Leste Europeu

O Russão começou com uma epopeia: Zenit atravessou o país e, quase na China, venceu o SKA

O SKA Khabarovsk representa a grande novidade do Campeonato Russo 2017/18. E não apenas por fazer a sua estreia na primeira divisão, mas por todos os desafios logísticos que representa. O clube está sediado no extremo oriente do país, próximo à fronteira com a China e também à costa do Pacífico, enquanto a maioria absoluta dos outros participantes da elite se concentram na porção europeia da Rússia. O outro time da parte asiática é o Ural Ecaterimburgo, logo na base dos Montes Urais, que marcam a fronteira entre Europa e Ásia. Não à toa, a distância de Ecaterimburgo para Moscou é três vezes menor do que a distância para Khabarovsk. E a temporada começou logo com a maior viagem de um time visitante para enfrentar o SKA: o Zenit, vindo direto de São Petersburgo.

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Traçando uma linha reta de Khabarovsk a São Petersburgo, quase 6,2 mil quilômetros separam as cidades. Assim, o Zenit precisou encarar um voo de nove horas para chegar ao seu destino. O clube optou por viajar na véspera e desembarcou no meio da madrugada. Assim, às quatro horas da matina no horário local, os jogadores estavam caminhando pelas ruas de Khabarovsk, preparando-se para o confronto. Vale ressaltar que, além do cansaço de tanto tempo dentro de um avião, há outra questão que afeta diretamente os atletas: a diferença no fuso horário. São sete horas de diferença entre uma cidade e outra.

Mas a viagem consegue ser ainda pior para quem decide pegar a estrada rumo a Khabarovsk. Por terra, a distância desde São Petersburgo até o outro lado do país chega a 8,8 mil quilômetros. E, acredite, tem gente que faz esta loucura. Neste domingo, 150 aventureiros ocuparam o setor visitante, embora não esteja exatamente claro se todos eles vieram por terra. Rival local do SKA, o Luch-Energiya foi o último representante do extremo oriente russo na primeira divisão, presente na elite entre 2006 e 2008. Há 11 anos, um grupo de fanáticos do Zenit resolveu fazer a insanidade e pegou seu Honda Civic até Khabarovsk. O carro não aguentou o tranco e ficou por lá, mas os malucos sensibilizaram a diretoria por sua jornada. O dono do automóvel ganhou um Toyota Corolla, enquanto o velho Honda está no museu do clube, em São Petersburgo. Não será surpreendente se novas histórias assim pipocarem na imprensa russa durante os próximos dias.

Neste domingo, ao menos, o clima não foi um problema para as equipes. Os termômetros em Khabarovsk registravam temperaturas amenas, por volta dos 20° C, em uma bela tarde ensolarada. A estreia do SKA, aliás, atraiu ótimo público. As arquibancadas do Estádio Lenin estiveram lotadas, com os 15 mil ingressos colocados à venda esgotados. E os presentes acabaram assistindo a um bom espetáculo, apesar da derrota do time da casa. O Zenit venceu por 2 a 0, no primeiro jogo oficial sob o comando de Roberto Mancini. Daler Kuzyaev e Aleksandr Kokorin anotaram os gols da vitória durante o segundo tempo. O meia Giuliano foi titular, enquanto Hernani entrou no segundo tempo.

Presidente do Zenit, Sergey Fursenko afirmou que foi um jogo de cinco pontos, por todo o contexto: “Logicamente, foi difícil jogar. Primeiro, por ser a estreia de Mancini. Depois, pelo voo longo. Em terceiro, pela grama artificial. Não é fácil se adaptar rapidamente. Mas preciso dizer que os rapazes lidaram com o desafio muito bem. Diante de tudo, foi um jogo de cinco pontos. E os adversários também jogaram bem”. Já o presidente da federação russa, Vitaly Mutko, afirmou que os clubes russos experimentarão um “feriado” a cada compromisso em Khabarovsk.

A questão maior será a própria resistência do SKA à maratona. Enquanto os outros clubes fazem apenas uma viagem ao extremo oriente, os estreantes enfrentarão 15 jornadas rumo ao outro lado do país. A tabela ajuda um pouco, com parte dos jogos como visitante acontecendo em sequência. Por exemplo, nas próximas três rodadas o SKA joga fora, encarando Arsenal Tula, CSKA Moscou e Lokomotiv Moscou. De qualquer maneira, a mera permanência na elite será um feito e tanto, diante de todo o desgaste ao qual o elenco será submetido.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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