Falece Sinisa Mihajlovic, um jogadoraço de ilustres conquistas, uma inspiração pelo amor ao futebol e à vida diante da leucemia
Mihajlovic foi diagnosticado com leucemia em 2019 e desde então passava por tratamento, deixando como legado uma grande carreira no futebol e uma história tocante sobre como encarou a doença
Alguns dos momentos mais emocionantes do futebol europeu nas últimas temporadas aconteceram em Bolonha. Desde que Sinisa Mihajlovic foi diagnosticado com leucemia em julho de 2019, se empenhou em conciliar o trabalho como treinador do Bologna e o tratamento da doença. Era contagiante a paixão do técnico pelo futebol, bem como a relação criada com seus jogadores. Mesmo se ausentando do cotidiano do clube nas fases da quimioterapia, o sérvio seguiu ligado à equipe – era também uma maneira de enfrentar a doença. Recebeu serenatas dos atletas no hospital e sua presença à beira do campo enquanto se recuperava era emblemática. Porém, a leucemia voltou em março de 2022. Seria mais um período internado, quando até ganhou o prêmio de técnico do mês da Serie A pelos resultados do Bologna. Já no início da atual temporada, sem que o time engrenasse, deixou o cargo numa pesarosa demissão. E, depois de uma história tão marcante no futebol, que abarca também momentos inesquecíveis como jogador, Mihajlovic descansou. Nesta sexta-feira, aos 53 anos, o craque faleceu em decorrência da leucemia.Desde que deixou o Bologna, em setembro, Mihajlovic seguiu em tratamento. Estava internado em uma clínica na cidade de Roma, sem resistir à doença. “Sua esposa Arianna, seus filhos Viktorija, Virginia, Miroslav, Dusan e Nikolas, sua neta Violante, sua mãe Vikyorija e seu irmão Drazen, em dor, comunicam a morte injusta e prematura do exemplar marido, pai, filho e irmão Sinisa Mihajlovic. Homem único, profissional extraordinário, prestativo e bondoso com todos. Ele lutou bravamente contra uma doença terrível. Agradecemos aos doutores e enfermeiras que o acompanharam nesses anos. Sinisa sempre estará conosco e viverá através de todo o amor que nos deu”, anunciou a nota de pesar emitida pela família.
O jogadoraço de tanto sucesso
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Nos descaminhos do futebol, Mihajlovic “caiu para cima” em dezembro de 1990. O Estrela Vermelha gastou alto e contratou o jovem destaque para o seu time. Ganhou até carro e apartamento para assinar. Por lá, seria treinado outra vez por Ljupko Petrovic. O volante tomou conta da cabeça de área e, ao lado de outros tantos craques, viveria a maior glória de um clube iugoslavo naquela mesma temporada de 1990/91. Seria ele, afinal, um dos heróis na conquista da Champions.Mihajlovic atuava ainda no meio-campo, logo à frente da defesa, numa excepcional parceria com Vladimir Jugovic. Preparava o jogo para outros craques como Dejan Savicevic, Darko Pancev e Robert Prosinecki aparecerem mais à frente. A participação decisiva do jovem aconteceu na semifinal, no duelo de volta contra o Bayern de Munique. Anotou um gol de falta (sua grande especialidade) para abrir o placar e ainda participou do tento contra de Klaus Augenthaler, que possibilitou o empate por 2 a 2 nos instantes finais e garantiu os alvirrubros na histórica final. Já na decisão contra o Olympique de Marseille, converteria uma das cobranças na disputa por pênaltis, que confirmou a façanha dos balcânicos.Uma semana depois, outro episódio célebre aconteceu na final da Copa da Iugoslávia. O duelo entre Estrela Vermelha e Hajduk Split evidenciou o ódio que tomava conta do país. Igor Stimac se transformou no arqui-inimigo de Mihajlovic em campo. Entre provocações pesadíssimas, o croata declarou que “rezava para que a família do sérvio fosse assassinada”. Após tantas entradas duras e trocas de agressões, ambos foram expulsos no segundo tempo. O caso mais evidente de uma carreira cercada também por polêmicas. Além de sua habilidade, Mihajlovic era reconhecido por seu temperamento agressivo e por atitudes explosivas que o levaram a diferentes suspensões.
