Leste Europeu

Giuliano: “Meu objetivo é voltar à seleção principal”

A consagração no Internacional, como melhor jogador no título da Libertadores da América, selou o destino de Giuliano. Aos 20 anos, em 2010, recebeu uma proposta milionária do Dnipro Dnipropetrovsk e trocou o futebol brasileiro pelo ucraniano.

Já mais adaptado ao novo país, o meia formado no Paraná e com boas passagens pela Seleção Brasileira nas categorias de base conversou com exclusividade com a Trivela e falou sobre seu atual momento e principal objetivo: uma vaga na Seleção Brasileira.

Como está a sua adaptação ao futebol ucraniano? Sentiu muitas dificuldades no início?
Em todo o lugar onde você vai o começo é difícil. E, quando você vem para um país em que não conhece a língua, em que a cultura e a forma de jogar são diferentes, você sente mais ainda. No começo foi difícil se adaptar, conhecer a forma como eles viviam, aprender a língua e jogar no estilo deles. Mas, a partir do momento em que você vai pegando um pouco da língua, aprendendo a falar, treinando no dia a dia com os seus companheiros, acaba se adaptando e eles vão te recebendo melhor. Você assimila o perfil e o estilo deles, e isso facilita. Agora posso dizer que estou bem melhor e adaptado à língua e ao estilo de jogo.

Você já está conseguindo falar o russo e/ou o ucraniano?
Aqui eles falam as duas línguas. Mas o que a gente mais usa aqui é o russo. O difícil é que, se você liga a TV, os programas são todos em ucraniano. E, quando você sai na rua, vai a algum restaurante ou shopping, é somente o russo. Então isso confunde a sua cabeça, mas nada de mais.

O Dnipro tem investido muito em reforços. Na última temporada o time foi o quarto colocado, mas nesta começou mal. O que tem acontecido com a equipe?
Mudamos algumas peças do ano passado para este ano. Claro, mantivemos a comissão técnica e a base do time. Mas muitos chegaram, jogadores que são de características diferentes. Terminamos a temporada passada jogando muito bem, tendo ritmo de jogo e mantendo a mesma equipe. E, neste ano, não conseguimos nos encaixar ainda por conta desses novos jogadores. Alguns chegaram no meio da pré-temporada, e isso dificultou o entrosamento. É com trabalho e treinamento que vamos resolver isso, entrosar novamente e voltar a ter os bons resultados que tivemos no ano passado.

Você acha que, mesmo com esse mau início, o Dnipro tem chance de lutar pelo título com Shakhtar e Dynamo Kiev?
Claro. Lógico que se tratando de Shakhtar e Dynamo é sempre difícil, porque são duas equipes que investem bastante e são muito fortes, que dificilmente perdem jogos no Campeonato Ucraniano. Mas a gente tem condições. Temos um excelente elenco. O campeonato está no começo e ainda tem muita coisa para acontecer. Tem uma pausa de na metade do ano, por causa do inverno. Acho que a gente tem tudo para, daqui para frente, se fortalecer e almejar algo maior.

O Metalist é um adversário fortíssimo também, até porque tem ficado à frente do Dnipro nas últimas temporadas. É um objetivo mais próximo bater eles?
Esse é o objetivo maior e a há uma cobrança maior por parte da nossa equipe e dos torcedores. Porque como o Metalist é um dérbi, é um clássico aqui, os torcedores e a própria diretoria não aceitam viver atrás do Metalist. Já que é algo cobrado por todos, a gente sempre tenta terminar à frente do Metalist, mesmo sabendo que eles têm uma excelente equipe também.

Sobre os novos reforços, já deu para conhecer o trabalho deles, como do croata Nikola Kalinic, que veio do Blackburn? Dá para destacar algum deles?
O Kalinic é um excelente centroavante. É um jogador que está acostumado ao estilo europeu. Ele estava jogando na Inglaterra, que é um futebol de mais força e contato. Tive pouco contato com ele: somente duas semanas e fiz umas duas ou três partidas. É um jogador que segura muito bem a bola, tem uma boa finalização e que nos ajudará muito nesta temporada.

A pressão da diretoria por resultados melhores é muito grande?
Há muita pressão. Não tanto quanto no Brasil, porque são culturas diferentes e formas distintas de cobrança. O torcedor cobra de uma forma mais pacífica e, da parte da diretoria, há mais conversa, diálogo. Mas há sim essa pressão para que a gente melhore, vença e coloque o Dnipro em uma condição boa. Nada diferente do que estava sendo nas outras temporadas.

