Leste Europeu

Os 75 anos de Viktor, o goleiro da façanha tchecoslovaca e que se aproximou da Bola de Ouro

Ao longo da história da Bola de Ouro, sonhar com o prêmio foi uma raridade para goleiros. Lev Yashin segue até hoje como o único a conquistá-la, no longínquo ano de 1963. Outros cinco arqueiros terminaram no pódio, sendo dois alemães e dois italianos, representantes gigantescos das excelentes escolas da posição: Dino Zoff, Oliver Kahn, Gianluigi Buffon e Manuel Neuer. Por fim, o nome restante nem sempre é tão lembrado entre os maiores camisas 1 de todos os tempos, mas quem o viu jogar geralmente o coloca ao menos entre os melhores das décadas de 1960 e 1970: Ivo Viktor. Reconhecido por protagonizar a Tchecoslováquia na conquista da Eurocopa de 1976, ficou em terceiro naquela votação. Ainda assim, sua história é maior que um mero ano.

VEJA TAMBÉM: Os 40 anos da cavadinha mais famosa de todas: Panenka colocava a Tchecoslováquia no topo da Euro

Nascido em 21 de maio de 1942, Viktor cresceu na cidade de Krelov e rodou por equipes modestas durante sua juventude. Defendeu Železárny Prostějov e RH Brno, até ganhar a primeira chance na elite nacional com a camisa do Spartak Brno. Precisou de apenas uma temporada para impressionar e ser levado pelo Dukla Praga. Aos 21 anos, se juntava à principal potência tchecoslovaca naqueles anos, que se valia das ligações com o exército para “convocar” os jovens atletas em idade de prestar os serviços militares. Asseguraram o talento de um verdadeiro fenômeno sob as traves, dono de enorme senso de posicionamento e muita agilidade. Com apenas 1,76 m de altura, o novato compensava os centímetros a menos com impulsão e reações rápidas.

Reserva do célebre Pavel Kouba nos primeiros anos, Viktor não demoraria a ganhar a posição, no que culminou na transferência do antigo dono da meta ao Sparta Praga. E sua primeira conquista viria em 1965/66, taça que marcaria também o fim da hegemonia do Dukla no Campeonato Tchecoslovaco. Estrelado pelo lendário Josef Masopust, o clube tinha faturado o título em oito ocasiões desde 1953 e chegou às semifinais da Copa dos Campeões em 1967, derrotado apenas pelo campeão Celtic. Todavia, sem os craques de sua geração de ouro, entrariam em uma entressafra. Caberia justamente ao goleiro se transformar na nova referência do elenco.

Ao mesmo tempo, Viktor se estabelecia também na seleção. Sua estreia aconteceu pouco depois de completar 24 anos, em uma prova de fogo. Entrou em campo na visita ao Brasil, em junho de 1966. Perdeu para os então bicampeões mundiais por 2 a 1, com dois gols de Pelé. Meses depois, teve uma atuação famosa em bombardeio da Inglaterra, pouco depois do Mundial de 1966. Apenas o início da trajetória que duraria mais de uma década. O arqueiro voltaria a se cruzar com os brasileiros em 1970, na sua única Copa do Mundo. Fez duas partidas no torneio, amargando a eliminação na primeira fase. Mas havia mais a esperar.

A Tchecoslováquia fez uma campanha gigantesca na Euro 1976. Eliminou Inglaterra, Portugal e Chipre nas eliminatórias da competição. Passou pela União Soviética nas quartas de final, após dois jogos. E superou a temível Holanda nas semifinais, com o triunfo por 3 a 1. Neste momento, as atuações de Viktor o referendavam como um dos melhores jogadores do torneio. Até que veio a final contra a Alemanha Ocidental. O arqueiro fez intervenções importantes, apesar do empate por 2 a 2 com bola rolando. Já na cobrança de pênaltis, teve a sorte de ver o chute de Uli Hoeness passar por cima do travessão, enquanto Antonin Panenka desbancava Sepp Maier para eternizar a maior façanha da seleção tchecoslovaca.

Naquela temporada, Viktor empilhou premiações individuais. Foi eleito para a seleção da Eurocopa. Ganhou o prêmio de jogador do ano da Tchecoslováquia pela quinta vez e de melhor goleiro da Europa pela segunda. Além disso, registrou sua posição inquestionável na Bola de Ouro, com pouco mais da metade dos pontos do vencedor Franz Beckenbauer. Nada que diminuísse o goleiro, muito pelo contrário. Só que, coletivamente, sua carreira guardaria ainda mais uma glória. Em 1977, depois de 11 anos, o veterano de 35 anos ajudou o Dukla a retornar ao topo do Campeonato Tchecoslovaco. Já perdendo espaço, aposentou-se naquele mesmo ano. E, em novembro, disputou o último de seus 63 jogos pela seleção, em amistoso contra a Hungria em Praga.

Atualmente, Viktor costuma ser colocado entre os três melhores goleiros da história do futebol tcheco-eslovaco, ao lado de Frantisek Planicka e Petr Cech. Não à toa, seu nome batiza o prêmio entregue ao melhor de sua posição no país. E as contribuições à equipe nacional perduraram até 1996, quando, como treinador de goleiros, auxiliou os tchecos a alcançarem a decisão da Euro 1996. Já na virada do século, apareceu entre os 25 melhores goleiros da história, em eleição promovida pela IFFHS. Lenda que merece as reverências na semana em que completa 75 anos.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo

Bloqueador detectado

A Trivela é um site independente e que precisa das receitas dos anúncios. Considere nos apoiar em https://apoia.se/trivela para ser um dos financiadores e considere desligar o seu bloqueador. Agradecemos a compreensão.