*Por Stéfano Salles

Torcer exclusivamente pelo São Cristóvão no ano da graça de 2019 é um daqueles marcadores sociais que tornam seu portador inconfundível. Raymundo Quadros era um torcedor fiel que batia ponto a cada rodada na Rua Figueira de Melo, quando os Cadetes ainda jogavam em seu alçapão, mas suas pesquisas o projetaram para além do Bairro Imperial. Sua dedicação exaustiva ajudou a resgatar as histórias de muitos outros clubes pequenos do Rio, pelos quais era apaixonado. Produziu ricas publicações sobre agremiações que, mesmo centenárias, até então, não possuíam qualquer registro literário de sua existência. Esse trabalho o tornou querido em todo o estado, que lamentou sua morte neste domingo, aos 63 anos, vítima de infarto enquanto dormia.

Raymundo Quadros não se limitava a enxergar o esporte como mero reflexo do campo de jogo. Sempre percebeu os clubes como representações orgânicas da vida em comunidade. As peculiaridades de cada agremiação o seduziam. De modo natural, seu trabalho dava voz aos excluídos, transformando coadjuvantes em protagonistas. Embasado, contestava a pouco democrática história oficial, na qual os gritos das multidões com frequência abafam a verdade, sufocando a justiça.

Na obra, Raymundo explica que não tinha vínculos familiares ou qualquer proximidade natural que pudesse leva-lo a torcer pelo time do padroeiro dos motoristas, mas especula que a paixão talvez possa ser justificada pelo fator genético de um antepassado que não conheceu. “Meu bisavô (pelo lado materno) – o vovô Ernesto – era fanático torcedor do Andarahy Atlético Clube. Minha avó afirmava que quando o futebol acabou no clube, ele jamais veio a simpatizar por outro”.

O São Cristóvão, naturalmente, foi o objeto de preferido de seus estudos. Em 2004, publicou o principal livro sobre sua paixão: “Chuva de Glórias – A trajetória do São Cristóvão de Futebol e Regatas”. Nele, mostra sua inconformidade com o senso comum e se dedica a desfazer mitos que povoam o imaginário sobre o clube. Insatisfeito com as diferentes versões sobre o valor da venda de Ronaldo para o Cruzeiro em 1992, reproduziu Relatório da Diretoria Financeira de 1992, para mostrar que o craque deixou o clube por 30 milhões de cruzeiros, valor equivalente a módicos sete mil dólares, em valores da época.

A lenda urbana de que o São Cristóvão é o único clube do mundo que, autorizado pela Fifa, tem um uniforme só, era outro objeto de indignação que buscou explicar. Na verdade, os Cadetes têm assegurada, pelo Regulamento Geral do Futebol do Rio de Janeiro, a preferência para uso do uniforme branco. Com base neste documento garimpado por Raymundo, o clube expediu ofício para todos os adversários que enfrentou no Módulo Branco da Copa João Havelange, em 2000, sua única competição nacional disputada até hoje. Deu certo e a equipe fez todos os jogos de branco.

O pesquisador gostava de lembrar que o estatuto do São Cristóvão não impunha a existência de um segundo uniforme, mas diz que, na ausência de branco, os Cadetes devem ir a campo de rosa. A publicação que traz todos esses detalhes deu origem a outras duas obras. Com Gustavo Côrtes, celebrou os 80 anos do Campeonato Carioca de 1926, o único oficial do clube, em “Memórias da Conquista”, explicando como o clube alvo se tornou o sétimo vencedor da competição, até hoje só conquistada por oito clubes. Depois dos Cadetes, só o Bangu conseguiria se juntaria ao hall de campeões, em 1933.

É natural que paixão, pesquisa e militância andassem juntas. Em 1937, os clubes do Rio estavam divididos em entidades: a da Federação Metropolitana de Desportos (FMD), da qual o São Cristóvão fazia parte, e da Liga Carioca de Futebol (LCF). Os Cadetes venceram todos seus sete jogos, mas a disputa não chegou ao fim, porque as duas entidades se fundiram, formando a Liga de Futebol do Rio de Janeiro (LFRJ). O pesquisador entendia que, como os jogos restantes não afetariam a liderança do São Cristóvão, o clube também deveria ser reconhecido como campeão carioca de 1937, ao lado do Fluminense, vencedor da LCF. Para defender essa tese, publicou a quatro mãos, com Auriel de Almeida “O Campeão Esquecido – Como o título carioca de 1937 do São Cristóvão foi apagado da história”.

REFERÊNCIA SOBRE OS PEQUENOS DO RIO

Muitas vezes, as pesquisas de Raymundo Quadros beiravam a arqueologia. Eram horas semanais na Biblioteca Nacional, pesquisando jornais antigos em microfilme, jornais em papel já empoeirados e revistas amareladas. Isto, se tivesse sorte, porque eram frequentes as visitas a sebos, arquivos públicos e privados e feiras de antiguidades, onde garimpava raridades que nem mesmo os vendedores tinham noção do valor.

Sua casa era repleta das medalhas, camisas, flâmulas, fotografias, bandeiras e placas que colecionava. Muitas delas, relativas ao Andarahy do Vovô Ernesto que, a certa altura da vida, se tornou uma de suas obsessões. A ponto de pesquisar o suficiente para escrever “Andarahy: Um passado em verde e branco – Memórias do Andarahy Athletic Club”, sobre a história do clube de Dondon, que abandonara o futebol em 1937 e se extinguiu em 1973. A publicação resgata jogos, títulos, times, fotos e diretorias completas, além da rivalidade com o vizinho Villa Isabel.

Com o radialista José Rezende, Quadros trabalhou no atacado. “Vai dar zebra” conta a história e relembra personagens de nada menos que sete clubes: Bonsucesso, Campo Grande, Canto do Rio, Portuguesa da Ilha do Governador, Madureira, Olaria e, claro, São Cristóvão. Produziu ainda almanaques histórico-estatísticos de Bonsucesso, Campo Grande e Olaria. E, pouco antes de morrer, mandou para a gráfica um livro sobre o extinto Palmeiras de São Cristóvão, ainda sem data para ser lançado. No entanto, partiu sem realizar um sonho: a publicação do Almanaque do São Cristóvão, com súmulas de todos os jogos do clube.  Seu nome é presença certa em quase todas as obras sobre a memória do futebol do estado e não há pesquisador que não o tenha procurado para tirar dúvidas ou buscar orientações.

Parte do reconhecimento de seu legado veio também pela imprensa: foi colaborador de veículos de comunicação e teve matérias sobre seus trabalhos publicadas. Mas o alcance sempre foi muito restrito em relação à dedicação e à profundidade das descobertas. Se os clubes a que se dedicou fossem instituições de massa do nosso tempo, ele não só teria ganho dinheiro com seus livros, todos com os originais escritos à mão, como seria reverenciado como herói. Quando vejo a inscrição “Aqui nasceu o Fenômeno”, no estádio da Rua Figueira de Melo, tenho certeza que o fenômeno não pode ser outro que não aquele que eternizou a história do clube.

Stéfano Salles é repórter do jornal O Globo e pesquisador do futebol do Rio de Janeiro, com ênfase nos clubes de menor investimento. Coordena o Museu da Memória Americana, dedicado a resgatar os feitos do América do Rio.

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Raymundo Quadros aparece no documentário “Pequenos Clubes, Grandes Torcedores”, de Gustavo Cambraia. Vale conferir também o material:

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