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Força nos tempos de URSS, o Torpedo Moscou levou o acesso graças a um dramático empate aos 46 do 2° tempo

O Torpedo Moscou estava fora da primeira divisão desde 2015 e se reconstruiu a partir da terceirona para voltar à elite

O Torpedo Moscou era um dos principais clubes do antigo Campeonato Soviético. A equipe surgiu em 1924 e, fomentada pela indústria automobilística, chegou à primeira divisão pouco tempo depois da criação da competição. Os alvinegros tiveram seu auge entre as décadas de 1950 e 1960, com a conquista de duas ligas e quatro copas. Tempos em que Eduard Streltsov e Valentin Ivanov, craques do futebol local, estrelavam o elenco. O Torpedo nunca tinha deixado a primeira divisão até 2006, mas o fim da União Soviética marcou um período de dificuldades, antes que se iniciasse o sofrimento nas divisões de acesso. Já neste final de semana, a torcida moscovita pôde comemorar: a equipe conquistou a segundona e voltou à elite depois de sete anos, num processo de reconstrução que precisou se iniciar na terceira divisão. A promoção se consumou com drama, graças a um gol de empate aos 46 do segundo tempo.

A partir do momento em que chegou à primeira divisão, em 1938, o Torpedo Moscou nunca deixou a elite do Campeonato Soviético. Era um clube que se acostumou a fazer campanhas na parte de cima da tabela, especialmente com sua geração dourada durante as décadas de 1950 e 1960. Eduard Streltsov era o grande ídolo, campeão olímpico em 1956 e primeiro soviético a aparecer no Top 10 da Bola de Ouro. O astro chegou a ter sua carreira interrompida aos 20 anos, preso num campo de trabalhos forçados sob uma acusação de estupro – num caso que ainda hoje gera contestações de interferência política. Após ficar cinco anos detido num gulag, o atacante voltou para liderar o Torpedo ao título nacional em 1965 e seria duas vezes eleito o melhor jogador do país. Ao seu lado também estava presente Valentin Ivanov, outro ganhador do ouro em 1956. O meia foi um dos destaques na conquista da Euro 1960 e terminou a Copa de 1962 entre os artilheiros.

Após a aposentadoria de seus astros, o Torpedo passou a frequentar o meio da tabela, mas conquistaria o Campeonato Soviético mais uma vez em 1976, agora com o técnico Valentin Ivanov. O clube também levaria outras duas edições da Copa Soviética. Porém, ainda que os alvinegros viessem de bons desempenhos no final da década de 1980, a força não se manteria com o fim da União Soviética e com o desmonte da estrutura que bancava a agremiação. Sem mais o apoio forte da indústria automobilística, os moscovitas viraram figurantes na Rússia. No máximo, conquistaram a Copa da Rússia em 1993 e tiveram uma terceira colocação no Campeonato Russo em 2000.

A queda livre do Torpedo Moscou começou em 2006, quando a equipe amargou o inédito rebaixamento após 68 anos na primeira divisão. Os alvinegros jogaram duas edições da segundona e terminaram rebaixados novamente em 2008. Porém, com problemas financeiros, o time precisou recomeçar na quarta divisão, em níveis regionais. A primeira reconstrução dos alvinegros se deu nesta época. Subiram duas divisões em dois anos e, depois de três anos na segundona, conseguiram o retorno à elite depois de nove temporadas. Essa experiência, contudo, durou só um ano. O Torpedo voltou ao Campeonato Russo para já ser rebaixado em 2014/15. Pior, em nova crise administrativa, seria relegado à terceira divisão.