Mihajlovic permaneceu no Estrela Vermelha por mais uma temporada. Disputou a primeira edição do Campeonato Iugoslavo após a declaração de independência de Croácia e Eslovênia. Na busca pelo bicampeonato da Champions, os sérvios sequer puderam mandar os seus jogos no país em 1991/92. E a eclosão do conflito prejudicou principalmente a carreira do meio-campista na seleção. Convocado a partir de 1991, Mihajlovic perdeu a oportunidade de disputar a Eurocopa de 1992. O embargo internacional impediu que a Iugoslávia figurasse na fase final do torneio, mesmo classificada e já concentrada na Suécia. O craque também não permaneceria nos Bálcãs, assinando com a Roma para a temporada 1992/93. A partir de então, consolidou-se como uma enorme referência na Serie A.Na capital, Mihajlovic ganhou seu espaço logo na primeira temporada, sob as ordens do técnico Vujadin Boskov – não só sérvio como o reforço, mas ele próprio uma antiga lenda do Vojvodina. No entanto, a saída do comandante e a queda de desempenho atravancaram a carreira do novato com os giallorossi. Duas temporadas depois, ele arrumou as malas e se juntou à Sampdoria. Em Gênova, recuperou o seu melhor futebol. Se o desempenho dos blucerchiati não era o mesmo do início da década, o defensor ao menos virou um dos protagonistas da equipe. Acumulou quatro temporadas como um dos melhores jogadores dos genoveses, a partir de 1994/95. E foi como jogador da Samp que ele auxiliou a Iugoslávia na caminhada rumo à Copa do Mundo de 1998. Era o líbero do time que devastou a Hungria com 12 a 1 agregados na repescagem. Seria titular também nas quatro partidas da equipe no Mundial, anotando o gol da vitória contra o Irã.Após a Copa, Mihajlovic se mudou ao clube que mais marcou a sua carreira. Em tempos endinheirados da Lazio, o defensor foi uma parte importante do projeto do esquadrão laziale a partir de 1998/99. E não se nega a importância do sérvio na ascensão da nova potência da Serie A. Novamente sob as ordens de Sven-Göran Eriksson, que havia sido o seu comandante na Samp, o craque chegou ao seu melhor nível. Virou uma peça imprescindível e acumulou gols. Conquistou a Serie A, duas Copas da Itália, uma Recopa Europeia e uma Supercopa da Uefa. É um dos jogadores mais queridos, quando se pensa naquela era gloriosa dos biancocelesti – especialmente por suas virtudes, entre os lançamentos cirúrgicos e os chutes magistrais. O momento mais lembrado aconteceu logo em sua primeira temporada, anotando uma tripleta apenas em cobranças de falta nos 5 a 2 contra a Sampdoria./https%3A%2F%2Fmedia.trivela.com.br%2Fmain%2F2022%2F12%2Fsinisa-mihajlovic-of-lazio-scores.jpg)
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O técnico e seu exemplo nos últimos anos
Como técnico, Mihajlovic ainda permaneceria na Itália. Inclusive começou como assistente de Mancini na Internazionale. Depois treinou diferentes clubes do país, com uma curta passagem pelo Bologna, antes de dirigir Catania e Fiorentina. Também comandou a seleção da Sérvia por um breve período, de 2012 a 2013, sem conseguir a classificação para a Copa do Mundo. Teve bons momentos na Sampdoria, não deixou saudades no Milan e conseguiu resultados razoáveis no Torino. Isso até que reassumisse o Bologna em 2019, no principal trabalho de sua carreira à beira do campo – por simbolismo, mas também por longevidade, com 131 partidas no total e bons resultados para livrar os rossoblù dos riscos de queda.Essa última parte da história de Mihajlovic no futebol também trouxe um novo olhar para o sérvio. Ao longo de sua carreira, ele seria marcado por algumas declarações execráveis – como no episódio com Patrick Vieira em que ambos trocaram ofensas racistas, resolvido tempos depois e que rendeu até uma amizade entre os craques. Diante da descoberta da leucemia, o técnico do Bologna apresentou sua face mais humana e também a mais apaixonada pelo futebol.