Leste Europeu
Tendência

Duas hegemonias se ampliam no leste europeu, com os pentas de Ferencváros na Hungria e Zenit na Rússia

Zenit e Ferencváros sobraram em suas respectivas ligas nacionais, com títulos que reafirmam as hegemonias recentes

O Leste Europeu viu duas hegemonias importantes se renovarem neste final de semana. Ferencváros e Zenit atravessam as sequências mais vitoriosas de suas histórias. No caso do Ferencváros, o penta no Campeonato Húngaro iguala um domínio que os alviverdes não experimentavam há 110 anos. Já para o Zenit, o penta no Campeonato Russo demarca o ápice dos celestes e os deixa a somente uma taça de igualar a maior marca da história do país. Foram conquistas com protagonistas brasileiros, aliás. A legião em São Petersburgo é enorme e fez a diferença no jogo do título, enquanto o atacante Marquinhos é uma das revelações em Budapeste. Abaixo, um resumão sobre as duas campanhas.

Campeonato Húngaro: Ferencváros pentacampeão

O Ferencváros é o maior campeão húngaro da história, com 34 troféus, 11 a mais que o MTK Budapeste. De qualquer maneira, a atual hegemonia dos alviverdes é especial. A última vez que o clube havia emendado um pentacampeonato nacional havia sido entre 1909 e 1913. Desde então, ocorreram momentos relevantes, mas não com tamanha supremacia na liga. Vale lembrar ainda que, neste século, o Ferencváros chegou a atravessar uma seca de 12 anos e passou pela segunda divisão até recuperar o título em 2016. O sucesso recente é alimentado não apenas pela inauguração do novo estádio e pela recuperação econômica, mas também pelas campanhas longas nos torneios europeus, que garantem mais dinheiro. Ainda falta bastante, porém, para alcançar o decacampeonato consecutivo do MTK a partir de 1914 – a maior sequência da histórica da liga.

É importante salientar que o crescimento do Ferencváros desde a última década está ligado aos corredores do poder. O partido Fidesz, do autoritário presidente Victor Orbán, tem vários representantes na diretoria dos alviverdes. Tanto o presidente Gábor Kubatov, à frente do clube desde 2011, quanto o vice Máté Kocsis são parlamentares pelo Fidesz. Em 2014, o clube teve apoio do poder público no financiamento de um moderno estádio e alavancou suas receitas, que permitiram a contratação de reforços estrangeiros.

Ao longo da atual temporada, o Ferencváros se manteve muito tranquilo no topo da tabela. O time assumiu a liderança na segunda rodada e não saiu mais. Ajudou bastante a excelente largada, com oito vitórias consecutivas, que garantiu uma gordura de dez pontos enquanto ninguém mais pegava embalo. É verdade que o time chegou a cair de ritmo neste início de 2023 e conquistou apenas duas vitórias nas primeiras dez rodadas realizadas no ano. Mesmo assim, no máximo, o Kecskemét reduziu para seis pontos a diferença em relação aos líderes. E os alviverdes se recuperaram nas semanas recentes, com quatro vitórias seguidas. Os 3 a 0 sobre o Kisvárda no domingo complementaram o título confirmado ainda no sábado, com três rodadas de antecedência e uma vantagem de 12 pontos na dianteira.

O treinador do Ferencváros é o russo Stanislav Cherchesov, que marcou a campanha da seleção de seu país na Copa de 2018. O veterano assumiu o cargo em dezembro de 2021 e se tornou responsável pelas duas últimas taças. Já nesta temporada, se não conseguiu levar o time para a Champions, com a queda nas preliminares diante do Qarabag, pelo menos fez bom papel na Liga Europa. Os alviverdes lideraram um grupo duríssimo contra Monaco, Estrela Vermelha e Trabzonspor, com a eliminação nas oitavas de final, diante do embalado Bayer Leverkusen. De qualquer maneira, Cherchesov deve ser cobrado para liderar os húngaros de volta à fase de grupos da Champions, com a última campanha em 2020/21.