Desde então, o passo a passo do Torpedo Moscou foi mais contido, mesmo que em 2017 o clube tenha sido adquirido por Roman Avdeev – bilionário que é dono de um dos maiores bancos da Rússia. Dentro de campo, ainda assim, loucuras não foram cometidas. Os alvinegros passaram quatro temporadas na terceira divisão, até que finalmente comemorassem o acesso em 2018/19. Depois, foram mais três participações na segundona. Os moscovitas ficaram a um ponto do acesso em 2019/20, após ocuparem a liderança até quatro rodadas do fim, mas terminaram a campanha sem vitórias em seus últimos seis compromissos. Já em 2020/21, o desempenho piorou e o time encerrou o torneio na sexta colocação. Por fim, na atual temporada, a comemoração veio e o Torpedo se recolocou na elite depois de sete anos. Entretanto, tudo ficaria para ser decidido na rodada final.

O Torpedo Moscou permaneceu como um dos principais candidatos ao acesso ao longo do campeonato. Os alvinegros estiveram nas duas primeiras posições, que dão os acessos diretos, em 30 das 38 rodadas. Porém, a disputa equilibrada não permitiu que o time abrisse distância e a confirmação ficou mesmo para a reta final. Desta vez, os moscovitas cresceram no momento decisivo e permaneceram invictos em seus últimos oito jogos, incluindo cinco vitórias no período. Apesar disso, a rodada decisiva permaneceu aberta, com três times ainda vivos pelo G-2. O Torpedo vinha na liderança com 74 pontos, contra 73 do Orenburg e 71 do Fakel Voronezh.

Franco-atirador na briga, o Fakel Voronezh cumpriu sua parte ao derrotar o Baltika por 1 a 0 em Kaliningrado. O Orenburg só dependia de si, mas empatou por 2 a 2 com o Volgar Astrakhan fora de casa. Já o Torpedo Moscou, que precisava de um mero empate, quase pôs tudo a perder em casa contra o Kuban. Os visitantes abriram o placar aos 42 minutos do primeiro tempo e Oleg Kozhemyakin empatou aos 16 do segundo tempo. Aos 31, o Kuban retomou a vantagem. Neste momento, os três candidatos ao acesso estavam ficando igualados com 74 pontos e o Torpedo se dava mal, por ter o menor número de vitórias. A salvação veio aos 46 do segundo tempo, quando Aleksey Pomerko converteu um pênalti e assegurou o empate por 2 a 2 aos alvinegros. Depois disso, ainda haveria a reclamação de um penal para o Kuban, que não foi marcado.

O Torpedo fechou a campanha com 75 pontos, com o título e o acesso. O outro a subir diretamente foi o Fakel, que terminou à frente do Orenburg pelo confronto direto e retorna à primeira divisão pela primeira vez desde 2001. Já o Orenburg precisará jogar os playoffs de acesso, assim como o SKA-Khabarovsk, localizado na região de Vladivostok. O Orenburg faz jogos de ida e volta contra o Ufa, 14° da primeira divisão, e o SKA encara o Khimki, 13° colocado. Os vencedores dos confrontos levam as vagas na próxima edição da primeira divisão.

O treinador do Torpedo Moscou na empreitada é Aleksandr Borodyuk. Ele foi assistente de Guus Hiddink na seleção russa durante a Euro 2008 e treinou o Torpedo justamente no acesso anterior à elite, em 2014. Provou-se um comandante histórico aos alvinegros, de volta no fim da última temporada. Dentro de campo, as duas principais lideranças foram o meio-campista Aleksandr Ryazantsev e o centroavante Igor Lebedenko, que atuaram pelo Torpedo no início do século, antes que o inédito rebaixamento ocorresse, e estavam de volta para capitanear a atual campanha. O principal jogador do time, de qualquer forma, foi o ponta Mukhammad Sultonov, autor de 15 gols e 12 assistências.

Por enquanto, é difícil cravar quão duradoura será a permanência do Torpedo Moscou na primeira divisão. O clube teve tempo de se reestruturar e os bilhões de Avdeev na conta podem ajudar, embora o cenário na Rússia como um todo seja incerto. Mesmo assim, existem condições bem melhores do que em relação à última aparição dos moscovitas na elite. Quem sabe, para honrar um pouco mais o passado de quem fez muito nos tempos de Streltsov e Ivanov.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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