Leste Europeu

Torcedor de 102 anos viajou 2 mil km para ver o Spartak e recebeu grande homenagem

Não existe idade para se torcer apaixonadamente por um time. Muito menos limites. E um grande exemplo disso vem de Moscou, onde Spartak e Dínamo disputaram o dérbi mais antigo da capital neste final de semana. Os alvirrubros contaram com uma presença especial na novíssima Otkrytie Arena, motivando na vitória por 1 a 0 sobre os rivais. Otto Fischer viajou dois mil quilômetros de trem para acompanhar o time de coração. Isso tudo aos 102 anos. Como presente, o “torcedor mais velho do Spartak” ainda ganhou uma visita guiada pelo estádio e pôde dar o pontapé inicial do clássico.

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A torcida de Fischer pelo Spartak começou ainda na década de 1920. Em tempos nos quais o comunismo se estabelecia na recém-formada União Soviética, os clubes eram ligados às instituições estatais. No entanto, os alvirrubros se diferenciaram neste sistema, criado por uma organização popular moscovita. O “clube do povo” rapidamente ganhou torcedores e seu estádio passou a ser utilizado como local de encontro aos opositores do regime. Otto Fischer, um dos pioneiros.

Nascido em uma região de forte presença germânica às margens do Rio Volga, o garoto perdeu os pais quando tinha apenas quatro anos. Morou por meses em um orfanato, antes de se mudar para a casa de um tio em Moscou. Justamente em 1918, quando a Rússia vivia os anos mais intensos da revolução bolchevique. A partir da adolescência, trabalhou como guarda-costas no Exército Vermelho, fazendo a segurança pessoal de membros do alto comando do partido comunista, como Stalin e Beria. Também começou a frequentar os jogos do Spartak, onde nasceu a sua paixão.

O velho torcedor, inclusive, teve a honra de conhecer os Starostin, que também jogavam pelo Spartak. “Eu me lembro muito bem dos quatro irmãos: Nikolai, Aleksandr, Andrey e Pyotr. Eles eram um pouco mais velhos do que eu, mas gritava muito os seus nomes quando estavam em campo”, se recorda. Por conta do caráter opositor do Spartak, os Starostin foram perseguidos pelo regime de Stalin durante a década de 1930. Assim como aconteceu com o torcedor.

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Em 1941, por conta de sua origem germânica, Otto Fischer foi preso pelos soviéticos após dois meses no front da Segunda Guerra Mundial. Por cinco anos, esteve atrás das grades, participando também de campos de trabalho forçado. Permaneceu no cárcere até 1946, um ano depois do fim da Segunda Guerra Mundial. A partir de então, passou a viver na região de Chelyabinsk, cidade próxima à fronteira da Rússia com o Cazaquistão, no centro-sul do país.

O retorno a Moscou após 74 anos longe da cidade aconteceu justamente neste final de semana, a convite do Spartak. Após ser recomendado por seu médico a não viajar de avião até a capital, Otto Fischer enfrentou a longa viagem de trem. E com alguns percalços: no dia de seu embarque, houve uma ameaça de bomba na estação de Chelyabinsk. Por conta do episódio, o idoso precisou caminhar por oito plataformas até chegar ao vagão. Nada que o impedisse de realizar o sonho, com a viagem e a estadia na capital pagas por um grupo de torcedores.

Antes da partida, Fischer conheceu o vestiário, cumprimentou os jogadores, deu o chute inicial do clássico e foi ovacionado pelas arquibancadas lotadas. Entretanto, nenhum momento o emocionou mais do que o encontro com o monumento dos irmãos Starostin. Então, o idoso não conteve as lágrimas, escondendo o rosto no cachecol do clube. “Mal tenho palavras para me expressar. Nem sei como vou contar essa experiência para os meus vizinhos e amigos”, disse. Certamente, revigorado pelas lembranças de uma juventude já tão distante.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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