Como é o trabalho do técnico Juande Ramos? É muito diferente do que você já tinha visto no Brasil?
É um pouco diferente, pelo fato de ser espanhol. É um treinador que gosta muito de posse de bola e de velocidade e ele trabalha isso diariamente. Essa é a principal característica que ele pede e quer implantar na nossa equipe: um time que jogue muito com a bola e tenha a posse, mas ao mesmo tempo tenha velocidade para não depender do adversário.

Como você tem jogado? Mais aberto no meio-campo?
Exatamente. Varia muito.  Nosso esquema normalmente é o 4-2-3-1, com três meias e somente um atacante. Eu tenho jogado mais como um terceiro ponta, mais pela direita. Só que eu não jogo completamente aberto porque não tenho essa característica de ir para a linha de fundo e fazer cruzamento. Eu jogo pela direita fechando mais para dentro do campo. É o que o treinador me pede e é onde eu gosto de jogar, porque assim eu posso supreender os adversários nessa faixa de campo e dou uma opção de desafogo para o lateral-direito.

Quando você chegou, o Matheus, atacante que veio do Braga, já estava aí, certo? Ele te ajudou um pouquinho, conhecia alguma coisa?
Ele chegou dois meses antes de mim. Na verdade, o Matheus tem um pouco de dificuldade com o russo também. Normal, até porque em dois meses ele não ia estar falando russo. Na época tinha um argentino [Osmar Ferreyra, atualmente no Independiente], que estava há três anos e meio e ele foi o jogador que mais nos ajudou aqui porque já dominava a língua e a gente se aproximou dele. Depois, ele saiu por falta de contrato.

Voltando para esta temporada, como foram os jogos contra o Fulham pela Liga Europa? O 3 a 0 na partida de ida definiu o confronto nos play-offs.
O jogo de ida é que definiu a nossa não classificação. Mas não fizemos um jogo ruim. Até os 30 minutos de jogo, a nossa equipe tinha controlado e, em cinco minutos, tudo mudou. Levamos dois gols um atrás do outro. A gente não sabia se tentava fazer um gol para diminuir ou ficava na defesa para não tomar mais gols. Terminou em 3 a 0 e não conseguimos reverter essa vantagem em casa.

Ainda sobre o futebol ucraniano, o Shakhtar tem uma mentalidade declarada pela sua diretoria de investir em jogadores brasileiros para o meio-campo e para o ataque e em ucranianos para a sua defesa, para ficar na cota de estrangeiros. Você acha que é esse o caminho para o futebol ucraniano evoluir ainda mais, já que tem dado certo com o Shakhtar?
A gente tem que pegar os exemplos bons e confiar. No Shakhtar, essa formação e mentalidade estão dando certo. Acho que tem que adotar, e a diretoria deveria olhar com bons olhos para que a gente jogasse no mesmo nível que o Shakhtar, melhorasse nossa equipe e trouxesse mais jogadores estrangeiros que queiram crescer também.

Como foi a sua reação quando soube da proposta do Dnipro? Você já tinha ouvido falar no clube, que é um time tradicional na Ucrânia?
Eu fiquei surpreso com a velocidade em que as coisas aconteceram. O meu empresário me passou o site do clube, me mostrou os brasileiros que estavam aqui, os estrangeiros, a cidade. Então eu pude conhecer o que era o Dnipro, o que era Dnipropetrovsk e estudei a proposta. Vi que era uma proposta muito boa financeiramente. Era uma chance de ir para a Europa. Mesmo sendo do Leste Europeu, é um país que está crescendo no futebol. Vi que era uma grande oportunidade de eu estar crescendo também.

Em 2010, você foi apontado como uma das principais revelações do futebol brasileiro, até depois do título do Inter, quando você foi eleito o melhor jogador da Libertadores. Muita gente imaginava que você deveria ter ido para um grande clube do futebol europeu ou até ter seguido no Inter. Foi uma proposta irrecusável mesmo?
Foi para as duas partes. Não só para mim. Mas o Inter quis me vender pelo fato de a proposta ser ótima. Eu tive propostas de outras equipes, mas nenhuma chegou ao valor que o Dnipro ofereceu para o Inter, que era o valor que eles desejavam. Então isso fez com que casasse tudo. A proposta foi boa financeiramente para o Inter e para mim. Era uma oportunidade de eu ir para a Europa, de estar jogando aqui, de estar realizando o meu sonho, de vir para um país que está crescendo e que está contratando jogadores.

