América do Sul

Os 50 anos de Higuita, um patrimônio do futebol e também do folclore na América do Sul

Basta citar o nome que, com certeza, alguma lembrança vem a sua mente. René Higuita faz parte do folclore do futebol como poucos. Existe, é claro, uma imagem um tanto quanto galhofeira do goleiro de pouca estatura, cabelos longos e roupas coloridas que gostava de fazer defesas espalhafatosas, assim como sair tresloucadamente de sua área com a bola nos pés. Porém, o colombiano não seria tão importante sem a sua contribuição para o futebol de seu país. Se o estilo insano custou a eliminação na Copa de 1990, Higuita deixou como legado tantas outras conquistas. De certa maneira, simboliza a essência do esporte neste ambiente ímpar que é a América do Sul. Lenda que completa 50 anos neste sábado.

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Analisando friamente, Higuita não foi o melhor goleiro da história da Colômbia. Sem precisar de espetáculo, Óscar Córdoba e Faryd Mondragón tiveram carreiras bem mais regulares. Mesmo David Ospina aparece em um patamar mais alto com a seleção. Mas não dá para ser frio ao pensar em Higuita. Principalmente, pela maneira que ele despontou, junto com a geração que realmente botou o país no mapa do futebol. Em uma seleção de futebol envolvente e ofensivo, até o goleiro representava isso.

Higuita compensava a falta de estatura com muita impulsão e elasticidade. Ainda que suas falhas não fossem raras, os milagres também aconteciam com frequência. Seu papel, de qualquer maneira, ia além pela capacidade de jogar com os pés. Se hoje apontam como um diferencial o arqueiro que inicia o jogo com qualidade, o colombiano fazia isso há tempos. O problema vinha mesmo quando se metia a driblar. Habilidoso, frequentemente deixava os atacantes para trás. Mas a graça também podia custar caro. E nunca foi tão penosa quanto aquela bola perdida que acabou nos pés de Roger Milla, para dançar com a bandeira de escanteio em sua antológica comemoração.

Mas se na seleção o momento mais lembrado é o fracasso, Higuita se ergueu como uma lenda pela maneira como contribuiu também para o primeiro clube do país a conquistar a Libertadores. O goleiro era um dos protagonistas do Atlético Nacional campeão em 1989, convertendo a sua cobrança e pegando quatro chutes (três nas alternadas) durante a disputa de pênaltis decisiva contra o Olimpia. Depois, retornou para brilhar na campanha rumo à final em 1995. Suas atuações contra o River Plate, nas semifinais, estão entre as maiores do torneio – pelo golaço de falta e pelo papel nas penalidades. Que nunca tenha se firmado em outro clube, o que conseguiu pelos verdolagas foi grandioso.

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Ao longo dos anos, Higuita também se envolveu em diversos problemas fora de campo. Amigo pessoal de Pablo Escobar (que, segundo conta-se, costumava organizar “peladas” com os jogadores em suas propriedades), chegou a visitar o narcotraficante na prisão domiciliar de La Catedral. Depois, ainda se envolveu na intermediação de um sequestro ligado ao capo, motivo pelo qual acabou preso por sete meses e perdeu a Copa do Mundo de 1994. Anos depois, em 2004, também foi suspenso ao ser flagrado por uso de cocaína no exame antidoping. Histórias que, no entanto, não diminuem seus feitos em campo.

Entre virtudes e defeitos, entre quedas e reerguimentos, Higuita serve de retrato ao futebol sul-americano. O garoto da periferia de Medellín, criado pela avó após perder os pais e que precisou se virar vendendo jornais desde a infância, forjou-se a partir das circunstâncias. O atacante habilidoso virou goleiro por acaso na escola. Mudou a sua sorte. Mais do que isso, ajudou a mudar os próprios conceitos da posição. O colombiano passou longe da perfeição. Não foi menos feliz por isso, e nem deixou de fazer mais pessoas felizes. O que marca Higuita não é a vitória, mas o estilo único. O goleiro que salvava e driblava, na arte de inventar a partir de si. Que enchia os olhos pela plasticidade. E que, não à toa, eternizou seu lance mais famoso em uma bola fortuita: o Escorpião. Assim se faz a mágica do futebol.

Vale ler também a homenagem feita pelos amigos efemérides do éfemello aos 50 anos de El Loco.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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