Leste Europeu

O Russão começou, mas o que importa mesmo é a volta do Torpedo

Por Leandro Paulo Bernardo, 31 anos, cirurgião-dentista, viciado em futebol desde os quatro anos, torcedor coral e ainda acha que a União Soviética iria longe nas Copas de 1986 e 1990 se não tivesse sido operada pelo árbitro Erik Fredriksson nas duas oportunidades.

Vinte anos atrás, antes da influência da telefonia celular em nosso cotidiano, a palavra torpedo tinha apenas dois significados. Para a maioria, referia-se a algum armamento bélico. Para a turma que gosta de futebol, representava um clube de Moscou. Um clube que representava a resistência dentro do governo comunista.

O time teve suas origens em 1924, em sindicatos de trabalhadores automobilísticos e estudantes de escolas técnicas do pais. Não recebia apoio da polícia, exército ou do Kremlin. Semelhantemente à qualquer país comunista, seus atletas eram “convidados” para atuar nas equipes maiores (CSKA, Dinamo e Spartak). Mas, a partir da conquista da Copa da União Soviética de 1949, o Torpedo atreveu-se a ser grande.

Era a equipe de Valentin Ivanov (124 gols) e Eduard Streltsov, que viria a ser apelidado de “Pelé Russo” (99 gols). A dupla do Torpedo conquistou duas das maiores glórias do futebol soviético (Eurocopa de 1960 e Jogos Olímpicos de 1956). Em 1957, esse time ainda recebeu em Moscou o time emergente do Bahia, que se tornaria dois anos depois o primeiro campeão do Brasil, para um público de 80 mil pessoas.

Streltsov passou a sofrer perseguições por não querer sair do Torpedo, foi expulso da seleção a poucos dias do Mundial da Suécia e passou cinco anos preso, em um processo contraditório até hoje. Em 2001, o enxadrista Anatoly Karpov, grande fã do jogador, até criou o Comitê Streltsov para restaurar a reputação do jogador. Ivanov comandou a equipe na dobradinha de 1960 (campeonato e copa) foi um dos artilheiros do Mundial de 1962 no Chile.

Em 1963 após forte pressão popular, Streltsov foi liberado e retornaria para o Torpedo, sem a cabeleira marcante e simbólica para a juventude russa. A dupla brilhou na conquista do campeonato de 1965. Streltsov ainda foi eleito o melhor jogador do país em 1967 e 68 (foto acima) com a conquista da Copa da URSS. Ivanov já estava aposentado, mas ele ainda retornaria a brilhar pelo clube como técnico, comandando a equipe no título nacional de 1976 (o último do clube) em cima do Dynamo de Kiev de Oleg Blockhinm, Bola de Ouro no ano anterior.

O Torpedo ainda consegui a Copa da União Soviética em 1986 e algumas participações na Copa da Uefa, mas ficou longe de repetir o desempenho de seus momentos de glória. Com o fim da União Soviética, o clube conquistou a Copa da Rússia em 1993, mas não resistiu. Continuou ligado à montadora ZIL, de onde saiu a maior parte de seus fundadores (na época, a empresa se chamava AMO), que vendeu o clube em 1996 por problemas financeiros.

Nesse momento, a história do Torpedo fica estranha. A Luzhniki, empresa que é dona do estádio de mesmo nome), comprou o clube e o renomeou como Torpedo-Luzhniki. A gestão foi tétrica, e o clube foi parar na quarta divisão (amadora) em 2009 por irregularidades financeiras mal explicadas. Enquanto isso, a ZIL criou outro clube, o Torpedo-ZIL, que saiu da terceira divisão e, em 2001, chegou na elite. Em 2003, o time foi vendido para a MMC (empresa de mineração) e mudou de nome para FC Moskva (FC Moscou no Brasil), mas faliu em 2010. Ao vender o Torpedo-ZIL para a MMC, em 2003, a ZIL criou um novo Torpedo-ZIL, mas esse não conseguiu progredir a partir da quarta divisão.

Em 2009, o Torpedo verdadeiro voltou às origens. A Luzhniki vendeu o clube de volta à ZIL. A montadora fechou o Torpedo-ZIL para cuidar apenas da equipe com a qual tinha ligações históricas. Rapidamente, o clube renasceu. Em cinco anos, saiu da quarta divisão e voltou à elite do futebol russo. Na última temporada, chegou em terceiro na segunda divisão e nos playoffs eliminou o Krylya Sovetov, antepenúltimo da primeira divisão.

Sábado estará novamente jogando na elite, fazendo um clássico contra o CSKA. Os tempos agora são outros, de Putin a Abramovich. Mas não duvidem da resistência dos automobilistas. De sofrimento eles já conhecem tudo.

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