‘A exigência encurta suas carreiras’: médico explica riscos de lesões em jogadores muito jovens
Uma joia não está pronta para o futebol de alta intensidade em um calendário abarrotado, o que ajuda a explicar as lesões em jovens promessas
Se tem uma coisa que está assolando o futebol europeu nesta temporada, são as lesões. Raros são os clubes que passaram ilesos no departamento médico em 2023/24. Contudo, o que chama a atenção é frequência dos jovens jogadores se machucando cada vez mais cedo (e em gravidade mais alta). Gavi, Arda Güler, Pedri… todos são apenas alguns exemplos.
O camisa 8 do Barça estreou entre os profissionais (e na seleção da Espanha) com apenas 17 anos, em 2020/21. Naquela temporada, jogou 52 das 56 partidas do Barcelona, e mais 21 de 24 possíveis por La Fúria. Ou seja, 73 em apenas um ano. Pedri ainda disputou os Jogos Olímpicos duas semanas antes do início de 2021/22.
Não demorou muito para o meia sofrer com lesões. Tudo começou em setembro daquele ano e, de lá para cá, já são nove problemas em três temporadas. Hoje, aos 21 anos, Pedri não é o único prejudicado pela alta intensidade do futebol de elite em um calendário abarrotado. O jornal Marca fez uma relação dos jovens atletas que não puderam exercer suas profissões por questões de saúde.
Ansu Fati começou sua carreira no futebol profissional pelo Barcelona com 16 anos. Até agora, são 11 lesões e 613 dias de ausência. Gavi, também dos Blaugranas, foi lançado com 17 anos, já tendo sofrido quatro problemas físicos e ficando afastado por 240 dias. Barrenetxea, da Real Sociedad, começou a jogar com 16 anos. Ele também sofreu 11 lesões em sua curta trajetória no esporte e ficou 444 dias no departamento médico.
Güler, do Real Madrid, estreou no futebol com 18 anos, assolado por três problemas físicos e precisando ser ausência por 160 dias. Yeremy Pino, do Villarreal, foi lançado com 17 anos e já sofreu oito lesões, ficando afastado pelo departamento médico por 374 dias. Balde, do Barcelona, começou a jogar com 18 anos. O saldo é cinco lesões e 261 dias fora.
O impacto das lesões nos mais jovens
A exposição precoce dos mais jovens no futebol profissional tem um impacto determinante em seus corpos, ainda em formação. Intensidade física, horários exaustivos, stress, pressão psicológica, tudo contribui negativamente para os novos atletas. Em entrevista ao Marca, o ex-preparador físico do Real Madrid, San Martín, expôs o impacto das lesões no início das carreiras dos jogadores lançados antes do tempo ideal:
— A alta intensidade do futebol de elite de hoje (você corre muito, entre 10 a 13 km por jogo, e muito rápido, a velocidades de 36 a 37 km/hora) afeta diretamente esses jogadores muito jovens, que em muitos casos não têm um físico capaz de suportar os esforços brutais de um esporte como o futebol, o mais exigente de todos articular e muscularmente. Sendo tão jovens, o seu sistema cardiovascular ainda não está adaptado para jogar muitos jogos seguidos e suportar a frequência cardíaca média que a alta competição exige (170–172 batimentos por minuto e com apenas 15–20 segundos de recuperação entre os esforços). Nem os seus músculos conseguem absorver divididas, saltos, acelerações, mudanças de direção com e sem bola com garantias e sem risco de lesões. E não o fazem porque, simplesmente, não tiveram tempo para desenvolver.
— Se quisermos proteger o talento técnico dos jogadores muito jovens, não devemos apressar a sua aparição na elite e fazê-los jogar prematuramente sem primeiro completarem a sua preparação física. Temos também de controlar a sua participação. Se queremos que as crianças gostem de jogar futebol, devemos proteger sua saúde física e mental — José Luis San Martín.
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A visão médica confirma o problema
A visão médica confirma esse problema. O traumatologista Pedro Luis Ripoll revela como as lesões articulares afetam a cartilagem de crescimento. Esse tipo de problema grave em joelhos, por exemplo, dificulta a intervenção cirúrgica. Além das questões físicas, o médico também chama a atenção para a parte psicológica desses jovens atletas, que precisar lidar com uma pressão descomunal desde muito cedo:
— A ruptura óssea devido à tração de um tendão proveniente de um músculo também é especialmente significativa. Nos jovens, às vezes o tendão não é rompido, mas sim o osso ao qual está ancorado é arrancado. Isso leva a lesões mais difíceis de resolver.
— É evidente que o corpo desses atletas nessas idades não está preparado, não tem maturidade para disputar partidas a cada três dias no mais alto nível, sendo o que os grandes times exigem. Clubes não fazem treinamentos específicos para eles. É certo que o alto nível de exigência e o alto número de partidas afetam suas articulações e encurtam suas carreiras. Há outros meninos longe do mais alto nível que são obrigados a jogar em superfícies nem sempre adequadas à prática saudável do futebol — completa Ripoll.
— É especialmente perigoso do ponto de vista da saúde mental. Criamos ídolos desde muito cedo e, numa grande porcentagem, aos 20 anos são fracassos no futebol e na vida. Para isso são responsáveis o entorno dos meninos, que os pressionam para alcançar uma vitória que em muitos casos não está ao seu alcance. Essa questão da saúde mental é muito importante e deve ser cuidada e acompanhada.



