Leste Europeu

Mudança de residência

O empréstimo do meia Ramón, do CSKA, para o Flamengo, concretizado na semana passada, e a chegada do centroavante Ari, ex-AZ Alkmaar, ao Spartak Moscou, parecem confirmar ainda mais uma tendência que começou a se manifestar na metade da temporada 2009: enquanto o Exército Vermelho se desfaz de seus brasileiros, o Spartacus importa cada vez mais homens de frente nascidos por aqui para quebrar o jejum de títulos nacionais que já está perto de completar uma década – o último Campeonato Russo conquistado pelo clube foi em 2001.

A confiança pode ser justificada pelos desempenhos de Alex e Welliton, que estiveram no onze ideal da Premier Liga do ano passado. O primeiro foi o líder em assistências, com 12 no total, e é cotado para integrar a seleção brasileira que vai à Copa do Mundo. O segundo, por sua vez, terminou a temporada como goleador do torneio, com 21 gols marcados, e já foi até sondado para se naturalizar e jogar pela seleção nacional. As especulações arrefeceram após a derrota para a Eslovênia, que eliminou os russos do Mundial

Os outros dois brasileiros do time, que atuam no meio-campo, tiveram um desempenho mais discreto em 2009. O ex-flamenguista Ibson, que chegou como grande reforço no meio do ano, foi prejudicado por uma fratura no pé e jogou apenas seis partidas na temporada. O volante Rafael Carioca, trazido do Grêmio, chegou a jogar bem em vários momentos, mas não conseguiu adaptar-se ao estilo de vida russo e fez biquinho para voltar. Ele acabou sendo emprestado para o Vasco no início de 2010.

A contratação de Ari traz ao técnico Valery Karpin uma boa possibilidade de reposição a Welliton, algo que não existia no elenco no ano passado. Revelado no Fortaleza, o centroavante atuou com sucesso pelo Kalmar-SUE antes de chegar à Holanda. No AZ Alkmaar, teve uma participação importante na campanha do título da temporada 2008/09, marcando nove gols em 20 partidas e funcionando como um bom substituto de Moussa Dembélé, que estava lesionado na ocasião.

Com a saída de Louis Van Gaal e a chegada de Ronald Koeman, porém, ele perdeu espaço no time nesse ano e, ao perceber que estava sobrando, arrumou as malas. A adaptação, embora difícil, não deverá ser um grande obstáculo para quem já está na Europa há quatro anos, e o idioma, embora assuste, também deverá ser dominado com facilidade – Ari se esforçou para aprender, com relativo sucesso, o sueco e o holandês -. Um grande adversário a ser batido no momento é a megalomania de alguns jornais russos, que embarcaram na onda dos também exagerados periódicos cearenses e relembraram as comparações feitas com Romário no início da carreira.

No CSKA, a tendência parece ser inversa. Com a supracitada saída de Ramon para o Flamengo, o clube se desfez, por empréstimo, de todos os homens de frente brasileiros que lhe pertencem e só ficou com Guilherme, que é do Dynamo Kiev e está emprestado.

Não se sabe se o presidente do clube, Yevgeni Giner, está traumatizado com o comportamento dos brasileiros fora de campo, mas, se estiver, ninguém pode tirar-lhe a razão. Os casos de Vagner Love e Daniel Carvalho, por exemplo, justificam um sentimento misto de admiração e receio que certamente afeta mais dirigentes pelo mundo.

Dentro das quatro linhas, os dois deram retorno por algum tempo. Love foi artilheiro do Campeonato Russo com 20 gols em 2008, e Daniel foi eleito o melhor jogador da liga em 2005, ano em que o clube conquistou a Copa da UEFA. O bom desempenho dentro de campo, porém, aumentava o eco dos pedidos para “voltar ao Brasil e ficar mais próximo da seleção”. Vale lembrar que, mesmo atuando na Rússia, eles tiveram chances com Dunga.

Cansado de ouvir a cantilena, Giner resolveu emprestar os dois. Daniel Carvalho, depois de um mal-sucedido retorno ao Internacional, agora tenta recuperar o bom futebol no Al Arabi-QAT. E Vagner Love, depois de uma passagem conturbada pelo Palmeiras, parece finalmente se acertar no Flamengo, mas tem chances remotas de ir ao Mundial.

No caso de Ramón, porém, o principal problema foi a falta de futebol. Em três anos na Rússia, ele não conseguiu mostrar o mesmo futebol da época em que defendia a seleção brasileira sub-17, em 2005. Emprestado ao Krylia Sovetov, também não emplacou em Samara e volta ao Brasil para tentar revitalizar a carreira no Flamengo, onde será, a princípio, um reserva discreto.

Outro que teve algumas oportunidades, mas nunca convenceu, foi o atacante Ricardo Jesus. Revelado no Internacional, ele passou pelo Spartak Nalchik antes de chegar a Moscou. Pelo CSKA, foram apenas 16 jogos e um gol em dois anos, e sua falta de categoria provocou a ira da torcida, que não quer vê-lo, em hipótese nenhuma, como centroavante do clube.

Giner agora direciona seus investimentos para jogadores como o marfinense Seydou Doumbia, 22 anos, destaque absoluto do Campeonato Suíço atuando pelo Young Boys. Ou no habilidoso japonês Keisuke Honda, que foi trazido do VVV-Venlo-HOL para reforçar o setor de criatividade no meio-campo da equipe, que poderá perder Milos Krasic e Alan Dzagoev no meio do ano.

 

Rodrigo em Kiev

O zagueiro Rodrigo, que disputou o último Campeonato Brasileiro pelo São Paulo, viajou a Kiev nesta terça-feira para decidir, junto com a diretoria do Dynamo Kiev, o seu futuro. Ele chegou a negociar um retorno ao Flamengo, clube pelo qual atuou no início de 2008, mas os ucranianos não concordaram com o negócio e o querem para a disputa da segunda metade da Premier Liha, que começa no próximo dia 27.

Aos 31 anos, Rodrigo é um remanescente da turma de brasileiros que invadiu Kiev há algum tempo atrás e era composta, entre outros nomes, por Kléber, Michael, Diogo Rincon e Corrêa. Eles ficaram marcados pelas péssimas campanhas nas Ligas dos Campeões em 2006/07 e 2007/08 – nesta última, o clube perdeu todos os seis jogos que disputou, contra Manchester United, Roma e Sporting -.

Alcides em maus lençóis

Quem parece ver a própria carreira afundar cada vez mais é o zagueiro Alcides, do Dnipro, que não se reapresentou para a inter-temporada do clube na data determinada e pode ser até dispensado nos próximos dias. Os jornais ucranianos dizem que uma possível razão para o atraso é o fato dele ter sofrido um pequeno acidente automobilístico em um subúrbio de São Paulo. A diretoria do clube, porém, não perdeu tempo e acertou a contratação do zagueiro Ucha Lobzhanidze, georgiano que atua com frequência pela seleção de Héctor Cúper.

Pode ser o fim da linha para quem foi campeão mundial sub-20 com a seleção brasileira em 2003 e também defendeu a seleção sub-23 quando tinha apenas 18 anos. Alcides, que chegou a ser apontado como sucessor de Aldair, chega aos 25 anos sem muitas perspectivas e talvez ainda possa contar com o passado promissor para receber novas oportunidades. Mas, enquanto elas não chegam, ele certamente observa o sucesso de companheiros menos badalados em 2003, como Kléber e Felipe Melo, e outros que já apontavam para o estrelato, como Daniel Alves e Nilmar.

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Equipe Trivela

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