Leste Europeu

Os tempos em que o Dinamo Zagreb era uma força europeia: na década de 1960, até título continental os iugoslavos levaram

Com vários nomes badalados da seleção e grandes técnicos, o Dinamo foi o primeiro clube da Iugoslávia a levar um troféu continental

O Dinamo Zagreb é um dos times mais dominantes da Europa em sua liga nacional. Desde que o Campeonato Croata se formou em 1992, o clube da capital conquistou 21 dos 29 títulos. O Dinamo costuma ter apoio das autoridades e isso foi mais evidente nos anos logo após a independência, já que os Azuis serviam de símbolo da identidade croata dentro do antigo Campeonato Iugoslavo – o qual conquistaram oito vezes. Mas, apesar deste domínio doméstico a partir dos anos 1990, e das costumeiras aparições nas copas europeias, o Dinamo demorou para fazer uma campanha internacional realmente impactante. Desde a independência, o clube não tinha chegado às quartas de final de um torneio da Uefa, como faz agora na Liga Europa. Para achar um precedente, é preciso voltar à década de 1960, quando os então iugoslavos levaram até taça para Zagreb.

Oficialmente, o Dinamo Zagreb surge em 1945, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. As raízes do clube, no entanto, estavam fincadas em Zagreb desde 1911 – como conta este texto do ótimo Copa Além da Copa, publicado pelos amigos do Ludopédio. A origem dos Azuis vem do Gradanski Zagreb, uma agremiação que surgiu ainda no Império Austro-Húngaro para representar a identidade croata no esporte. O time chegou a ser uma potência nos anos 1920 e 1930, enfileirando títulos no campeonato local e fazendo excursões pela Europa. Seu treinador era o húngaro Márton Bukovi, considerado um revolucionário, que tempos depois dirigiria o MTK Budapeste e ofereceria as bases táticas para a seleção húngara de 1954.

Durante a primeira metade dos anos 1940, o Gradanski se estabeleceu como o principal clube do Estado Independente da Croácia, um país fantoche nas mãos dos nazistas. Até por essa ligação, como outros times locais, o Gradanski acabou dissolvido por sua relação com o Eixo. Mas parte de seu elenco e dos torcedores se reuniria ao redor do Dinamo Zagreb, na nova estrutura da Iugoslávia comunista. Mesmo dentro de uma nova realidade nacional e esportiva, os Azuis mantinham uma identidade essencialmente croata. E seguiam como uma equipe importante, a ponto de conquistar o Campeonato Iugoslavo em 1947/48.

O Dinamo Zagreb não tinha a mesma força dos clubes de Belgrado, até pela relação de Partizan e Estrela Vermelha com o centro do poder. Mesmo assim, se mantinha como um dos times mais competitivos da Iugoslávia. Os Azuis levaram mais duas edições do Campeonato Iugoslavo na década de 1950. Tal proeminência também permitiu que estreassem na Copa dos Campeões em 1958/59. Os iugoslavos, no entanto, pegaram uma pedreira logo de cara: o Dukla Praga, estrelado por Josef Masopust, que reunia a base da seleção da Tchecoslováquia. Depois do empate por 2 a 2 em Zagreb, o Dinamo acabou eliminado na visita a Praga, derrotado por 2 a 1.

A partir de 1958, no entanto, o Dinamo começou a amargar um jejum de 24 anos no Campeonato Iugoslavo. O Partizan era uma potência na época, a ponto de ser vice-campeão da Champions em 1966, enquanto o Estrela Vermelha reunia alguns dos melhores jogadores formados no país. Vojvodina e Sarajevo também foram campeões na década de 1960, mas não que o Dinamo fosse exatamente fraco. De 1959/60 a 1968/69, o clube de Zagreb foi cinco vezes vice da liga e em outras três oportunidades acabou em terceiro. Também conquistou quatro edições da Copa da Iugoslávia e perdeu duas finais. Que a força não se refletisse necessariamente no Campeonato Iugoslavo, ela se evidenciava em competições de mata-matas. E isso passou a incluir as copas europeias.

Com seus títulos costumeiros na Copa da Iugoslávia, o Dinamo Zagreb começou a bater cartão na Recopa Europeia, destinada aos vencedores das copas nacionais. Na primeira edição do torneio, em 1960/61, os Azuis foram semifinalistas. Entraram diretamente nas quartas de final, despachando os tchecoslovacos do Rudá Hvezda Brno. Já na semifinal, os croatas cruzaram o caminho da Fiorentina, que ficaria com o troféu. A Viola venceu por 3 a 0 em Florença, tornando insuficiente o triunfo iugoslavo por 2 a 1 no Estádio Maksimir.

