Mudanças inspiradoras
A Rússia tem um novo homem forte no futebol. Na última segunda-feira, Nikolai Aleksandrovitch Tolstih foi eleito o novo presidente da federação russa de futebol, a RFU. No pleito, derrotou o candidato da situação, Sergei Pryadkin. Tolstih significa a mudança que muitos querem no futebol russo, manchado nos últimos meses por diversas acusações de manipulação de resultados.
O jornalista Grigory Telingater, do Sport-Express, principal diário esportivo do país, escreveu um texto exclusivamente para este blog falando sobre o cenário de mudanças que os russos enxergam agora no futebol.
Sem título, mas com esperança
Por Grigory Telingater, jornalista do Sport-Express
Estou em casa. Sento-me no canto do meu quarto. Faz muito calor, e isso acontece raramente em Moscou. No meu computador toca Sail, do Awolnation. Tenho um sentimento estranho. Sei que o futebol na Rússia nunca mais será o mesmo.
O dia é 3 de setembro, dia da votação da federação. Ao todo, 103 membros da União Russa de Futebol escolherão o novo presidente. São sete candidatos, mas na verdade apenas dois disputam efetivamente o cargo: Tolstih e Pryadkin. Pessoas absolutamente opostas. Pryadkin segue a linha da diretoria anterior. Tolstih, pelo contrário, é um símbolo de mudanças.
Sergei Pryadkin, presidente da Premier League russa
Ele é o chefe de todos os clubes da liga russa. Pryadkin é a pessoa que disse a famosa frase: “Todo mundo sabe que eu cheguei na Liga pelo mercado dos agentes”. E nesta mesma entrevista, dez minutos depois ele afirmou: “Eu nunca tive ligação com o mundo dos agentes”. É difícil entender… Vamos analisar então o registro dos agentes da Alemanha. Nos documentos oficiais, Pryadkin aparece como fundador da GiRRus, companhia que trabalha no mercado de jogadores. Aliás, essa empresa tem a maior parte dos seus clientes na Rússia. Outra detalhe sobre Pryadkin é sua relação com os árbitros. Há boatos que ele é quem escolhe os árbitros dos jogos do Campeonato Russo. Defensores de Pryadkin sempre dizem duas coisas. Primeira: “Não temos que ofender Pryadkin. No mundo do futebol não existem pessoas totalmente honestas”. Segunda: “Nao é justo que o governo russo ajude Tolstih, apesar dos regulamentos da Fifa”.
Nikolai Aleksandrovitch Tolstih, vice-presidente da RFU
Uma pessoa que até hoje não tem carro. Ele usa metrô, apesar de seus cargos — diretor executivo do Comitê Olímpico da Rússia e também da União Russa de Futebol. Ele parece ser uma pessoa estranha, mas não é. Fanático por futebol, Tolstih tem uma história de vida muito trágica, com a morte da sua esposa. Mas esse artigo não é sobre isso, e sim sobre sua carreira. Tolstih foi uma das pessoas que criou o futebol profissional na Rússia depois do desaparecimento da União Soviética. Ele foi o principal criador da PFL (segunda liga) e diretor do Comitê de Resolução das disputas do futebol russo. No entanto, a última diretoria da entidade o demitiu. Muitas pessoas na casa do futebol russo tem medo de Tolstih. Funcionários da RFU dizem que “se Tolstih vencer a eleição, sangue será derramado do primeiro ao quinto andar da Casa do Futebol”..
A eleição
A votação teve ampla cobertura da imprensa russa, com transmissão ao vivo pela TV e online. Na primeira etapa foram estes os resultadas: Tolstih – 139 votos, Pryadkin – 118, Lebedev – 9, Beletskiy – 4, Aminov – 2 e Lovchev – 2 (com regulamento atual, os votos das federações regionais multiplicaram a três). Na segunda fase, cada candidato precisava de 50% dos votos + 1 para ganhar.
E Tolstih ganhou!!! É uma grande vitória. Depois de muito tempo, temos esperança no futebol russo. Acredito que agora podemos acabar… talvez não absolutamente, mas ao menos interromper jogos manipulados e matar a corrupção no mundo dos agentes. Neste momento, a justiça venceu.
E neste momento, também, é uma vitória do jornalismo. O repórter Andrey Sukhotin, do jornal “Novaya Gazeta”, tem sua história. Ele foi a pessoa que “revelou” Pryadkin e escreveu artigos sobre o agora ex-candidato. Em um artigo publicado recentemente, ele escancarou os negócios de Pryadkin na Alemanha e o comércio de armas que ele mantinha em 1994, pelo qual acabou preso. Em um país comum, seria o suficiente para Pryadkin ficar longe do futebol. Mas na Rússia não.
O jornal recebeu muita pressão antes da publicação. Fizeram ameaças ao editor, que ficaria sem emprego. Mas apesar de tudo, o editor-geral bancou a matéria e publicou o texto deste jovem jornalista, de apenas 22 anos, e que já produz matérias tão grandes. Isso é jornalismo de verdade.
No final das contas, uma pessoa ao estilo Ricardo Teixeira a menos no mundo do futebol. Claro que não podemos nos iludir. Os Estados Unidos, por exemplo, também tinham muita esperança com Obama, mas as coisas não andaram tão bem.
Tolstih tem seus problemas. Seu assessor de imprensa terá que fazer um milagre para melhorar o linguajar do dirigente, acostumado a usar muitos palavrões. Mas esse é um problema de outro nível. Espero que essa história faça o povo brasileiro acreditar em mudanças. Sempre existe luz no fim do túnel.