“Depois de alguns exames, descobri que estou com leucemia. Mal posso esperar para ir ao hospital e começar a luta. É um câncer agressivo, mas curável. Quando recebi a notícia, foi um verdadeiro golpe. Eu passei dias chorando, sua vida passa diante dos olhos. Mas essas lágrimas não eram de medo. Respeito a doença, vou encará-la com o peito estufado e olhando nos olhos, como sempre fiz”, declarou em julho de 2019, na coletiva em que anunciou que estava com leucemia. “Expliquei aos jogadores e, como é natural, chorei. Disse a eles que precisamos atacar e vencer. Se nos sentarmos e tentarmos defender, seremos vencidos. Tenho que usar minhas táticas nessa batalha e estou certo que vencerei. Infelizmente, não ganhei nada de graça na vida. Tive que lutar por tudo. E eu vou lutar por isso também”.
Mihajlovic também aproveitou sua fama para conscientizar mais pessoas sobre o autocuidado: “Aposto que vocês pensavam que eu era uma das últimas pessoas que poderiam ficar doentes. Eu treino, sou grande, sou forte, fiz exames e tudo estava normal. Eu treinei todos os dias até maio, viajei para todos os cantos, joguei futebol, fiz stand up paddle, não me senti cansado, não tive dor. Estava normal. Meu pai morreu de câncer, então faço exames regulares. Se não fizesse isso, não teria apresentado sintomas por um ano. Nenhum de nós deve pensar que somos indestrutíveis. Todos pensam que não acontecerá, mas, quando acontece, é um golpe. Sua única esperança é antecipar, porque se você descobrir depois de dois meses ou de um ano, isso faz uma grande diferença. Como uma pessoa famosa, posso transmitir isso. Espero que eu possa ajudar outras pessoas a tomarem mais cuidado, a se prepararem e a perceberem que isso pode acontecer com qualquer um. Eu estava perfeitamente saudável em todas as maneiras e agora estou aqui. Isso muda sua vida em um instante”.Depois de livrar o Bologna do rebaixamento em 2018/19, antes de descobrir a doença na pré-temporada, Mihajlovic ainda esteve à beira do campo no início da Serie A em 2019/20. Já tinha perdido os cabelos por causa do tratamento e estava mais magro, mas preferiu não se licenciar da função ou pedir demissão. Em outubro de 2019, ele passaria um tempo afastado para receber um transplante de medula óssea. Mesmo assim, continuou orientando os colegas de comissão técnica à distância e falando com os jogadores por vídeo. Deixou o hospital em dezembro de 2019 e o tratamento teve sucesso. Tanto é que continuou à frente do Bologna, mesmo com os riscos que a pandemia passou a representar a partir de março de 2020.O bom trabalho de Mihajlovic no Bologna seguiu em frente, com campanhas de meio de tabela na Serie A. Já em março de 2022, novos exames mostravam que sua recuperação sofreu uma recaída e a leucemia reaparecia. De novo, Mihajlovic se afastou e passou semanas internado para a quimioterapia. Enquanto isso, o time passou a emendar ótimos resultados em campo, que renderam a ele inclusive o prêmio de melhor técnico do mês de abril na liga. Logo ele estaria de volta à beira do campo, para encerrar o Campeonato Italiano. Todavia, o time caiu de rendimento em 2022/23 e o Bologna optou por mudar de técnico em setembro de 2022. Havia um claro sentimento de pesar no clube pelo lado humano, embora priorizassem a parte esportiva na decisão./https%3A%2F%2Fmedia.trivela.com.br%2Fmain%2F2022%2F03%2FMihajlovic-scaled-e1648318925477.jpg)