Aquele time do Dinamo era estrelado por Drazan Jerkovic, destaque da seleção iugoslava naquele período. O atacante disputou duas Copas do Mundo e também esteve presente no vice da Euro 1960. Foi um dos artilheiros na primeira edição do campeonato europeu, assim como liderou a caminhada da Iugoslávia às semifinais do Mundial de 1962 e também terminou como um dos goleadores do torneio. Pelo clube, acumulou 300 gols em 315 aparições. Outro craque daqueles tempos era o meia Zeljko Matus, autor de um dos gols que valeram o ouro olímpico aos iugoslavos em 1960. O setor também contava com Zeljko Perusic, outro medalhista olímpico, que depois seria campeão alemão com o Munique 1860. Já na defesa, a principal figura era o lateral Tomislav Crnkovic, que permaneceu no clube até 1961 e superou as 400 partidas disputadas, também essencial à seleção na época. Ao seu lado aparecia Vlatko Markovic, apontado como um dos melhores zagueiros da Copa de 1962. Depois de aposentado, foi treinador do Dinamo em diferentes oportunidades e presidiu a federação croata por 14 anos.

Os jogadores do Dinamo Zagreb eram frequentes nas convocações da Iugoslávia. E essa rodagem internacional ajudou o desempenho do clube além das fronteiras ao longo da década de 1960. Quando não conseguia a classificação para a Recopa, os Azuis costumavam participar da Taça das Cidades com Feiras, competição importante na época e que serviria de precursora à atual Liga Europa. Na primeira campanha, o Dinamo parou nas oitavas, eliminado pelo Barcelona. Contudo, seria finalista da competição em 1962/63. Os iugoslavos eliminaram Porto, Union Saint-Gilloise, Bayern de Munique e Ferencváros – com destaque aos húngaros, bastante respaldados na época. Já na decisão, a equipe encarou o Valencia. Liderados pelo brasileiro Waldo, os espanhóis venceram a ida por 2 a 1 no Maksimir e selaram o título com o triunfo por 2 a 0 no Mestalla.

Nas três temporadas seguintes, o Dinamo Zagreb disputou a Recopa, em decorrência de suas boas campanhas na Copa da Iugoslávia. Em 1963/64, foi eliminado por um fortíssimo Celtic, mas venceu em Zagreb por 2 a 1. Já em 1964/65, depois de superar AEK Atenas e Steaua Bucareste, a equipe se despediu do torneio contra o Torino nas quartas de final. Por fim, em 1965/66, parou logo na primeira fase do torneio continental, mas para o Atlético de Madrid campeão espanhol. Em 1966/67, os Azuis se veriam obrigados a retornar à Taça das Cidades com Feiras. E a reaparição não seria um problema, já que rendeu um título inédito ao clube e ao próprio futebol iugoslavo.

O Dinamo tinha sofrido mudanças em relação à final anterior. Nomes como Matus, Jerkovic e Perusic não compunham mais a equipe titular. Enquanto isso, outros tinham crescido na hierarquia. O capitão era o atacante Slaven Zambata, também figurinha carimbada na seleção. Rudolf Belin era essencial como lateral ou volante, participando depois do vice da Euro 1968 com o país. Já a zaga tinha a liderança de Mladen Ramljak, outro presente na Eurocopa de 1968, que depois faria carreira no Feyenoord. Quase todos os titulares tinham passagem pela seleção iugoslava.

No banco de reservas, aquele Dinamo Zagreb ainda contava com dois símbolos do futebol nos Bálcãs. O técnico era Ivica Horvat, lenda do clube na virada dos anos 1940 para os 1950, que capitaneou a Iugoslávia no Mundial de 1950. O comandante também dirigiria clubes importantes da Bundesliga, incluindo Eintracht Frankfurt e Schalke 04. Na época, ele era acompanhado por Branko Zebec, antigo jogador do Gradanski e companheiro de Horvat na seleção, que iniciava sua trajetória como técnico. Zebec depois seria um dos responsáveis pela afirmação do Bayern na Bundesliga, dirigindo o clube em seu primeiro título no campeonato após 37 anos de jejum, assim como treinou um esquadrão do Hamburgo, vice da Champions em 1980. Em Zagreb, os dois aplicavam um futebol ofensivo, de ótimo trato com a bola, como pregava a escola iugoslava.

A campanha do Dinamo Zagreb misturaria classificações apertadas e imposições contra adversários tradicionais. Na primeira fase, a moedinha foi necessária para determinar a passagem, após uma vitória para cada lado contra o tchecoslovaco Spartak Brno. Depois, os gols fora fizeram a diferença contra o escocês Dufermline. Os Azuis superaram os romenos do Dinamo Pitesti nas oitavas, antes de encararem a Juventus nas quartas. Depois do empate por 2 a 2 em Turim, o Dinamo bateu os juventinos por 3 a 0 em Zagreb. Marijan Novak, Zlatko Mesic e Rudolf Belin anotaram os gols no histórico triunfo. Já na semifinal, o Eintracht Frankfurt estava no caminho. Os alemães ocidentais fizeram 3 a 0 em casa, mas o Dinamo conseguiu dar o troco na Iugoslávia. Na prorrogação, selaram a vitória por 4 a 0 e a épica passagem à final.

