Leste Europeu

Símbolo da Ucrânia, Voronin deixa cargo de assistente do Dynamo Moscou: “Não poderia mais trabalhar no país que está bombardeando minha terra natal”

Voronin foi ídolo do Dynamo Moscou como jogador e, atualmente, participava de uma campanha que pode encerrar o jejum em ligas nacionais que se prolonga desde 1976

O Campeonato Russo atualmente conta com cinco jogadores de nacionalidade ucraniana. Por enquanto, todos eles permanecem em seus clubes, apesar dos rumores de que o zagueiro Yaroslav Rakitskiy tinha sido desligado pelo Zenit após manifestações contra a invasão russa em suas redes sociais. Já o número de profissionais ucranianos em atividade na liga é maior, incluindo membros das comissões técnicas. Um dos mais reconhecidos, o ex-atacante Andriy Voronin, pediu demissão de seu cargo no Dynamo Moscou – clube no qual foi ídolo como jogador e vivia ótimo momento nesta temporada como assistente técnico. O veterano de 42 anos optou por deixar o cargo em decorrência da guerra.

“Não poderia mais trabalhar no país que está bombardeando minha terra natal”, afirmou Voronin, em entrevista ao Bild. O atacante deixou a Rússia com o início dos ataques e viajou com a família para a Alemanha. Desembarcou no país ao lado do pai, da sogra, da esposa e dos filhos. “Estou mal há quatro dias. Realmente mal. Quando vejo todas as fotos da minha terra natal, quando vejo as notícias. É tudo irreal quanto um filme, mas um filme de terror. Poucas palavras me restam”.

“Tenho amigos em Kharkiv, Kiev, na minha cidade natal de Odessa. Recebo mensagens a cada cinco minutos. É difícil de suportar. Eu só quero ajudar. Com dinheiro. Tanto faz… E eu não sei se deveria dizer isso, mas: se eu estivesse na Ucrânia agora, provavelmente também estaria com uma arma na mão”, complementou. “Sou grato às pessoas em Berlim. O mundo todo apoia nosso país. Pessoas na Rússia também se opõem a Putin. Recebi mensagens de todo o mundo, de ex-companheiros, de outros atletas. Também os russos me escrevem: ‘Pedimos desculpas. Não somos nós'”.

Voronin foi duro em sua resposta, ao ser perguntado o que a Alemanha deveria fazer para ajudar a Ucrânia: “Parem esse filho da puta do Putin. Ajudem os refugiados. E mandem armas para podermos nos defender. Temos belas cidades, um grande povo. Vamos continuar lutando. E vamos vencer. Mas o preço é tão alto, tantos mortos… Vivemos no ano de 2022, não na Segunda Guerra Mundial”. Ainda complementou: “Putin sabe o que o motiva? Talvez ele só queira estar nos livros de história. Mas ele nunca vai acabar neles, no máximo como criminoso”.

Voronin fez questão de separar as ações do governo da Rússia e do povo russo: “Eu e muitos outros ucranianos temos amigos na Rússia. E eles têm amigos, parentes na Ucrânia. Tanta gente já morreu. São filhos de mães ucranianas e russas. Só que ninguém na Rússia fica sabendo disso, não é mostrado na TV de lá. Noventa por cento das pessoas nem sabem o que está acontecendo. Putin não se importa com as pessoas, não apenas conosco, mas também com o povo russo”.

O Dynamo Moscou fez um comunicado simples ao anunciar a saída de Voronin. Apenas afirmou que a rescisão veio após um acordo mútuo, sem dar detalhes. Independentemente de sua nacionalidade, porém, o ex-atacante recebeu o carinho da torcida do Dynamo no último final de semana, mesmo já ausente. Os ultras cantaram seu nome durante a vitória por 3 a 0 fora de casa contra o Khimki. O resultado deu a liderança provisória do Campeonato Russo ao Dynamo, embora o time tenha sido ultrapassado pelo Zenit na sequência da rodada.

Voronin foi um dos atacantes mais importantes de sua geração na Ucrânia, presente tanto na Copa de 2006 quanto na Euro 2012 pela seleção. Sua carreira por clubes inclui momentos de destaque principalmente na Alemanha, por Bayer Leverkusen e Hertha Berlim, além de uma passagem modesta pelo Liverpool. Já na Rússia, o veterano atuou pelo Dynamo Moscou por três temporadas e viveu ótimos momentos com a equipe. Foram 24 gols e 20 assistências em 87 partidas, com um vice na Copa da Rússia. Pelo bom momento com os moscovitas, chegou a ser eleito o melhor jogador ucraniano em 2011. Aposentaria-se em 2014.

Voronin se juntou à comissão técnica do Dynamo em 2020, valendo-se do histórico como ídolo. Ocupava o posto de assistente de Sandro Schwarz, que também foi seu companheiro nos tempos de Mainz 05, quando ambos eram dirigidos por Jürgen Klopp. O Dynamo vem em ótima campanha no Campeonato Russo e briga pelo título com o Zenit, a apenas dois pontos da liderança. Potência nos tempos soviéticos, os moscovitas não levam a taça de uma liga nacional desde 1976 e foram vices pela última vez em 1994 – um ano antes de seu título de elite mais recente, a Copa da Rússia de 1995. Os alviazuis passaram inclusive pela segunda divisão, voltando em 2017.

Outro treinador que deixou seu trabalho na Rússia por discordar da invasão na Ucrânia foi Markus Gisdol. O alemão dirigia o Lokomotiv Moscou desde outubro. “Ser treinador de futebol é o melhor trabalho do mundo, mas não posso fazer isso em um país cujo líder invadiu outro território. Isso não combina com meus valores e, portanto, renunciei ao cargo. Não posso ficar no CT e treinar os jogadores, pedir que sejam profissionais, quando a poucos quilômetros há ordens que trazem sofrimento ao povo de um país inteiro. Essa é minha decisão e estou absolutamente convencido de que é certa”, apontou.

O Lokomotiv rebate, dizendo que Gisdol foi demitido. Em 12 partidas à frente da equipe, o técnico conquistou apenas três vitórias e realmente não vinha bem, mas tal decisão nesse momento soa estranha, já que não foi tomada durante toda a pausa de inverno. A equipe não entra em campo desde dezembro, já que sua partida na retomada do Campeonato Russo neste final de semana foi adiada por conta das limitações de viagens ao sul do país, onde os moscovitas enfrentariam o Krasnodar.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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