Racismo em debate

O racismo é um problema social na Rússia. Quanto a isso não há questionamentos, e os constantes casos contra jogadores de futebol expõem isso a todos. Como o país receberá a Copa do Mundo de 2018, a questão passou a ser debatida por toda sociedade do futebol, e agora, finalmente, por quem cuida do esporte bretão em território russo também.
Nesta semana, o proprietário do Spartak Moscou, Leonid Fedun, afirmou que seu clube financiará um programa contra o racismo e o anti-semitismo. A decisão foi tomada dias após Emmanuel Emenike, atacante da equipe, ser ofendido por torcedores do Dynamo no clássico entre os clubes. O nigeriano, que já era alvo de bolinhas de neve, se revoltou e apontou o dedo do meio para os racistas. A Federação Russa o multou em 10 mil euros e deu a ele uma punição preventiva até o final desta temporada.
Esse foi o último caso, mas tantos outros aconteceram nos últimos meses. Duas vezes o alvo da ignorância foi Roberto Carlos. Mais recentemente, seu companheiro de Anzhi Makhachkala, Christopher Samba, também foi ofendido.
“Essa fundação, antes de qualquer coisa, conduzirá medidas públicas para criar uma boa atmosfera nas arquibancadas dos estádios russos. Isso para que os torcedores, mesmo nos cantos mais radicais, não revertam para questões nacionais ou racistas”, afirmou Fedun.
O dirigente tocou em um outro ponto muito complicado dessa história: o Zenit São Petersburgo. É notório, apesar de não ser oficial, que o clube evita contratações de jogadores negros. Nunca alguém do Zenit afirmou isso publicamente, mas já houve declarações sugerindo isso. Sugerindo que, por causa de sua torcida, a diretoria prefere trazer jogadores brancos.
A crítica de Fedun foi dirigida aos seus semelhantes do Zenit por falharem no controle de seus torcedores. As declarações, naturalmente, provocaram a resposta do rival.
O Zenit divulgou o seguinte em sua página no Twitter: “Estamos felizes em apoiar o Sr. Fedun em um propósito tão nobre”. Na sequência, porém, cutucou: “Esperamos que ele comece olhando para os cartazes pornográficos de sua própria torcida”. O clube se refere a esse vídeo.
Roman Shirokov, meia do Zenit e da seleção russa, também se pronunciou, criticando Fedun sobre as acusações a seu clube. “Parece que ele assiste futebol do espaço, para ser honesto. Ele diz essas coisas de vez em quando que fazem pensar se ele está no mesmo planeta que nós”, disse o jogador ao Sport-Express.
Questionado, diretamente, sobre o fato de o Zenit não contar com atletas negros, Shirokov fez questão de ressaltar que isso não existe e que nunca ouviu falar sobre essa questão internamente. “Não, nunca ouvi algo assim. Mas nós temos Bruno Alves! Ele não me parece tão branquinho! E mesmo assim ele não tem problemas com os torcedores”.
Com o debate na mídia, o Governo Russo também se manifestou através de seu Ministro dos Esportes, Vitaliy Mutko, ex-presidente da Federação Russa. Para ele, o racismo não é um problema sem solução na Rússia.
“Não vejo qualquer falta de esperança nessa situação. O processo de preparação para a Copa do Mundo forçará a solução desses problemas. Torcedores, cidades, estádios e a sociedade ficarão envolvidos… E o campeonato por si próprio, durante sua preparação, vai solucionar essas questões uma a uma”, garantiu Mutko à agência de notícias RIA-Novosti.
A proposta de Fedun foi debatida pelo político: “Concordo com Fedun que os clubes devam tomar uma posição. Eles não deveriam apenas dizer 'Ei, governo, resolva esse problema, cria alguma lei ou alguma coisa'”, completou.
O mais importante de tudo isso é que a questão começou a ser debatida na Rússia. É apenas o início, mas já é algo. Repito: o racismo é um problema social no país. Portanto, é algo que não será resolvido da noite para o dia, mas tomar o primeiro passo para isso é fundamental.


