Anexar os clubes da Crimeia antes que a comunidade internacional reconheça a anexação parece ser um movimento muito arriscado.

O aval de Putin, porém, não é visto como algo que defina a questão para outros dos dirigentes da Rússia. O ex-presidente da RFU, Vyascheslav Koloskov, mostrou preocupação mesmo que Putin tivesse aprovado a entrada dos clubes da Crimeia nos campeonatos nacionais. “É correto afirmar que Crimeia e Sevastopol estão dentro da Rússia. O problema é que nós temos algo impossível: eu posso registrar esses clubes na Rússia, isso não mudará nada. Nós não temos direito de jogar em Sevastopol ou Yalta, nem em Simferopol, em lugar nenhum. As sanções são inevitáveis, eu diria imediatamente. Mas ninguém irá impor as sanções máximas imediatamente. Em primeiro lugar, haverá um aviso para corrigir a situação”, disse o Koloskov. Galitsky voltou a mostrar preocupação nas conversas. “Além do fato que podemos ser expulsos das competições europeias, os estrangeiros começarão a ir embora e o castelo de cartas irá cair”, afirmou o presidente do Krasnodar. “Se a decisão dor tomada no topo do sistema político, nós vamos aceitá-la, porque nós somos cidadãos desse país”, disse.

A questão não parece ser SE a Rússia será punida, porque isso a conversa dos dirigentes que vazou mostra que já é algo esperado. A preocupação é COMO. Porque nós já vimos, os Estados Unidos estão pressionando politicamente contra a Rússia não só pela questão da Crimeia, mas também pelo problema do avião com suspeita de ter sido abatido em território ucraniano e pelas políticas externas do país de Putin – basta lembrar do caso de Edward Snowden, que está na Rússia depois de denúncias contra a NSA, a agência nacional de informações do país, no grande escândalo de espionagem.

O republicano John McCain chegou a sugerir boicote das nações do ocidente na Copa da Rússia de 2018, assim como aconteceu na Olimpíada de 1980, em Moscou. Perder a Copa parece ser uma punição pesada para os padrões da Fifa, mas se a pressão ficar forte demais politicamente, sabemos que a Fifa corre para onde o poder estiver, para não perder o seu próprio. A Copa do Mundo deve ser mesmo na Rússia, mas, até lá, devemos ver uma batalha fora dos campos por causa da política. E a Rússia deve abrir mão de alguns anéis para não perder os dedos. Os anéis podem acabar sendo os clubes da Crimeia. Isso teremos que ver com o tempo.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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