Honestidade ou oportunidade

A sociedade inglesa é provavelmente uma daquelas em que as contradições inerentes a todas as sociedades estão mais escrachadas. Um país em que piratas do passado são considerados heróis e, ao mesmo tempo, qualquer estrangeiro que cai na área sem ser chutado na cara não passa de um “cheater.” Um país que tem ao mesmo tempo o Guardian, um dos melhores – se não o melhor – jornais do mundo, e Sun e News of the World, publicações que fazem a Veja parecer uma escola de jornalismo.
A dualidade apareceu na forma de dilema há alguns dias quando a BBC avisou que exibiria nesta segunda-feira mais um Panorama, seu programa de reportagens investigativas, sobre a Fifa. A matéria, de Andrew Jennings – que esteve no Brasil sem que ninguém se aproveitasse direito disso –, deve colocar mais lenha na fogueira da candidatura britânica a hospedar a Copa de 2018.
Para quem não se lembra, também foi um jornal inglês, e dos sérios, o Sunday Times, que revelou que delegados da Fifa estavam vendendo seus votos, constrangendo a entidade e obrigando-a a afastar e multar dois membros de seu comitê executivo.
Aí é que entra a questão delicada. A Fifa é uma entidade que tem entre seus executivos figuras notoriamente desonestas, como Jack Warner, aquele cara de Trinidad & Tobago que desviou ingressos que eram da confederação; ou Jerome Valcke, condenado por seu papel na treta com os cartões de crédito patrocinadores da entidade. Fora os que são notoriamente desonestos há Ricardo Teixeira, Grondona e o próprio Blatter. Por que acreditar que algo que este grupo decide pode ter qualquer critério técnico?
A Inglaterra, como governo, optou por entender a situação e, assim como seus piratas de outros séculos, se aproveitar dela. Não à toa, Jack Warner é cortejado por todo o governo britânico atual, assim como o era pelo passado. Nisso somos iguais a eles.
No que somos diferentes é no papel da sociedade e da mídia. A imprensa inglesa, ao contrário da brasileira, não participa de campanha nenhuma, e quer mais é revelar as desonestidades do mundo todo – ainda mais se os desonestos não forem britânicos. Com isso, acaba incomodando os barões da Fifa. E prejudicando a candidatura do país.
O fim da novela é imprevisível, mas sirvo-me da análise de Leonardo Bertozzi em seu blog no ESPN.com, no qual nosso editor-chefe aborda o mesmo tema aqui abordado. Se este é o quadro e este quadro pode levar a Copa para outro canto, tchau Copa. O preço para tê-la sem contestações é o que o Brasil vem pagando há alguns anos: dinheiro público com endereços privados, gângsters ampliando seus poderes e chantageando clubes e políticos e por aí vai.
Na imprensa brasileira, poucos foram contra — a Trivela foi e ainda é. Na inglesa, os sérios se manifestam desde já. Faz frio por lá, mas de vez em quando dá uma inveja, não dá não?



