Morre Andrew Jennings, um dos mais importantes jornalistas em apurar a corrupção na Fifa e no COI
Escocês de nascimento e criado em Londres, Jennings escreveu reportagens e livros que abalaram o esporte mundial e colocou um holofote sobre a corrupção na Fifa
Um dos jornalistas mais marcantes no combate à corrupção no esporte morreu no último dia 8 de janeiro. Andrew Jannings sofreu “uma doença repentina e rápida”, segundo informado em suas redes sociais. Ele tinha 78 anos e marcou época com suas reportagens e livros que mostravam bastidores do poder no esporte e foi crucial para expor as entranhas da corrupção especialmente na Fifa, mas também no COI.
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Criado em Londres, filho de pais da classe trabalhadora, a sua carreira começou em jornais. No fim dos anos 1960, fazia parte da equipe do Sunday Times e depois passaria a integrar a BBC. Ele ficaria na emissora estatal britânica até 1986, quando ela se recusou a veicular o seu documentário sobre a Scotland Yard, que detalhava a corrupção policial. Ele se demitiu, o material apurado se tornou o seu primeiro livro, Scotland Yard’s Cocaine Connection, publicado em 1990, e o documentário seria veiculado pela ITV, no programa World in Action. Ele voltaria a trabalhar na BBC anos depois, no programa Panorama, onde continuaria suas denúncias.
O seu primeiro livro sobre esporte tem o sugestivo nome de “The Lords of the Rings”, de 1992, e falava sobre a corrupção no COI. Ele e o coautor da obra, Vyv Simson, chegaram a ter a prisão declarada de cinco dias na Suíça por “difamação ao COI”. Passou a ser persona non grata no Comitê Olímpico Internacional, claro, mas as intimidações não tiraram o seu fôlego e motivação para investigar.
Em 1996, ele publicou “The New Lords of the Rings”, falando sobre a corrupção nos órgãos internacionais de esporte, como o COI, especialmente sobre o escândalo da compra de votos para Salt Lake City sediar as Olimpíadas de Inverno de 2002. Você pode conhecer toda a história neste texto no Surto Olímpico. Jennings ainda escreveria outro livro sobre a reforma muito criticada do COI no “The Great Olympic Swindle”, de 2000, em parceria com Clare Sambrook.
Isso tudo foi no século 20, mas no século 21 o jornalista traria mais revelações sobre o esporte e, desta vez, na Fifa. Em 2001, o jornalista esteve em uma coletiva de imprensa da entidade e fez uma pergunta absolutamente direta a Joseph Blatter, então presidente: “Senhor Blatter, você já recebeu suborno?”.
Evidentemente, a ideia não era que o dirigente fizesse uma admissão pública, mas para incentivar quem quisesse trazer informações de dentro da entidade. Foi quase como dizer publicamente: “Blatter, estamos atrás de você”. Jennings já sabia de indícios problemáticos para a Fifa, mas precisava de provas.
Seis semanas depois daquela coletiva, um funcionário da Fifa se encontrou de forma reservada com Jennings e foi quando ele teve acesso a documentos comprometedores em relação à entidade. Seria só a primeira investida do britânico para mostrar a corrupção na Fifa.
Foi com Jennings que surgiram as primeiras informações sobre o esquema envolvendo ISL – que iria à falência logo depois – e Fifa em relação à Copa do Mundo. Em 2006, Jennings publicou o livro “FOUL! The Secret World of FIFA: Bribes, Vote-rigging and Ticket Scaldals”, no Brasil traduzido como “Jogo Sujo – O Mundo Secreto da Fifa”.
De volta à BBC, produziu o programa Panorama com documentários sobre a Fifa, com pesquisa e apresentação sua. Em 2009, Jennings recebeu chamado da IRS, equivalente à Receita Federal dos Estados Unidos, e do FBI, que investigavam a Fifa na época, de forma a colaborarem. Anos depois, já em 2015, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos agiu e prendeu diversos dirigentes da Fifa.
Jennings, então, começou a gravar o seu quinto e último filme para o programa Panorama, chamado de “FIFA, Sepp Blatter and Me” (“FIFA, Sepp Blatter e eu”). Enquanto filmava as últimas sequências em Nova York, Jennings sofreu um derrame que restringiu sua capacidade de trabalhar nos últimos anos.
Uma das iniciativas que Jennings mais colaborou ao longo da carreira foi o “Play the Game”, que trabalha para promover a democracia, transparência e liberdade de expressão no esporte. Ele participou de todas as conferências anuais da entidade. A entidade passou a ser uma fiscalizadora para as instituições esportivas nacionais e internacionais.
Seu trabalho reverberou muito no Brasil. Ele colocou luz sobre como João Havelange trabalhou dentro da entidade, com acordos que envolveram também a CBF do seu antigo genro, Ricardo Teixeira. Veio diversas vezes ao Brasil no lançamento dos seus livros e para palestras sobre jornalismo investigativo. Um dos seus mantras era: não baseie sua reportagem apenas em fontes anônimas, pegue os documentos.
Algo que ele levou a sério nas denúncias da Fifa, conseguindo as fontes anônimas, mas principalmente os documentos que comprovavam as denúncias. Foi o que o permitiu denunciar as duas maiores entidades do esporte mundial por décadas e, mesmo sendo constantemente ameaçado por elas, sempre fez o seu trabalho e mostrava que não era nada ilegal.
A Trivela lamenta a morte de Jennings e envia condolências à sua família e amigos. O seu legado será eterno e continuaremos a reverberar por aqui suas práticas para que o jornalismo exerça o seu papel de fiscalização.
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