The Other Chelsea

A coluna desta semana é um pouco diferente. Nada de análises sobre times russos ou ucranianos. Deixemos isso para as próximas, quando teremos, também, o review de toda temporada na Ucrânia. Nesta coluna, o assunto principal é cinema.
Lançado no final do ano passado e ainda estreando em diversos lugares na Europa, “The Other Chelsea – A story from Donetsk” certamente será um dos filmes preferidos de quem gosta de estudar ou simplesmente entender a relação entre política e esporte.
O documentário, dirigido pelo alemão Jakob Preuss, que atuou como observador internacional nas eleições ucranianas de 2004 – que ficaram mundialmente famosas por causa da Revolução Laranja -, narra a trajetória do Shakhtar Donetsk em 2009, quando inaugurou a Donbass Arena e conquistou a Copa da Uefa da temporada. Na verdade, o futebol é o pano de fundo para o tema do filme: política.
Donetsk é a quinta maior cidade da Ucrânia e tem sua história ligada à mineração. Foi, também, opositora à Revolução Laranja, que conduziu Viktor Yushchenko à presidência do país. Na cidade, Viktor Yanukovich, candidato da oposição e atual presidente do país, recebeu ampla maioria dos votos. Tudo porque ele era apoiado por Rinat Akhmetov, presidente do Shakhtar, bilionário e idolatrado pela população da região.
O filme segue o mineiro Sasha, de 55 anos, que ainda sente saudades da União Soviética, e o milionário Kolya, de 30, que depois virou político. Sasha compra os ingressos mais baratos das partidas do Shakhtar, enquanto Kolya vai no camarote mais caro e está mais interessado nos benefícios políticos que o clube pode lhe render.
A frase que aparece no cartaz oficial de The Other Chelsea – A story from Donetsk: “Há sempre uma conexão entre negócios, política e esporte”.
Aqui, o trailer do filme:
Abaixo, a entrevista completa que fiz com Jakob Preuss:
Por que você decidiu fazer esse filme? Qual foi sua inspiração?
Desde quando morei na Rússia, há dois anos, aprendi o idioma russo e desenvolvi um grande interesse pela região pós-União Soviética, eu estava procurando por um time para filmar nesta área. Quando estive em Donetsk em 2004, como observador internacional das eleições para presidente, no primeiro turno, que levaram à Revolução Laranja, eu já tinha sentido o forte movimento político “azul” pró-Rússia na região de Donbass. Eu era fascinado por essa cidade industrial com forte patriotismo e muitos contrastes.
Como você escolheu os personagens principais: Sasha e Kolya?
Muito acidentalmente. No início eu pensava em fazer algo sobre o movimento jovem ou o esporte Parcours, que é muito popular em algumas cidades russas e poderia ter sido um bom tema para mostrar a cidade e a região pelos olhos dos jovens. Meus dois filmes anteriores fiz com pessoas jovens do Iraque e da Bósnia. Mas então sentimos que isso não seria suficiente para um filme inteiro, e nos meus dias em Donetsk acompanhei cada vez mais o time de futebol que é muito presente na cidade. Fomos ao estádio e entrevistamos alguns torcedores, um deles era o Sasha. De volta a Berlim, decidimos que ele era um grande personagem para o filme, sendo um mineiro, torcedor há muitos anos e tendo um estilo muito amigável e engraçado. Eu realmente gosto das pessoas na Ucrânia e na Rússia. Já o Kolya Levchenko vi primeiro na televisão, em um talk show. Ele me pareceu um representante perfeito do movimento pró-Rússia, do clima soviético nostálgico que você pode encontrar na região, e como um jovem político ele era também um bom contraste para o outros protagonistas. Quando soube que ele também ia aos jogos de futebol sem ser muito interessado no jogo, mas mais no poder e nos negócios, achei que o estádio seria um bom espelho da sociedade.
Como você define “The other Chelsea”: um filme de política com esportes no fundo ou um filme de esportes com política no fundo?
Definitivamente um filme sócio-político, e algumas vezes filosófico, eu espero, com esportes no fundo. Futebol nunca foi a questão principal do meu filme.
Depois que o filme foi finalizado você teve problemas com alguns dos personagens, como kolya ou outro político?
