Leste Europeu

Para entender as razões do decacampeonato do Ludogorets na Bulgária, um papo com o lateral Cicinho

O paraense participou de seis dos dez títulos e falou sobre diferentes questões que impulsionam a maior dinastia da Europa

O Ludogorets não sabe o que é disputar uma temporada na primeira divisão do Campeonato Búlgaro sem vencer a taça. Desde que chegaram à elite, em 2011/12, os alviverdes levaram todos os troféus em disputa. Em 2020/21, as Águias emendaram o decacampeonato nacional, na maior hegemonia das ligas europeias na atualidade. O investimento de Kiril Domuschiev, magnata do ramo farmacêutico, ajuda a entender a ascensão meteórica de um clube que nunca tinha figurado na elite local e está localizado numa cidade de 35 mil habitantes. De qualquer maneira, os méritos do trabalho são mais amplos, seja para desbancar bastiões do futebol búlgaro como o CSKA ou o Levski Sofia, seja para marcar presença continuamente nas copas europeias – com cinco aparições na fase de grupos da Liga Europa, incluindo quatro passagens aos mata-matas, e duas na fase de grupos da Champions.

Para entender um pouco mais sobre a dinastia do Ludogorets na Bulgária, batemos um papo com o lateral Cicinho. O paraense chegou ao clube em 2015, transferido do Santos. Viveu seis dos dez títulos emendados na sequência e entende um bocado sobre a realidade em Razgrad, a ponto de ser convocado para a seleção búlgara a partir de 2020. Aos 32 anos, Cicinho se aproxima dos 200 jogos com a camisa alviverde e comentou sobre as ideias por trás do projeto, a convivência interna, as diferenças em relação à concorrência e também as perspectivas de sustentar tal hegemonia. Confira:

Cicinho, do Ludogorets (Foto: Imago / One Football)

– O que você vê como explicação ao decacampeonato?

A estrutura que o Ludogorets tem aqui dificilmente você vai ver em outro clube. É um clube com uma estrutura enorme, muitos campos maravilhosos. O campo que a gente treina possui o mesmo gramado de jogo. O clube dá uma assistência muito grande para os jogadores estrangeiros que vem pra cá, já que a maioria é de estrangeiros. E, principalmente, as contratações são bem feitas, com bons jogadores. Desde quando subiu, o Ludogorets sempre contratou bons jogadores e fez bons times. Acredito que, juntando tudo isso, essa hegemonia vai durar por muito tempo ainda.

– Como você explica a ideia por trás da política de contratações? O futebol búlgaro não vive mais o momento relevante que já teve até os anos 1990. Como é pensada essa política de contratações, com muitos brasileiros, mas também grupos fortes de africanos e romenos? Existe alguma ideia de formar pequenas colônias e ajudar na adaptação?

Aqui eles têm uma pessoa que procura contratar jogadores com a característica que o presidente gosta, que o time se acostumou a jogar, que é um jogo de mais posse de bola e toque. Então, não interessa muito a nacionalidade, precisa ter essa característica em campo. E o Ludogorets sempre procurou contratar mais de um jogador do mesmo país, para formar grupos e não deixar ninguém se sentir sozinho. Se tem um brasileiro, o presidente não gosta de só um, tem que ter uns quatro ou cinco. Eles vão à Romênia e buscam os jogadores que têm a característica do clube, aí trazem três ou quatro. Isso é importante também para que melhore o entrosamento do time.

– Qual a importância dos brasileiros para esse sucesso e para aplicar a mentalidade de jogo, de mais toque de bola?

O presidente gosta muito de jogador brasileiro. Ele gosta da forma como o brasileiro joga, um jogador mais ousado, que tenta as coisas diferentes. Os jogadores europeus são mais táticos, pegam e passam, mas o jogador brasileiro não, ele gosta de fazer um pouco mais. Acredito que o Ludogorets encantou a Bulgária por esse jeito de jogar. Agora temos um pouco de dificuldade porque o time está sendo remontado, a maioria dos jogadores já tinha uma idade mais avançada. O nosso principal jogador acabou de sair, era o Marcelinho, então estamos no meio de uma reformulação. Mas acredito que, quando a renovação for completa, o time voltará a jogar como antes.

– Como você vê essa reformulação, até para sustentar a hegemonia por mais tempo?

Acredito que essa reformulação vai dar certo, porque estão tendo o mesmo cuidado na montagem do elenco de antes. Aqui eles gostam de contratar jogadores mais novos para formar o time, não para vender. Eles gostam de contratar jovens para ganhar entrosamento e, com o passar do tempo, dar o retorno que eles esperam em campo. Acredito que vamos ter sucesso nesse processo, para ganharmos o título por mais dez anos.

Cicinho é apresentado no Ludogorets

– Existe alguma meta dentro do Ludogorets para as competições europeias?