O oponente na decisão era um time em franca ascensão na Inglaterra: o Leeds United, dirigido por Don Revie, que já trazia lendas como Billy Bremner, Jack Charlton, Norman Hunter e Peter Lorimer. Mas não seria o Dinamo a se intimidar com o futebol duro dos Whites. Em Zagreb, os iugoslavos dominaram o jogo e deram um passo fundamental com a vitória por 2 a 0. Marijan Cercek e Krasnodar Rora anotaram os gols do triunfo. Isso bastou para que o empate por 0 a 0 em Elland Road se tornasse suficiente. O capitão Zambata teve o gosto de erguer a taça, na primeira conquista continental de um clube da Iugoslávia – em feito só igualado pelo Estrela Vermelha na Copa dos Campeões de 1990/91. Aquela conquista foi dedicada a Stjepan Lamza, meia da equipe que sofreu um acidente no hotel após a classificação na semifinal e passou 40 dias hospitalizado.

O Dinamo Zagreb não teria vida longa nas próximas duas edições da Taça das Cidades com Feiras. Perdeu para o Bologna na segunda fase de 1967/68 e para a Fiorentina na primeira fase de 1968/69. O retorno à Recopa aconteceu em 1969/70, com a última aparição entre os quadrifinalistas de um torneio continental até esta Liga Europa. O Dinamo conseguiu bater Slovan Bratislava (o campeão no ano anterior) e também o Olympique de Marseille (onde já brilhava o também croata Josip Skoblar). A eliminação aconteceu nas quartas de final, contra o Schalke 04, que venceu as duas partidas.

Durante a década de 1970, o Dinamo Zagreb não seria tão competitivo nas copas europeias, ainda amargando o jejum no Campeonato Iugoslavo. Os Azuis disputaram três edições da Copa da Uefa e uma da Recopa. O melhor desempenho aconteceu exatamente na última Taça das Cidades com Feiras, em 1970/71, parando nas oitavas contra o Twente. O renascimento do Dinamo no Campeonato Iugoslavo aconteceu em 1981/82, com o fim do jejum alcançado pela geração estrelada por Zlatko Kranjcar e Marko Mlinaric. Porém, aquele grupo ficaria devendo além das fronteiras. De 1979/80 a 1983/84, foram quatro quedas na primeira fase das competições continentais, três delas para portugueses. O Sporting tirou o Dinamo da Champions, enquanto Benfica e Porto foram algozes em duas edições da Recopa.

No virada para os anos 1990, o Dinamo Zagreb chegou a disputar três edições da Copa da Uefa consecutivas, mas o sorteio não ajudou. Mesmo contando com Zvonimir Boban e Davor Suker na época, os Azuis se deram mal contra adversários das grandes ligas – caindo nas fases iniciais para Stuttgart, Auxerre e Atalanta. O ponto de virada ocorreria mesmo a partir da independência. Após a Guerra da Iugoslávia, o Dinamo fez sua reestreia no cenário continental em 1993/94, vivendo um momento marcante em 1998/99. Naquela campanha, os croatas chegaram pela primeira vez à fase de grupos da Champions. Superaram o Celtic na última fase preliminar e, mesmo sem avançar à etapa seguinte, derrotaram Ajax e Porto em sua chave.

O Dinamo Zagreb também esteve na fase de grupos da Champions em 1999/00, chegando a segurar um empate com o Manchester United, campeão anterior do torneio. Na década de 2000, apesar dos ótimos talentos revelados pelos croatas, a equipe ficou restrita à fase de grupos da Copa da Uefa. A reaparição na etapa principal da Liga dos Campeões ocorreu em 2011/12. Desde então, o Dinamo só ficou de fora da fase de grupos das duas principais competições da Uefa uma vez, com cinco aparições na Champions e quatro na Liga Europa. A representatividade dos croatas é constante. Mas fazia tempo que o clube não experimentava um sucesso tão grande como o atual, com um gosto especial pela épica classificação contra o Tottenham nas oitavas. Um resultado que, depois de 51 anos, recolocou os Azuis entre os oito melhores de uma copa europeia.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo

Bloqueador detectado

A Trivela é um site independente e que precisa das receitas dos anúncios. Considere nos apoiar em https://apoia.se/trivela para ser um dos financiadores e considere desligar o seu bloqueador. Agradecemos a compreensão.