Presidido pelo mítico Panenka, o Bohemians de Praga está de volta às copas europeias após 36 anos
O Bohemians bateu cartão nas competições da Uefa entre os anos 1970 e 1980, chegando a eliminar o Ajax, mas só agora conseguirá voltar aos torneios continentais

A próxima temporada oferecerá uma porção de estreias e retornos marcantes às copas europeias. Times como o Newcastle, o Lens, a Real Sociedad e o Union Berlim geram expectativas na Champions League, enquanto Brighton e Aston Villa são outros que se destacam na Liga Europa e na Conference. Fora do radar, um time que merece especial atenção é o Bohemians 1905. O simpático clube de Praga possui como sua marca principal o exótico canguru em seu escudo. E os alviverdes vêm de uma baita campanha no Campeonato Tcheco, com a quarta colocação. Graças a isso, conseguiram sua vaguinha nas preliminares da Conference e voltarão às copas europeias depois de 36 anos de ausência. O presidente do Bohemians, aliás, é a maior lenda do clube: ninguém menos que Antonín Panenka, herói da Tchecoslováquia campeã da Euro 1976.
O Bohemians possui uma história bastante curiosa. O clube foi fundado em 1905 com o nome de Vrsovice, uma referência ao distrito de Praga onde está localizado. Floresceu entre camadas operárias da vizinhança e também entre uma elite intelectual da cidade, enquanto nutria sua rivalidade com o vizinho (e potência) Sparta Praga. O nome Bohemians foi adotado em 1927, durante uma turnê pela Austrália. Os mandatários do clube acharam melhor ter uma alcunha fácil para os anglófonos e escolheram a versão em Inglês do gentílico da região da Boêmia, na então Tchecoslováquia. Na volta da viagem, os alviverdes ganharam dois cangurus (!), que doaram para o zoológico de Praga. Foi a partir de então que o animal passou a figurar em seu emblema.
Participante costumeiro do Campeonato Tchecoslovaco, o Bohemians era um figurante que zanzava entre a primeira e a segunda divisão da liga. Chegou a ser vice-campeão da copa e por vezes pintou na terceira posição da liga, mas nada além. Quando o país adotou o regime comunista e os esportes foram aparelhados pelo sistema, os alviverdes tiveram diferentes nomes – Sokol, Spartak, CKD. Foi apenas em 1963, depois de 15 anos, que a agremiação voltaria a se chamar Bohemians. Já o ápice da equipe começou em 1973, quando se iniciou um período de 22 anos na primeira divisão nacional. Não era coincidência que, a partir de 1967, os Cangurus passaram a contar com a maior lenda de sua história: o cerebral meia Antonín Panenka.
As boas campanhas do Bohemians no Campeonato Tchecoslovaco deixaram o clube em evidência, especialmente a partir da chegada do técnico Tomás Pospíchal, vice-campeão do mundo em 1962 nos tempos de jogador e que dirigiu os alviverdes por dez anos. Em campo, Panenka passou a frequentar a seleção e viveu seu ápice em 1976, quando liderou a campanha do surpreendente título na Eurocopa. O pênalti convertido com sutileza pelo bigodudo na final contra a Alemanha Ocidental ganhou seu nome. Ao mesmo tempo, o Bohemians despontou nas competições europeias de clubes. A estreia aconteceu em 1975/76, mas sem passar pelos húngaros do Honvéd na primeira fase da Copa da Uefa. Já o retorno se deu em 1979/80, com outra eliminação imediata, agora diante do poderoso Bayern de Munique estrelado por Paul Breitner e Karl-Heinz Rummenigge. Karol Dobias, outra figura imponente da seleção tchecoslovaca, atuava na defesa alviverde durante aquela campanha.
A partir da década de 1980, o Bohemians se tornou uma figurinha carimbada da Copa da Uefa. Eram os anos dourados do clube. Em 1980/81, os Cangurus eliminaram o Sporting de Gijón e sucumbiram diante do Ipswich Town. O time de Sir Bobby Robson seria campeão do torneio, mas chegou a perder por 2 a 0 em Praga, depois da vitória por 3 a 0 na Inglaterra. Aquela seria a última temporada de Panenka com a camisa alviverde, antes de se transferir ao Rapid Viena. Já em 1981/82, o Bohemians caiu logo de cara contra o Valencia na Copa da Uefa. Ficou o orgulho pela conquista inédita da Copa da Tchecoslováquia na mesma temporada, depois de dois vices. O Bohemians ainda mandou quatro jogadores à Copa do Mundo de 1982: Frantisek Jakubec, Premysl Bicovsky, Pavel Chaloupka e Zdenek Hruska. Panenka também estava lá, em sua despedida da seleção.