Nosso objetivo maior é ganhar o Campeonato Búlgaro para também entrar nas preliminares da Champions League. Tentamos entrar na Champions, mas está cada vez mais difícil. Antes a gente tinha seis jogos, agora são oito. Pegamos times não muito fortes, mas na reformulação a diretoria está preocupada em formar uma boa equipe para que possamos voltar a disputar a fase de grupos. Na Liga Europa, estamos sempre disputando, em alguns anos passamos de fase.

– Olhando para o seu lado, como você compara a sua evolução no campeonato e as dificuldades que o time encontrou desde sua chegada em 2015?

Quando eu cheguei, o Ludogorets ganhava o campeonato mais facilmente. Com o passar dos anos, as equipes começaram a ficar mais fortes. Há dois anos, a gente ganhou o campeonato na última rodada por um ponto de diferença. Antes, a gente ganhava com 15 ou 12 pontos na frente, como no ano passado. Mas o campeonato está ficando mais forte, mais difícil, por isso a necessidade de uma reformulação. Quanto à minha evolução, no primeiro ano eu tive bastante dificuldade de adaptação, pelo futebol. Apesar do presidente gostar do jeito brasileiro de jogar, eu era lateral, tinha que defender mais do que no Brasil. Eu precisei me adaptar para ser um pouco mais defensivo. Acabei me adaptando e não é à toa que estou aqui há seis anos.

– Como você vê a diferença do Ludogorets, comparado aos outros clubes da Bulgária?

Acredito que o Ludogorets, nesses dez anos, vem virando um espelho para os outros clubes. Lógico que é um clube com dono, o dono é multimilionário e tem muito mais condições. A meu ver, a dificuldade para os outros é que o Ludogorets não vende muitos jogadores. Até vendeu alguns quando veio uma grande proposta, como o Jonathan Cafu, mas o presidente gosta de ter um time bom pra ser campeão e entrar nas competições europeias. Os outros clubes aqui não priorizam tanto isso. Tem um pouco o espelho do Ludogorets nas contratações, mas eles não tentam ficar com os jogadores por muito tempo, já vendem na primeira proposta. Então, não formam um elenco entrosado como o Ludogorets costuma fazer.

– O Ludogorets é de uma cidade pequena. Como é o ambiente de torcida aí, já que no Leste Europeu os torcedores são mais fervorosos?

Não temos uma torcida tão grande porque é um clube novo. A maioria das pessoas mais velhas tem como principal clube o CSKA e o Levski, que são as torcidas que dominam. Mas o Ludogorets nesses dez anos tem conquistado seus fãs, principalmente os torcedores mais jovens, que começaram a gostar de futebol por causa do nosso futebol. A gente vem criando uma torcida aqui, o que é legal. Não é muito grande, mas faz uma boa festa quando a gente vai jogar no nosso estádio. Isso vem ajudando muito, apesar de ser uma cidade pequena. Além disso, o Ludogorets virou uma espécie de representante do país nas competições europeias, então caiu na graça do povo, por mais que a maioria torça por CSKA ou Levski.

Cicinho, do Ludogorets (Foto: Imago / One Football)

– Em certos países, existe uma rejeição grande sobre clubes ligados a empresários e que tiveram um crescimento muito rápido. Como é essa relação das outras torcidas com o Ludogorets?

Eu não vejo muitas críticas. Lógico, existem aqueles torcedores muito fervorosos que pegam no nosso pé. Mas os outros torcedores, mais acessíveis, gostam do jeito como o Ludogorets joga, gostam de ver os jogos e têm uma simpatia boa pelo nosso clube. Fica naquele meio termo. Mas a gente está evoluindo e cada vez conquistando mais fãs.

– E como você vê o momento dos grandes clubes da Bulgária? Se fosse para apontar algum concorrente para tentar quebrar a hegemonia do Ludogorets, quem seria?

Essa diferença de pontos que o Ludogorets tem na tabela é grande, mas se você for olhar a gente jogando contra o CSKA ou Lokomotiv Plovdiv, vai ver que a gente tem trabalho. Raramente são jogos com vencedor, acabam em muitos empates. São equipes que todo ano vêm evoluindo e, se o Ludogorets não estiver atento, corre o risco de perder essa hegemonia. Por enquanto, estamos bastante focados e acredito que poderemos manter essa hegemonia por mais tempo. Mas tem o CSKA, o Levski quando monta boas equipes, o Loko Plovdiv que todo ano evolui… Acredito que precisamos melhorar a cada ano para sustentar essa sequência de títulos.

– Como é a relação com o dono do clube? O contato, a presença dele no dia a dia do clube, a influência na chegada de reforços…

Ele é um cara bem respeitoso, gosta de jogadores brasileiros. Quando tem que chamar atenção, ele chama sem dó nem piedade, mas quando tem que dar o aparato, ele nunca deixou ninguém na mão. A cobrança é normal, como investidor. Nunca tive nenhum problema com ele, graças a Deus. Sempre que a gente fala, são conversas divertidas. Acredito que, por isso também, o Ludogorets tem esse sucesso – por contar com um cara que sabe lidar com os jogadores corretamente.