Kolya começou a se preocupar se o filme poderia lhe prejudicar. Ele foi até Berlim quando estávamos quase finalizando a edição e tentou negociar algumas mudanças. Nós mudamos algumas poucas coisas, que não eram decisivas para o filme. No dia seguinte, depois de conversar com um advogado, ele nos propôs a compra dos direitos de exibição para a Ucrânia, Belarus e Rússia. Agora me arrependo de não ter perguntado quanto ele pagaria, seria interessante… Ele então achou que o clube de futebol não ia gostar do filme, o que complicaria sua exibição na Ucrânia. Mas o clube não teve nada a se opor. Agora ele está se esforçando ao máximo para se colocar como um político corajoso e honesto, que só foi muito aberto, e que você nunca pode ter vergonha de dizer a verdade, como ele fez. Absurdo.
Você me contou que teve a chance de conversar com pessoas do governo ucraniano sobre o filme. O que eles acharam?
Eu falei com o vice-Primeiro Ministro, Boris Kolesnikov, que também é vice-presidente do Shakhtar Donetsk. Ele me disse que gostou das partes do filme que falam sobre o clube, mas não gostou como a cidade foi mostrada. Ele nasceu lá e disse que parece que tudo é ruim. Ele usou os típicos mecanismos de defesa dizendo coisas do tipo “esse filme poderia ter sido feito na Alemanha nos anos 1960 também” ou “como pode um cineasta alemão vir aqui e tentar nos ensinar como fazer isso”. As banalidades usuais e respostas-padrão que você ouve às críticas na Rússia e no Leste Europeu. Sem citar o conteúdo do filme, eles dizem que “em outros lugares também é ruim e isso não é da sua conta”. Muito decepcionante vindo de um político de hierarquia tão alta.
Como foi seu relacionamento com as pessoas do Shakhtar Donetsk em 2009? Eles te ajudaram bastante?
Tive um bom relacionamento com todo staff do clube. Eles me ajudaram com as credenciais, mas foi uma relação profissional amigável. Não precisei de qualquer coisa particularmente deles, então não fui “ajudado” mais do que outros jornalistas, eu diria.
Sobre os jogadores do Shakhtar, acha que eles têm essa visão política do clube também?
Tenho que ser honesto: não sei o que os jogadores pensam. Estive com eles na tribuna na cerimônia de 75 anos do clube. Conversei com Dima Chygrynskiy, que já estava de volta quando eu estava filmando [o zagueiro foi negociado com o Barcelona em 2009 e retornou ao Shakhtar no ano seguinte], e ele se mostrou bem interessado. Dei a ele uma cópia do filme e será interessante saber o que ele e outros jogadores acharam.
Qual é a sua opinião sobre Rinat Akhmetov?
Não sei muito sobre ele. Acho que é um mau sinal o fato de ele ser membro do parlamento ucraniano e nunca ir lá, é um exemplo muito ruim e mostra que ele ainda tem medo do que pode acontecer na Ucrânia. Ele nunca quis se meter com política e só depois da Revolução Laranja ele se junto ao parlamento para ter imunidade. Ele não é um grande orador, e é um pouco frustrante que ele só diga banalidades em algumas ocasiões, como essa cerimônia. É também muito ruim que haja um certo culto a ele. O assessor de imprensa do clube tem um retrato de 1m50 por 2m dele em seu escritório logo atrás de sua mesa. Por outro lado, Akhmetov é um patriota local e faz muito pela região, mais do que outros oligarcas. Ele também tenta transformar seus negócios em modernas empresas e abrir a região para investimento estrangeiro. Ele também não é um político linha-dura e pronto a conversar com todo mundo. Mas quando você vê seus velhos amigos ao redor dele em Donetsk, você pode imaginar quão dura foi a década de 1990, e isso te dá um frio na espinha…
E como está a situação política na Ucrânia agora?
Ruim, como sempre. O parlamento é um circo, os “azuis” estão travando uma revanche contra os “laranjas” e colocando alguns na prisão. Os “laranjas” dizem que isso é como os nazistas na Alemanha, o que também é sem noção. Muitos dos “laranjas” trocaram de lado no parlamento somente para ficarem perto do poder e fazerem bons negócios. A política ucraniana é sempre um pouco pior do que você imagina: corrupção, oligarquia, populismo e “dirty polit-technology”.
Como e quando os brasileiros poderão assistir “The other Chelsea”?
O filme estará disponível em breve em DVD. Vejam o www.facebook.com/theotherchelseafilm.
Ficha técnica
Título: The Other Chelsea – A story from Donetsk
Diretor: Jakob Preuss
Duração: 87 minutos
Gênero: documentário
Site oficial: www.theotherchelsea.com


