Leste Europeu

O retorno do ídolo

Ronaldo Soares Giovanelli foi um dos maiores goleiros de toda história do Corinthians. A Fiel era apaixonada por ele, que retribuía esse amor com muita raça e dedicação ao clube. Em 1998, porém, Ronaldo foi obrigado a deixar o Parque São Jorge. Não por vontade própria, mas, depois de 11 anos, sua passagem pelo alvinegro foi encerrada por um treinador. Vanderlei Luxemburgo brigou com o jogador e pediu para a diretoria não renovar seu contrato.

Esse é um caso típico onde a história precisava ser reescrita. Ronaldo nunca quis deixar o clube, assim como a torcida nunca quis sua saída. Mas a atitude mesquinha de uma pessoa, amparada por outras com cargos superiores, estragou – pelo menos um pouco – a trajetória de um ídolo com seu time. No Campeonato Russo temos um caso similar, mas com a chance da redenção.

Em 2007, Dmitri Loskov desentendeu-se com o (péssimo) técnico Anatoly Byshovets. Loskov estava no Lokomotiv Moscou desde 1997, quando foi contratado ao Rostselmash, de Rostov-na-Donu, com 23 anos. Foram dez anos, quase 276 partidas e 95 gols. O meia tornou-se ídolo da torcida, que passou a idolatrá-lo. Foi fundamental na conquista de dois Campeonatos Russos e duas Copas da Rússia, além de ter sido artilheiro de duas edições do Russão.

Nas arquibancadas do estádio Lokomotiv, o que mais se via era a camisa vermelha do clube com o número 10 às costas e o nome de Loskov. No entanto, assim como no caso de Ronaldo, a trajetória foi interrompida por causa de uma pessoa. Nesses casos, é até compreensível, por um lado, a postura da diretoria em apoiar o treinador numa briga assim. Por outro lado, o presidente do clube precisa ter uma visão muito maior da situação. É preciso visualizar a história, o que essa mudança pode significar para o clube. Não aconteceu e Loskov partiu para o Saturn.

Foram três temporadas sem brilho na equipe dos subúrbios de Moscou. Tempo suficiente para o Lokomotiv não sair do lugar, mandar embora Byshovets – na verdade foi embora pouco depois de Loskov – e chamar o ídolo de volta.

No final da semana passada, a especulação sobre o retorno do meia de 36 anos começou, e transformou-se em realidade na terça-feira. Após ter deixado o Saturn no início do mês, Loskov passou a ter o nome colocado no Lokomotiv, praticamente sem ter algo concreto. Mas a coisa tornou-se natural, uma volta para casa, e as entrevistas do jogador foram fundamentais para que isso acontecesse.

Loskov garantiu que a questão financeira nunca seria um problema, que ele estava interessado apenas na parte esportiva. No seu caso ele tem condições de fazer isso, já que ao longo da carreira ganhou dinheiro suficiente. Por isso queria se dar o prazer de defender mais uma vez o Lokomotiv. Sempre quando enfrentou o clube do coração defendendo o Saturn, a torcida “adversária” o saudou carinhosamente, com faixas, bandeiras e cantos. Era como se ele nunca os tivesse deixado.

Yuri Semin, hoje o técnico do Lokomotiv, deu apoio à transação, e declarou que o clube, de qualquer modo, não deixaria Loskov sem emprego. Mesmo que fosse em outro cargo. No final, a decisão que agradou a todos. “O presidente [Nikolay Naumov] me ligou e informou a decisão de me levar. Quando a temporada terminar, eles vão analisar o quão útil sou para o time e decidir se prolongam ou não meu contrato”, afirmou Loskov. Agora, caberá ao meia jogar.

Esse tipo de história tem, também, outro lado. Afinal, aos 36 anos, o meia não tem mais a juventude e vitalidade de anos atrás. Só que os russos são mais compreensivos – na verdade, acho até que nós, brasileiros, é que somos mais cruéis com os ídolos em idade avançada – e tendem a ver Loskov com outros olhos. Ele talvez não tenha mais condições de ser protagonista, mas vai ajudar muito com a experiência e também por devolver a confiança no time aos torcedores.

Na quinta posição, com 22 pontos, o Lokomotiv Moscou busca uma recuperação no Campeonato Russo. Não terá condições de brigar pelo título, mas almeja permanecer com uma das vagas na Liga Europa. Se conseguir, já terá sido um final digno de carreira para Loskov, que não merecia parar de jogar longe de seu time do coração.

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Equipe Trivela

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