Apesar dessa proposta, você acha que deveria ter seguido mais no futebol brasileiro?
Acho que eu comecei no futebol muito cedo. Com 16 para 17 anos eu já estava no Paraná Clube. Com 18, eu fui contratado pelo Inter. As pessoas falavam: ‘Mas ele não é muito novo para estar no Inter? É um menino que chegou agora, que veio de uma equipe, teoricamente, pequena’. E eu, com 18 para 19 anos, já estava jogando como tutular da equipe. Com 19 anos, fui muito bem no Campeonato Brasileiro. Já não era titular, porque tinha jogadores consagrados no elenco, mas eu entrava sempre. E 2010 foi o ano da consagração. Isso somente com 20 anos. Pelo fato de as coisas terem acontecido muito rápido, vejo que, apesar de ser novo, eu completei quatro anos jogando no futebol brasileiro. Joguei dois Brasileiros da Série A, um Brasileiro da Série B. Saí do Inter com o vice-campeonato brasileiro, com muita experiência.

Hoje, conhecendo mais a Ucrânia, o futebol ucraniano, a força do campeonato, você recomenda para os jogadores brasileiros uma transferência?
Sem dúvida. Um jogador que vier aqui tem que se adaptar a um novo estilo de jogo, que é um futebol muito mais rápido. O brasileiro gosta de ficar com a bola, de tocar, driblar. Aqui você pode fazer isso, mas tem que fazer muito mais rápido. O jogo aqui é mais veloz, de mais força e contato.

Você ganhou muita experiência jogando pelas equipes nos profissionais, mas a sua experiência nas categorias de base da Seleção Brasileira é muito grande, tendo disputado dois Mundiais, sub-17 e sub-20. Isso te ajudou a evoluir mais rapidamente também?
Sem dúvida, a seleção de base me ajudou muito. Já participei da sub-15, do Sul-Americano, vencendo o sub-17, depois joguei em dois Mundiais. A gente chegou na final e eu ainda era o capitão da equipe. Isso fez com que eu aprendesse muito com o grupo. Então essa minha fase na Seleção me ajudou bastante.

Qual é a sua expectativa em relação à Seleção Brasileira?
Eu tenho como objetivo voltar à seleção principal e também jogar as Olimpíadas por eu ser um jogador novo, com idade olímpica, por ter passado pelas seleções de base. Claro que isso depende do meu momento, de como eu estarei jogando. Mas tenho que fazer a minha parte que é trabalhar, jogar bem, ajudar a minha equipe e fazer com o que eu volte.

Você citou que estreou muito cedo no Paraná. Como foi o início? Você, que é de Curitiba, sempre jogou nas categorias de base do Paraná?
Sempre. Eu comecei no futebol com oito anos. Mas iniciei no futebol de salão. Com nove anos fui para o futebol de campo. Eu joguei as duas modalidades até os 13. A partir dos 13, eu fiquei só no futebol de campo. Foi muito rápida a minha ascensão. Com 13, eu já jogava nas categorias maiores. Quando eu tinha idade infantil, jogava nos juniores. E, quando eu tinha idade de juvenil, eu já estava no profissional. Então eu queimei algumas etapas na base. A minha base inteira eu passei no Paraná.

Como está a preparação da Ucrânia em relação a Eurocopa do ano que vem? Muitas obras? Como está o clima da população?
Me surpreendeu bastante nesse sentido também. A minha cidade não vai sediar, mas Kiev, que é a capital aqui, e Donetsk estão bem preparadas para sediar. As obras estão quase terminando. Acho que a população está animada e vai lotar os estádios. É uma população que gosta de futebol e de se divertir e que vai vibrar muito na Eurocopa.

E você acha que a seleção ucraniana pode surpreender?
Pode. Assim como surpreendeu na Copa do Mundo na Alemanha, quando passou da primeira fase e foi eliminada pela Itália. Eles têm bons jogadores e, sem dúvida, farão uma boa Eurocopa. 

FICHA

Nome: Giuliano Victor de Paula

Nascimento: 31/mai/1990, em Curitiba (PR)

Clubes: Paraná (2007 a 2008), Internacional (2008 a 2010) e Dnipro Dnipropetrovsk (desde 2010)

Títulos: Libertadores da América (2010), Sul-Americano sub-20 (2009), Copa Suruga (2009) e Campeonato Gaúcho (2009)
 

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Equipe Trivela

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