Leste Europeu

O interminável Boruc voltou ao clube do coração e, depois de 19 anos, foi campeão polonês novamente com o Legia

O Legia Varsóvia renovou seu reinado no Campeonato Polonês nesta semana. Na última quarta-feira, os Legionários asseguraram o bicampeonato nacional, em seu sétimo título nas últimas nove edições da liga. Mas, apesar da monotonia, a taça desse ano traz uma grande história por trás: ela consagra Artur Boruc, um dos maiores goleiros da história do futebol polonês. O veterano de 41 anos havia deixado o clube em 2005 e passou os últimos 15 anos rodando por times importantes da Europa ocidental. Às vésperas da aposentadoria, o veterano decidiu voltar para a velha casa e reconquistou a taça depois de quase duas décadas.

Boruc nasceu em Siedlce, uma cidade nos arredores de Varsóvia, e começou a carreira no pequeno Pogon Siedlce. Uma temporada bastou para que o goleiro fosse descoberto pelo Legia, contratado em 2000. O jovem de 20 anos não apenas se transferia a um dos maiores clubes do país, como também passava a defender as cores do time de coração. Sua estreia aconteceu em março de 2002, quando o titular Radostin Stanev se contundiu. O jovem virou um dos destaques na reta final do Campeonato Polonês, contribuindo à conquista após sete anos de jejum. Boruc ganhou a posição na temporada seguinte. Não levou novos títulos, mas se estabeleceu como um dos melhores arqueiros do país e logo ganharia suas primeiras convocações à seleção.

Ídolo absoluto da torcida também por sua entrega em campo, Boruc chegou a receber uma extensão de contrato de oito anos no Legia e foi escolhido capitão. Porém, logo ficou claro como o talento do goleiro era grande demais para o Campeonato Polonês. Em 2005, Boruc assinou com o Celtic, onde também seria adorado – pela qualidade, mas também pelas provocações ao Rangers. Foram cinco temporadas em Parkhead, antes de dar mais um salto e ser levado à Fiorentina. Ficou dois anos na Serie A, contratado depois pelo Southampton. Já em 2014, se transferiu ao Bournemouth, participando ativamente da ascensão da equipe à Premier League. Neste intervalo, Boruc somaria 65 partidas pela seleção polonesa (recordista entre os goleiros), presente em uma Copa do Mundo e em duas Eurocopas. Despediu-se da seleção com uma grande festa em 2017, no Estádio Nacional de Varsóvia. A própria torcida do Legia faria uma homenagem especial com sinalizadores.

Durante as últimas temporadas, Boruc passou mais tempo no banco do Bournemouth. O polonês perdeu a posição em 2017/18, com a contratação de Asmir Begovic. Na temporada seguinte, ainda disputou 12 partidas, ajudando a manter as Cherries na elite. Todavia, sem disputar uma partida sequer em 2019/20, na reserva do promissor Aaron Ramsdale, o veterano viu de fora o rebaixamento à Championship. Depois de ter ajudado no acesso inédito, era hora de arrumar as malas. E o Legia Varsóvia era o destino natural para encerrar a carreira. Boruc era tão apaixonado pelos Legionários que, mesmo atuando no exterior, dava seu jeito de assistir a algumas partidas nas arquibancadas – e longe de ser um daqueles restritos à tribuna de honra, preferindo se juntar à massa e escalar alambrado. Nada melhor, então, que oferecer uma última contribuição no gramado.

Muitos poderiam duvidar de Boruc, aos 41 anos e sem atuar em uma temporada completa desde 2016/17. O recomeço também guardaria suas dificuldades, com a eliminação para o Omonia Nicósia nas preliminares da Champions e para o Qarabag nas preliminares da Liga Europa. Mas, no Campeonato Polonês, o velho ídolo mostraria seu talento. Boruc disputou 24 partidas, ausente em apenas três rodadas. Sofreu 21 gols e terminou 11 jogos sem ser vazado. Chegou até a ser eleito o “Jogador do Mês” em abril. Sustentou bons números que permitiram o bicampeonato do Legia. Depois de 19 anos, tocou o troféu novamente.

O Legia lidera o Campeonato Polonês com nove pontos de vantagem. Restando apenas mais três rodadas, não pode ser mais alcançado, por ter vantagem no confronto direto. O triunfo por 1 a 0 sobre o Lechia Gdansk selou o feito na quarta-feira. Dentro de campo, além de Boruc, a grande figura é o atacante Tomas Pekhart. O centroavante tcheco vive a melhor temporada da carreira e anotou 22 gols em 24 partidas até o momento. O meia Filip Mladenovic é outro nome central à conquista.

O sucesso desta temporada não significa que Boruc vai querer pendurar as luvas em alta. Pelo contrário, o goleiro negocia a renovação de seu contrato por mais um ano. Será a oportunidade de disputar outra vez a Champions League a partir das preliminares. Mais importante, será a nova chance de aumentar a galeria de conquistas do seu time do coração, a um goleiro que sempre se entregou de corpo e alma a cada partida. O torcedor em campo tentará um esforço a mais, e certamente contará com o apoio do restante da torcida, que reconhece a estatura de um personagem marcante do futebol polonês.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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