A melhor temporada da história do Bohemians aconteceu em 1982/83. Os alviverdes conquistaram seu inédito título no Campeonato Tchecoslovaco, o único até hoje. Também fizeram bonito na Copa da Uefa, com uma campanha até as semifinais. Os alviverdes eliminaram Admira Wacker, Saint-Étienne, Servette e Dundee United. Desabaram somente diante do Anderlecht, que terminou como campeão daquele torneio. Já em 1983/84, aconteceu a estreia do Bohemians na Copa dos Campeões. Depois de atropelarem o Fenerbahçe na primeira fase, os Cangurus foram eliminados pelo Rapid Viena nos gols fora. Ganharam por 2 a 1 em Praga e perderam por 1 a 0 em Viena. Panenka estava do outro lado, embora o gol decisivo tenha sido de Hans Krankl.
Depois disso, o Bohemians teve um vice-campeonato tchecoslovaco e completou sete temporadas num intervalo de oito anos no pódio da liga, mas se limitou à Copa da Uefa. Outro momento especial no torneio continental aconteceu em 1984/85. Os alviverdes passaram pelo Apollon Limassol e depois eliminaram o Ajax nos pênaltis – com os jovens Marco van Basten, Frank Rijkaard e Ronald Koeman do outro lado. A queda se deu contra o Tottenham nas oitavas. Em 1985/86, o Bohemians deixou pelo caminho o Györ e sucumbiu na fase seguinte contra o Colônia. Já a última aparição se deu em 1987/88, com a eliminação na primeira fase diante do Beveren. A vitória em Praga por 1 a 0 na volta não impediu a despedida dos Cangurus. Desde então, lá se foram 36 anos de ausência dos torneios continentais.
O ocaso da geração dourada do Bohemians fez o clube perder força a partir dos anos 1990. Os alviverdes voltaram a ser um ioiô na tabela do refundado Campeonato Tcheco. A queda em 1994/95 encerrou um período de mais de duas décadas na primeira divisão. Até 2013, os Cangurus acumularam seis acessos e seis descensos, com uma rápida passagem pela terceira divisão em 2005/06. A agremiação chegou a ter sua própria continuidade ameaçada, mas superou as crises. Doações de dinheiro organizadas pelos próprios torcedores foram essenciais à sobrevivência.
Neste intervalo, o Bohemians chegou a ser quarto colocado no Campeonato Tcheco em 2001/02, mas não conseguiu a vaga na Copa da Uefa. A espera seria bem mais longa. O atual período dos alviverdes, a partir de 2013, marca a maior estabilidade do clube desde o fim da Tchecoslováquia. São dez temporadas consecutivas na primeira divisão do Campeonato Tcheco, a mais longa estadia depois da cisão do país. É verdade que os Cangurus nunca tinham passado da sétima posição na tabela durante tal sequência. Até por isso, o novo feito surpreende.
Curiosamente, o Bohemians escapou por pouco do rebaixamento na temporada passada. A equipe terminou no 14° lugar do Campeonato Tcheco 2021/22 e precisou disputar os playoffs, até conseguir a permanência com duas vitórias sobre o Opava. Antigo assistente técnico, Jaroslav Vesely foi promovido ao cargo de treinador principal e comandou a guinada na atual temporada. Os Cangurus já tinham feito uma campanha bem regular na fase de classificação da liga, mantendo-se quase o tempo todo dentro do G-6 e se classificando para o hexagonal decisivo. Já era a melhor campanha neste século e o que viesse era lucro. Os alviverdes até tomaram um baque, com a goleada por 6 a 0 do Slavia Praga na primeira rodada da fase final. Ainda assim, conseguiram segurar o quarto lugar muito graças à vitória por 2 a 0 sobre o Viktoria Plzen na penúltima rodada – que, por tabela, também deu o título ao rival Sparta Praga. Mais importante aos Cangurus era retornar ao cenário internacional, o que se cumpriu.
O Bohemians terminou o Campeonato Tcheco com 50 pontos, bem longe dos 78 somados pelo campeão Sparta Praga. Os alviverdes ficaram até com saldo negativo, por conta de algumas goleadas sofridas. Nada que diminua o reencontro com a própria história, 36 anos depois da última aparição na Copa da Uefa. Os Cangurus entrarão na segunda fase preliminar da Conference League. Poderão honrar seu passado e oferecer ainda uma despedida digna ao capitão Josef Jindrisek. Aos 42 anos, o meio-campista está no clube desde 2009 e segue imprescindível nas escalações. Outros nomes tarimbados, mas não tão efetivos na campanha, são o meio-campista Jan Moravek e o centroavante Tomas Necid.
A grande atração do Bohemians na Conference League, de qualquer maneira, estará na tribuna de honra. Antonín Panenka, do alto de seus 74 anos, ocupa a cadeira presidencial dos alviverdes desde 2005 – resgatando a equipe a partir da terceira divisão. Passou poucas e boas, mas conseguiu resgatar o prestígio do clube e o verá de volta num contexto continental que também desfrutou como jogador. A lenda merece tal sucesso.
Dobré ráno, Evropo 💚#BOHEMKADOTOHO pic.twitter.com/EQVPxdSQ8N
— Bohemians Praha 1905 (@bohemians1905) May 28, 2023


