Leste Europeu

RÚSSIA / UCRÂNIA: Briga muito além do campo

Vinte e oito minutos do segundo tempo. Pelo Campeonato Russo de Juniores, o Terek Grozny recebe o Krasnodar em 4 de novembro, no estádio Sultan Bilimkhanov. A competição, também chamada de liga reserva, acontece simultaneamente ao Russão e os jogos seguem a mesma tabela, acontecendo no dia anterior ao quadro principal. Tem, no entanto, uma particularidade: as equipes não precisam escalar somente jovens. Sete dos atletas em campo precisam ter nascido a partir de 1o de janeiro de 1990, mas o goleiro e mais um jogador para cada setor do campo – defesa, meio e ataque – podem ser mais velhos ou estrangeiros.

Por conta dessa regra, o veterano atacante Spartak Gogniev, de 30 anos, estava em campo pelo Krasnodar. Sua carreira teve bons momentos, com passagens por CSKA e Dynamo Moscou – ele possui, inclusive, um recorde: único jogador na Premier Liga russa a marcar gols por seis times. Agora no entanto mira já o fim da linha. E nesse jogo citado, ele foi o protagonista para o bem e para o mal, tendo gerado uma enorme discussão no país e chamado a atenção até mesmo da Uefa.

Gogniev, já com cartão amarelo, recebe o segundo e é expulso pelo árbitro. Começa, então, a bater boca com os adversários e o próprio juiz. Nem seus companheiros conseguem o conter, enquanto ele reluta em deixar o campo. Quando finalmente abandona o gramado, é cercado por várias pessoas. A confusão aumenta e a briga generalizada começa. Pelas imagens abaixo, já dá para ver comoo Gogniev apanha bastante de pessoas fardadas e torcedores.

Só que o problema maior veio depois. Ao fugir para os vestiários, o jogador é cercado novamente por pessoas trajando uniforme do exército e acaba espancado. Duas costelas fraturadas, diversas lesões pelo corpo, nariz quebrado e concussão. Dessa maneira Spartak Gogniev deixou o estádio e seguiu para um hospital, onde foi operado. Ficará um bom tempo sem jogar.

Toda confusão só foi descoberta no final do mês, após as imagens serem divulgadas pela internet. Guardas que trabalhavam na partida recolheram as fitas de todas as câmeras dos funcionários do Krasnodar que estavam por lá, mas se esqueceram das câmeras digitais.

O Comitê Disciplinar do futebol russo puniu Gogniev em seis jogos pelo empurrão no árbitro, punição válida apenas para o torneio de juniores – ou seja, pode atuar no Campeonato Russo quando este for retomado em março -, e mais 50 mil rublos (1,7 mil dólares). O técnico e o administrador do time de juniores do Terek também foram suspensos, assim como o estádio fechado, por duas partidas. Além disso, o clube checheno pagará uma multa de 500 mil rublos (17 mil dólares) e teve a derrota decretada por 3 a 0.

A imprensa russa classificou a decisão do Comitê como branda demais e uma vergonha para o futebol do país. De acordo com os integrantes da entidade, isso era tudo que as atuais leis esportivas permitiam, e que somente uma corte superior poderia aumentar a pena. Só que Gogniev não fez qualquer queixa fora dos tribunais esportivos.

Na Rússia, infelizmente, há uma sensação de impunidade muito grande. As autoridades tentam esconder os fatos e simplesmente ignorá-los, assim a opinião pública não fica sabendo. Há muitos problemas nos jogos em Grozniy, capital da Chechênia, república separatista do país. Até 2008 o Terek não podia mandar os jogos em casa, mas desde então recebeu a aprovação da Federação Russa.

A região, localizada no Cáucaso ao lado do também problemático Daguestão, é governada por Ramzan Kadyrov, forte aliado de Vladimir Putin e que até esta semana era o presidente do Terek. Abdicou da função na segunda-feira, alegando que o clube precisa de mais atenção e ele já não tinha tanto tempo assim. Na prática, porém, todos sabem que as principais decisões seguirão sendo tomadas por ele – que havia assumido o cargo em 2004 após seu pai, Akhmad, ser assassinado em um atentado a bomba no antigo estádio do Terek – até porque o governo russo usa o futebol para acalmar os ânimos do Cáucaso, uma região com mentalidade e espírito totalmente diferente do resto da Rússia. O Anzhi é outro exemplo de uso esportivo como antídoto militar por ali.

Spartak Gogniev errou ao iniciar toda confusão. Depois o Terek errou ainda mais em não fornecer qualquer segurança no estádio. Pelo contrário, usar da sua segurança para agredir o atleta. Mas erram de maneira absurda as autoridades russas ao tentar minimizar o caso e, posteriormente, dar punições desproporcionais ao fato. Tanto que a FIFPro, Federação Internacional das Associações de Jogadores Profissionais, já pediu à Uefa uma investigação sobre o caso. E vale lembrar que a Copa do Mundo de 2018 será na Rússia.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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