O adeus a Gorbachev: “O futebol é um símbolo moderno de solidariedade por sua diversidade”
Presente na Copa do Mundo de 2006, Gorbachev falou ao site da Fifa na época sobre o poder do futebol como elemento de união

Mikhail Gorbachev possui um papel central na história, por sua atuação política na transição entre dois mundos. O líder soviético esteve no olho do furacão durante o fim da Guerra Fria e a dissolução da União Soviética, enquanto realizava suas famosas reformas pela reabertura política dos estados sob seu poder. O legado político de Gorbachev costuma ser bastante discutido, ainda mais em tempos de guerra entre antigas repúblicas soviéticas. Por esse contexto, sua morte se torna ainda mais simbólica nesta terça-feira, aos 91 anos.
O esporte serve como pano de fundo na trajetória de Gorbachev e, de certa maneira, auxilia a entender a transição vivida pela União Soviética. Os efeitos da Glasnost e da Perestroika foram sentidos de diferentes maneiras no futebol, da reabertura do mercado de transferências à talentosa geração soviética nos anos 1980 (em efeito que se expandiria por outros países da Cortina de Ferro) até a maneira como os campeonatos locais se reestruturaram no profissionalismo após a dissolução, amarrados em oligarquias.
Gorbachev se tornou o primeiro chefe de governo da União Soviética a condecorar um esportista com a medalha de Herói do Trabalho Socialista, a maior honraria do país. O escolhido foi Lev Yashin, dias antes de sua morte em decorrência de um câncer no estômago. Também foram nas últimas semanas do governo de Gorbachev que a seleção soviética disputou sua última partida, em novembro de 1991, uma vitória sobre o Chipre que garantiu a vaga na Euro 1992 – em que o time jogou como representante da Comunidade dos Estados Independentes. Gorbachev, aliás, por pouco não foi chefe de estado na sede de uma Copa, em 1990.
Anos depois, Gorbachev se tornou um crítico indireto da relação de Roman Abramovich com o Chelsea. O ex-presidente deu declarações fortes contra o magnata, não exatamente por sua ligação com o futebol, mas pela forma como usava o dinheiro russo recebido no processo de privatização de companhias para investir em outros países. “Não quero minar o berço do futebol e não tenho problemas com russos comprando ações no Reino Unido, mas está claro que devemos fechar o livro sobre esse período de saques. Alguns pensam que até um trilhão de rublos foi levado por empresários russos. Se eles não devolverem isso, nossos tribunais provavelmente decidirão que adquiriram empresas ilegalmente. Então eles não podem usar esse dinheiro em qualquer lugar. Um dia esse valor será usado em benefício da Rússia”, afirmou, em 2005.
O envolvimento direto de Gorbachev com o futebol é mais raro. Existem rumores de que, durante um período como membro do partido comunista em Kharkiv, ele desempenhou um cargo dentro do Metalist – e, durante uma turnê pela Inglaterra, se tornou torcedor do Wigan. É uma história muito folclórica para ser verdade, como desmentem antigos membros do clube ucraniano. Mas, fora do campo político, o antigo presidente não deixava de se posicionar como torcedor. Foi convidado de honra em mais de uma Copa do Mundo (inclusive dando entrevista a Jô Soares nos Estados Unidos em 1994) e manifestava seu apreço pelo esporte. Sobretudo, por reconhecer as pontes que poderiam ser construídas.
Em 2006, quando estava na Alemanha para o Mundial, Gorbachev deu uma entrevista ao site da Fifa. Na época, o estadista presidia a Cruz Verde, entidade fundada por ele, com atuação ativa nas discussões ambientais depois do fim de sua carreira política na União Soviética. O russo comentava suas primeiras impressões sobre aquela Copa do Mundo e também sua relação com a modalidade – de quem acompanhava o torneio desde 1966 e tinha Pelé como o seu principal ídolo. De qualquer maneira, a declaração mais forte vinha sobre o papel do futebol num contexto mais amplo.
“O futebol não é apenas um jogo maravilhoso que une milhões de torcedores ao redor do mundo, é também um símbolo moderno de solidariedade por causa de sua diversidade – independentemente da fé, da cor da pele, dos compromissos políticos e filiações, as pessoas são levadas por esse espetáculo belo, emocionante e empolgante”, comentava Gorbachev, antes de falar sobre seu trabalho com a Cruz Verde.
“Apenas desejo que a mesma solidariedade possa ser alcançada na prevenção e resolução dos problemas ambientais que unem e dividem o mundo hoje. A crise hídrica que custa milhões de vidas todos os anos; a ausência de eletricidade, que significa que um terço da população mundial vive literalmente na escuridão; a massiva migração de vítimas dos desastres ecológicos. Esses assuntos estão no coração do trabalho da Cruz Verde, uma organização internacional não governamental que fundei em 1993. Não espere que o mundo mude – lidere a mudança e apoie a Cruz Verde”, complementava.
Por conta do distanciamento político e da oposição em relação a Vladimir Putin, Gorbachev não chegou a ter papel ativo durante a Copa do Mundo de 2018 realizada na Rússia. Sua imagem acabava atrelada mesmo a outra realidade e a outro contexto histórico. Que, ainda assim, não perdia de vista a forma como o futebol poderia servir como elemento de união – embora também uma ferramenta potente de poder.


