Leste Europeu

Ferencváros conquista o título húngaro em pleno clássico, num tetra que não vivia há 110 anos

Com apoio político e forte investimento, o Ferencváros amplia seu domínio dentro do Campeonato Húngaro

O maior campeão da Hungria reinou de novo nesta temporada. O Ferencváros conquistou seu 33° título no Campeonato Húngaro, num tetracampeonato consecutivo que não acontecia desde 1912. E o título dos alviverdes na atual campanha é indiscutível. O time apresenta uma vantagem de 13 pontos na liderança, restando mais quatro rodadas para o fim da liga. O desfecho do torneio seria especial às Águias Verdes. A celebração aconteceu em pleno clássico contra o Újpest, com vitória por 2 a 1 de virada, diante da torcida em Budapeste.

O Ferencváros surgiu como uma das primeiras potências do Campeonato Húngaro, ao lado do MTK Budapeste. Os alviverdes foram a principal força do país na década de 1910 e também teriam períodos imponentes entre as décadas de 1920 e 1930. Após a instauração do regime comunista, o Ferencváros levou a taça em 1948/49, mas sofreria um desmanche para que o exército formasse o Honvéd – em limitação que ocorria também pelas ligações com o antigo regime fascista. A volta ao topo aconteceria apenas nos anos 1960, com o time estrelado por Florián Albert. Os títulos seguiram mais espaçados a partir dos anos 1970 e 1980, enquanto a importância se manteve após a queda do comunismo.

O momento mais difícil do Ferencváros ocorreu a partir do título de 2004. Com dificuldades financeiras, os alviverdes tiveram uma passagem pela segunda divisão. O restabelecimento como uma potência ocorreria a partir da reconquista do título em 2015/16, após um hiato de 12 anos sem o troféu. E os alviverdes desde então voltaram a dominar o Campeonato Húngaro, como não ocorria desde a década de 1910. Após a quarta colocação em 2016/17 e do vice em 2017/18, a atual sequência de taças se iniciou em 2018/19.

É importante salientar que o crescimento do Ferencváros desde a última década está ligado aos corredores do poder. O partido Fidesz, do autoritário presidente Victor Orbán, tem vários representantes na diretoria dos alviverdes. Tanto o presidente Gábor Kubatov, à frente do clube desde 2011, quanto o vice Máté Kocsis são parlamentares pelo Fidesz. Em 2014, o clube teve apoio do poder público no financiamento de um moderno estádio e alavancou suas receitas, que permitiram a contratação de reforços estrangeiros. Com o domínio da liga, também fizeram boas aparições nas competições continentais.

O elenco atual do Ferencváros inclui 18 jogadores convocados às suas seleções no último ano. Representantes de 11 equipes nacionais diferentes fazem parte do grupo, incluindo cinco atletas da própria Hungria. Os irmãos marroquinos Ryan Mmaee e Samy Mmaee foram essenciais na atual campanha. Os africanos ainda são bem representados por Franck Boli (Costa do Marfim) e Aïssa Laïduni (Tunísia). As Águias Verdes também contam com uma importante legião de outros países do Leste Europeu, com menção a Myrto Uzuni (Albânia) e Robert Mak (Eslováquia). Da seleção local, Dénes Dibusz e Endre Botka são nomes frequentes. Além disso, o investimento em sul-americanos aumenta. O meia Somália, levado do Bangu em 2012 e que voltou ao elenco em 2020 após cinco anos fora, ganhou as companhias de Marquinhos (ex-Atlético Mineiro) e Carlos Auzqui (ex-River Plate) na atual temporada. Todos os três, porém, são reservas.

O Ferencváros também não costuma economizar em seus treinadores. A ascensão atual começou com o alemão Thomas Doll. Em 2018, Sergiy Rebrov iniciou o tetracampeonato. Já nesta temporada, o ucraniano deu lugar ao austríaco Peter Stöger, que perdeu o emprego em dezembro, após a eliminação na fase de grupos da Liga Europa. Comandante da Rússia na Copa de 2018, Stanislav Cherchesov seria o escolhido nessa transição atual e foi responsável por assegurar tamanha vantagem no Campeonato Húngaro.

Eliminado na última fase preliminar da Champions pelo Young Boys e repescado para um grupo duro na Liga Europa, o Ferencváros não impressionou tanto no primeiro turno do Campeonato Húngaro. A equipe venceu 11 partidas nas primeiras 16 rodadas, brigando pela liderança com Puskás Akadémia e Kisvárda. O salto aconteceu a partir da chegada de Cherchesov, quando o time se concentrou apenas na liga nacional. O time perdeu a segunda partida com o russo, mas está invicto desde então, com sete vitórias nas últimas dez rodadas. Para ajudar, a concorrência começou a acumular tropeços e a diferença na tabela aumentou bastante.

O Ferencváros entrou em campo neste domingo com a chance de conquistar o título no dérbi contra o Újpesti, terceiro maior campeão da liga, mas que não leva o troféu desde 1998. Por mais que os rivais façam uma campanha de meio de tabela, eles abriram o placar com Budu Zivzivadze. A virada das Águias Verdes saiu ainda no primeiro tempo, com gols de Tokmac Chol Nguen e Bálint Vécsei. Era a deixa para que os alviverdes comemorassem o tetra e reforçassem a superioridade na liga local.

Com o título, o Ferencváros entra na primeira fase qualificatória da Champions League. Precisará enfrentar duros desafios se quiser reaparecer na fase de grupos, o que aconteceu em 2020/21. Considerando a popularidade do clube e a relação com o poder, o investimento se mantém para que as Águias Verdes sirvam como uma bandeira da Hungria no cenário continental. Enquanto isso, a dinastia nacional pode resultar num penta que igualará a maior sequência do clube. Pela forma como o time sobrou nesta campanha e pela força do elenco, o favoritismo é óbvio para que esse poderio se preserve por mais tempo.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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