– Como você compara a estrutura do Ludogorets com aquilo que já experimentou no Brasil, principalmente no Santos?

O Santos tem uma estrutura muito boa, é um clube que tenho todo o carinho do mundo por me dar uma grande oportunidade de aparecer no cenário nacional, assim como a Ponte Preta. Também joguei no Brasiliense, onde há uma estrutura muito boa. Mas, comparando com nossa estrutura aqui, eu nunca fui no CT do São Paulo e nem do Athletico Paranaense, que falam que são muito bons, mas acredito que, dos clubes que eu já fui, nenhum tem a estrutura do Ludogorets. A estrutura do nosso clube é comparada com Barcelona, Bayern de Munique… Os empresários que vêm aqui trazer jogadores se impressionam, porque acham que na Bulgária não ia ter uma estrutura dessas. Eles sempre comentam que, mesmo na Europa, poucos clubes têm esse aparato.

– O que você vê como diferencial nessa estrutura para facilitar o trabalho de vocês?

A tranquilidade que eles dão pra família, não ter nada que você precise se preocupar. Eles sempre correspondem quando você precisa. Isso deixa o jogador mais confortável pra exercer seu trabalho dentro de campo. Nos seis anos em que estou aqui, o clube nunca atrasou salários e nem nada, nem passou perto disso, paga as premiações certinho. Eles se preocupam em deixar o jogador só pensando na partida e nada mais de extracampo. Procuram dar o suporte para que o atleta esteja bem dentro de campo.

Cicinho, pela seleção da Bulgária (Foto: Imago / One Football)

– Como é sua vida numa cidade pequena da Bulgária? O que você criou de laços?

É realmente uma cidade pequena, mas você pode aproveitar se souber, e dá para viver bem com a família. É uma cidade segura, você pode sair a qualquer hora. Minha filha tem 12 anos, estuda desde os cinco anos na escola búlgara e vai andando quase todos o dias para casa – só não vai quando estou por aqui, que faço questão de levá-la. A gente deixa ela ir, com toda a tranquilidade, porque sabemos que é uma cidade segura. Já no Brasil, como temos uma vida pública, acredito que não seria possível. Aqui temos essa tranquilidade de viver bem, viver sem sustos. A uma hora e meia daqui tem cidade com praias bonitas, tem Bucareste do lado. E, se você quiser viajar, em duas ou três horas de voo está em qualquer outro país da Europa. A Bulgária é bem localizada e dá para viver bem se a gente aproveitar.

– Qual a sua relação com a língua, depois de seis anos? Como você se vira no clube?

Nunca tive tanta dificuldade de falar, porque aqui no clube tem muito estrangeiro. A língua búlgara pouco era falada no time, agora é um pouco mais, porque são mais jogadores locais. Com o tempo, eu pude estudar e aprender um pouco. Hoje em dia eu consigo me virar bem. Tanto é que, quando vou para a seleção, só tem eu de estrangeiro e precisei aprender. Não falo perfeitamente, mas sei me virar bem. Aí vou levando assim.

– Como você viu a oportunidade de defender a seleção e qual seu plano?

Eu já estava aqui há cinco anos, quando tirei minha cidadania búlgara, e vinha fazendo bons campeonatos. Sempre ouvia falar que, quando eu me naturalizasse, teria a chance de defender a seleção. Respondia que seria uma honra, por defender um país que me acolheu tão bem. Fiquei nessa expectativa e, logo depois de receber a cidadania, fui convocado. Fiquei muito feliz, porque é o reconhecimento do meu trabalho. Minha ideia na seleção é, quem sabe, voltar a disputar uma Copa do Mundo ou uma Eurocopa. É uma seleção em reformulação, ainda vive muito na sombra daquele time de 1994, mas acredito que os jovens jogadores estão vindo com muita qualidade e que podemos voltar a disputar esses campeonatos. Aqui mesmo no nosso clube tem um menino chamado Dominik Yankov que é de muito talento e, quando começar a ser titular na seleção, pode ajudar muito, assim como outros garotos das demais equipes. Quando esses jogadores estiverem prontos, será o momento em que a seleção voltará a disputar os grandes torneios.

– Qual seu plano de carreira? Pretende se aposentar aí ou deseja voltar ao Brasil em médio prazo?

É um país que me acolheu muito bem. Eu não sei os planos do clube pra mim, mas se for da vontade da direção, eu não tenho motivos pra sair daqui antes da minha aposentadoria. É um clube que dá total segurança para o jogador. Estou bem adaptado aqui, estou feliz. Se for da vontade do clube, não vejo problema nenhum em terminar minha carreira no Ludogorets. Com 32 anos, já não tenho muito tempo mesmo… (risos)

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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