México

Jorge Campos, 50 anos: O goleiro lisérgico que tanto simboliza a irreverência do futebol noventista

Alguns jogadores marcam o nome no futebol por serem incomparáveis. Jorge Campos foi assim, por seu estilo único, nos mais diferentes sentidos da palavra. Ver um goleiro de 1,75 m voando sob as traves é um tanto quanto incomum. No entanto, abandonar as luvas para virar também atacante em algumas partidas, só El Brody. O mexicano era arrojo puro. Compensava a falta de estatura com muita agilidade, que lhe servia nas corajosas saídas de gol e nas espalhafatosas pontes, mas também em suas aventuras no ataque. Obviamente, não estava imune às falhas, por vezes clamorosas, embora colecionasse seus milagres. E, não bastassem os hábitos incomuns para um jogador de sua posição, o arqueiro personificava a irreverência em seu estado mais psicotrópico. As roupas largas e coloridas, que ele mesmo desenhava, serviam de marca registrada à extravagância completa do camisa 1 – que usava a 9 ou a 10 no gol, além da própria 1 na linha. Um ídolo inegável da seleção mexicana. Um clássico do folclore futebolístico que completa 50 anos neste sábado.

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Nascido em Acapulco, Jorge Campos começou sua carreira ‘anfíbia’ dentro da própria casa. Filho mais novo em uma família cheia de boleiros, o garotinho ia para o gol sob as ordens de seu pai, para que não se machucasse tanto. Mas também se irritava e saía a causar estrago com a bola nos pés. Torcedor do Interjap, ganhou uma chance para atuar na base do clube. Depois seguiu para os Delfines de Acapulco, onde se destacou em um amistoso contra o Pumas. O ano era 1983 e, a contragosto de seu pai, o goleirinho viajou à capital para um teste com os felinos. Não foi aprovado. No ano seguinte, o jovem tentou a sorte no Cruz Azul, mas terminou barrado outra vez, por sua estatura. Porém, a insistência valeu muito a El Brody, que entrou para o time B do Pumas em 1985, aos 18 anos.

5 MAY 1996: Jorge Campos #9 of the Los Angeles Galaxy celebrates the third goal scored by teammate Jorge Salcedo #5 during an MLS game against DC United played at the Rose Bowl in Pasadena, California. The Galaxy won the game, 3-1. Mandatory Credit: Stev

O camisa 1 aos poucos conquistou a confiança dentro do clube. Até que, em dezembro de 1988, fez sua estreia no time profissional. Jorge Campos precisou substituir Adolfo Ríos, titular no gol, que se lesionou durante a partida contra o Santos Laguna. Recebeu mais algumas chances naquela temporada, mas não era o goleiro preferido do elenco. Só que a reserva o entendiava. Meses depois, convenceu o técnico Miguel Mejía Barón que também poderia jogar no ataque. A surpresa aconteceu em agosto de 1989, durante um jogo da Concachampions, no qual o “goleiro reserva” entrou na linha de frente e marcou um dos gols na vitória dos felinos. Pois El Brody não só se saiu bem na missão sem luvas, como se tornou artilheiro do time naquela temporada, com sete gols no torneio continental e outros 14 anotados do Campeonato Mexicano.

Todavia, Jorge Campos voltaria ao gol em 1990/91, quando Adolfo Ríos acabou vendido ao Veracruz. Sua condição? Que também pudesse atuar, vez ou outra, na linha. De qualquer forma, a partir deste momento, nada mais negaria a excelência do baixinho sob as traves. O arqueiro teve papel fundamental na conquista do Mexicano, o primeiro do Pumas em uma década, e foi eleito o melhor do campeonato em sua posição. A partir de 1991, também começou a ser convocado à seleção. Para marcar época.

Campos atravessou 13 anos como referência na meta de El Tri. Tornou-se em um ícone mundial. E não só pela bizarrice, mas também pelas boas atuações. Disputou três Copas do Mundo, titular em 1994 e 1998. Conquistou duas vezes a Copa Ouro e uma a Copa das Confederações, além de ter sido vice na Copa América. Enquanto isso, mantinha a sua idolatria no Pumas, apontado como o melhor goleiro do Campeonato Mexicano em cinco temporadas consecutivas. Em 1993, também foi escolhido como melhor do mundo pela IFFHS. Era convocado com frequência à seleção do Resto do Mundo, também pelo que representava, e até ganhou um personagem em Super Campeões – o goleiro de roupas coloridas ‘Ricardo Espadas’.

jorge

Em 1995, Jorge Campos deixou o Pumas pela primeira vez. Tentou a sorte no Atlante, em passagem lembrada pelo golaço de voleio, mas não emplacou. Virou andarilho, por mais que se mantivesse intocável na equipe nacional. Rodou por Los Angeles Galaxy, Chicago Fire, Cruz Azul, Tigres e Puebla, além de acumular outras três passagens pelo Pumas. Serviu tanto como goleiro quanto como atacante. Deixou suas anedotas até se aposentar em 2003/04, pendurando luvas e chuteiras por clube e seleção.

“Não vou me esquecer de quando Mejía Barón me disse para nunca mudar a minha forma de jogar. Para mim, o futebol sempre foi isso: um jogo para me divertir. Sempre pensei que a fama e esse tipo de coisas eram algo passageiro. E mais ainda como futebolista. Sempre soube que só era um momento na minha vida, e minha família também disse isso. Então, aproveitei ao máximo. Devia colocar os pés no chão, para que depois seguisse caminhando bem outra vez”, avaliou em novembro de 2004, em entrevista ao periódico La Jornada, após sua despedida.

Hoje, El Brody Campos atua como comentarista na televisão mexicana e administra sua rede de lanchonetes, a Sportortas Campos – onde a zoeira também impera e os pratos têm nomes inspirados em esportistas. Mais além, permanece forte nas lembranças de quem o viu jogar, tão vivas quanto as cores gritantes de seus uniformes. Um símbolo da galhofa que tanto marcou os anos 1990 e que, apesar da dose de marketing, também tinha a sua qualidade. Não fosse assim, o mexicano não marcaria tanto. Seja como goleiro ou como atacante.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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