Reino podre

Toda vez que me refiro aqui no blog aos dirigentes que controlam o futebol mundial escrevo “a máfia da Fifa”. Simplesmente porque quando você começa a ler mais e pesquisar um pouco todo passado recente da entidade hoje presidida por Joseph Blatter, as evidências pipocam de maneira assustadora. E sempre me pergunto: como é possível toda essa trupe passar ilesa por décadas?
O livro “Jogo Sujo, do jornalista britânico Andrew Jennings, é leitura obrigatória para quem gosta de futebol. Talvez você deixe de gostar um pouco, mas não pode ficar se enganando por muito tempo. As provas apontadas por suas investigações são claras e suficientes para derrubar qualquer chefe de estado, mas ao que parece a Fifa está muito acima de qualquer suspeita.
Nesta semana foi a vez do The Telegraph divulgar um vídeo onde Jack Warner pede o voto das federações caribenhas em Mohamed Bin Hamman, então candidato de oposição a Blatter nas últimas eleições da toda-poderosa. Warner é um ex-aliado da Família Fifa, que foi deixado de lado por ela quando as acusações contra ele e sua Concacaf aumentaram demais. O histórico desse homenzinho, aliás, é digno de cinema. Trágico. Ao ponto de substituir presidentes de federações nas votações da Fifa por amigos. Sem qualquer constrangimento.
Bin Hamman, como todos sabem, caiu. Com ele se foram Warner e seu fiel escudeiro, Chuck Blazer, na Concacaf. Blatter foi reeleito e passou a fazer uma faxina em sua oposição. Nesta semana foi divulgado que o Comitê de Ética da Fifa suspendeu diversos dirigentes que participaram desse encontro com Warner.
Estranhamente, porém, a entidade comunicou que não investigará mais dirigentes. Mesmo com a Justiça Suíça apontando entre 1980 e 2001 pagamentos de propinas a pessoas da Fifa que totalizam US$ 150 milhões. Tudo depositado em suas contas, e com alguns comprovantes enviados erroneamente para a sede do futebol mundial, em Zurique. É um show de absurdos, impunidades, histórias novelescas. Isso porque as contas dos Mundiais seguintes não apareceram…
Entre toda essa dinheirama, logicamente muito veio para o Brasil. Mas isso é claro, afinal, antes de Blatter quem mandava no esporte mais praticado no planeta era João Havelange. Nessa listinha da Justiça Suíça, por exemplo, aparece a empresa Sanud com pagamentos de US$ 8,5 milhões. A Sanud seria de Havelange e Ricardo Teixeira.
Mas isso foi no passado. Porque depois o glorioso chefão da Copa do Mundo de 2014 teria começado a receber pagamentos. As evidências estão no livro de Andrew Jennings e também nos tribunais suíços. Acho que muitos de vocês já conhecem essa história: para se livrar de processos, RT reconheceu o recebimento de propinas aos juízes suíços, pagou um belo valor ao país e se aproveitou da legislação que protege esse tipo de delação.
Felizmente, mas felizmente mesmo, o atual Governo brasileiro parece não querer ser amiguinho de RT. Dilma já teve seus entreveros, e há poucos dias a Polícia Federal informou que investigará o enriquecimento do presidente da CBF e também entrará em contato com a Justiça suíça para obter essas informações. Jennings, inclusive, já foi chamado para depor em comissões do Senado e da Câmara e confirmou presença. Que investiguem mesmo, para o bem do nosso futebol.



