Leste Europeu

Modric: “Não preciso elevar meu ego com grandes ofertas, quero curtir o Real Madrid”

Modric deu uma interessante entrevista sobre o momento de sua carreira, o sentimento pela Croácia e a continuidade no Real Madrid

Não é exagero dizer que Luka Modric atravessa um final de carreira entre os mais impressionantes da história do futebol. O tempo não pesa sobre os ombros do croata: pelo contrário, ele seguiu flutuando em campo para liderar grandes campanhas recentes do Real Madrid e da seleção da Croácia. E o que diferencia o veterano, além de sua classe, é a maneira como ele encara a paixão pelo futebol competitivo. Diferentemente de outros colegas, o craque não estava interessado em ampliar sua conta bancária exorbitantemente na Arábia Saudita. Mesmo com propostas cheias de zeros, preferiu continuar no Bernabéu. E afirma como é esse sentimento de aproveitar o futebol que o move, não necessariamente o apelo financeiro do esporte.

Nesta semana, Modric deu uma entrevista bastante interessante à imprensa croata, publicada pelo Sportske Novosti. Falou sobre a sua continuidade na seleção, a maneira como se motiva para seu trabalho, a relação com o Real Madrid. E também comentou a possibilidade de ir para o Campeonato Saudita. Sem necessariamente alfinetar os antigos companheiros que estão lá e com quem mantém boa relação, Modric apenas afirmou que aceitar uma proposta agora só pelo dinheiro não era a sua. E dá para entender, diante da maneira como ele busca mais o prazer no trabalho do que o bem-estar financeiro. Abaixo, trazemos parte das respostas:

A boa forma aos 38 anos

“Se alguém tivesse me dito há dez anos que, nessa idade, eu ainda estaria curtindo o futebol e tudo o que o jogo traz, treinando, confraternizando com os companheiros, recebendo o apoio da torcida… Eu honestamente não teria acreditado nisso. Sou um homem de sorte. Com minha família, que é o sentido da minha vida, curto o futebol ao máximo com a Croácia e com o Real Madrid. Acima de tudo, com a mesma paixão que mantenho pela bola desde garoto”.

A motivação

“Os fatores mais importantes para que um jogador continue num bom nível competitivo é que ele esteja bem fisicamente e ainda tenha uma forte motivação. Na questão física, acho que todos veem ainda como posso manter o ritmo numa partida. Felizmente não tenho lesões ou problemas crônicos. E às vezes me pego pensando que estou mais motivado do que antes. Acho que isso vem com a idade, quando você sabe que o final está chegando. Por fim, o melhor sinal para mim é desfrutar a cada treino, a cada jogo, sentir que a seleção me respeita e me percebe como necessário. Com tudo isso junto, não saí de cena. Ainda…”

O sentimento na seleção croata

“É compreensível que outras seleções invejem a Croácia. Sei quantos jogadores de seleções mais fortes carecem dessa paixão e desse sentimento de ‘mal posso esperar pela Data Fifa’. A união não é um clichê, isso é muito importante nas relações dentro do time e ao redor dele. Sem isso, você pode ter a máxima qualidade, mas não estará completo. Dentro disso, a Croácia cria milagres esportivos, não só no futebol, mesmo sendo um país pequeno e com uma população bem menor que os demais”

A ideia de se aposentar da seleção

“Acho que já dá para entender que não vou continuar por muito tempo, não seria lógico pela minha idade. Mas estou focado no presente. Um dia por vez, um jogo por vez. Eu ouço sobre minha situação e minha contribuição para o time. Se sinto que estou à altura, que ainda posso fazer a diferença, sigo à disposição. Não posso impedir a passagem do tempo, mas posso influenciar o quanto estou pronto e como me sinto. Hoje estou feliz em estar com a seleção. É por isso que não há anúncio. Posso me sentir assim e ficar por mais um ou dois anos, mas também posso decidir que é hora de sair em três meses. Assim os velhos fazem… (risos)”

A oferta da Arábia Saudita

“Sem falsa modéstia, tive ofertas antes, o interesse é constante. Contudo, minha visão principal, desde 2012, é que o Real Madrid está sempre em primeiro lugar. Só sairia se o Real Madrid não contasse mais comigo, só então pensaria em outras opções. Meu comportamento nos últimos 11 anos confirma isso. Sobre a Arábia Saudita, posso apenas repetir: estou feliz e realizado no Real Madrid. Enquanto for esse o caso, não pensarei sobre outras opções. Nem preciso aumentar meu ego com essas histórias sobre grandes ofertas. Só quero curtir cada momento no futebol e no Real Madrid, não estabeleço limites para mim”

A continuidade no Real Madrid

“Não havia nenhum problema antes e nem depois da assinatura do contrato. Especialmente da minha parte. O Real Madrid expressou o desejo de continuarmos, eu tinha a mesma ideia. Nós nos sentamos e rapidamente entramos em acordo. Foi assim durante 11 anos e não vai mudar. Minha relação com o clube é extraordinária. Minha única condição para permanecer era ser tratado como um jogador como outro qualquer, e não ser mantido no elenco pelos feitos do passado. Era meu desejo que todos os jogadores começassem do mesmo ponto e lutassem pela posição, como desde o meu primeiro dia no Real Madrid. Essa crença de que cada um pode contribuir com o time é sólida e baseada nos jogos. Dois meses atrás, eu joguei 120 minutos duas vezes na mesma semana pela seleção, o que significa que continuo no mesmo nível físico. Por isso eu queria ficar e, quando o clube e o técnico disseram que nada mudaria no meu status, eu assinei”

A competição no meio-campo do Real Madrid

“Falei com Ancelotti por iniciativa dele. Temos uma relação boa desde sua primeira passagem. Não há atritos. Estou tranquilo, consciente de que tenho que trabalhar como antes e logo tudo voltará ao lugar. Estou ciente que há muita concorrência no meio-campo, que esses jovens são jogadores de primeira, por isso estão no Real Madrid. E eles, normalmente, têm seus desejos, motivações e procuram um lugar ao sol. Nós, veteranos, devemos ajudá-los a progredir e a assumir os postos que o clube procura. Nesse sentido, atuo há muito tempo para apoiá-los e fico feliz que esses jovens, como Rodrygo e Vinícius, queiram conselhos e usem nossas experiências. Também continuo convencido de que posso atuar da maneira como o Real Madrid precisa”

A relação com Toni Kroos

“Nós não desistimos, mesmo sabendo que o fim da história se aproxima. É algo natural. Ele é quatro anos mais jovem, mas tem uma visão diferente sobre a duração de sua carreira em relação à minha visão. Toni é um grande cara, não apenas alguém fora da curva em campo, e estou feliz que podemos aproveitar o final de nossas carreiras juntos”

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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