Já dentro de campo, o Ferencváros repetiu a fórmula de apostar em jogadores europeus na defesa e africanos no ataque – com um tempero brasileiro. O grande destaque foi o atacante Adama Malouda Traoré, herói na façanha do Sheriff Tiraspol durante a Champions passada. O malinês anotou 11 gols e serviu nove assistências. Quem também continua muito bem no ataque é o marroquino Ryan Mmaee, artilheiro da equipe com 12 gols. Já o atacante Marquinhos, cria do Atlético Mineiro, fez sua primeira temporada como titular. O jovem de 23 anos ajudou bastante, com cinco gols e nove assistências. Algumas figuras da seleção da Hungria seguem com sua importância, como o goleiro Dénes Dibusz, o lateral Endre Botka e o meio-campista Bálint Vécsei. De qualquer maneira, a mistura dos alviverdes também reúne bons jogadores de outros países, como o volante bósnio Muhamed Besic, o meia norueguês Kristoffer Zachariassen, o zagueiro holandês Mats Knoester e o zagueiro marroquino Samy Mmaee.

Campeonato Russo: Zenit pentacampeão

O Campeonato Russo naturalmente teve menos visibilidade na atual temporada, com as consequências da guerra e a ausência dos times do país nas competições europeias. E o Zenit manteve ótimas condições para preservar sua hegemonia. Apesar dos embargos sofridos pela Gazprom, a companhia estatal de gás natural continuou despejando dinheiro nos celestes, agora para melhorar os contratos de jogadores que estariam propensos a sair. Assim, com os destaques mantidos, de novo o clube de São Petersburgo sobrou na tabela. É o quinto título consecutivo do Zenit, na maior sequência da história do clube. Agora só falta uma taça para igualar o recorde nacional, o hexa do Spartak Moscou entre 1996 e 2001.

O Zenit consolidou seu título muito rapidamente na atual temporada. A equipe permaneceu de forma ininterrupta na primeira colocação a partir da sexta rodada. Mais do que isso, os celestes não perderam um jogo sequer no primeiro turno, com 12 vitórias e três empates. Desta maneira, a folga na liderança já era de sete pontos. O segundo turno até guardou seus tropeços, com derrotas para Akhmat Grozny e CSKA Moscou, mas nada que colocasse em xeque a situação favorável. Com mais quatro rodadas pela frente, a vantagem chegou a 13 pontos neste final de semana. E o jogo do título foi exatamente um confronto direto contra o Spartak Moscou, um dos principais perseguidores, então na terceira colocação.

O Zenit ganhou por 3 a 2 em São Petersburgo, em duelo emocionante neste domingo. Claudinho abriu o placar ao bloquear um passe do goleiro e, depois do empate do Spartak, o meia também deu a assistência para Andrey Mostovoy retomar a vantagem antes do intervalo. Os moscovitas voltaram a igualar aos 40 do segundo tempo. Já aos 46, o gol do título saiu num passe rasteiro de Gustavo Mantuan para o desvio de Ivan Sergeev. Sete brasileiros estiveram em campo pelos celestes: Robert Renan, Rodrigão, Douglas Santos, Claudinho e Malcom foram titulares, com Mantuan e Wendel saindo do banco. Formam a espinha dorsal dos pentacampeões.

O comando do Zenit continua nas mãos de Sergey Semak, que assumiu o clube em 2018 e dirigiu o time ao longo de todo o pentacampeonato. Sem dúvidas, é uma das faces dessa conquista. Um dos méritos do treinador foi contornar as perdas desde o início da guerra, com jogadores que preferiram partir. A lista de saídas desta temporada inclui duas lideranças como Dejan Lovren e Artem Dzyuba, além de Sardar Azmoun, que havia rumado para o Bayer Leverkusen pouco antes da invasão da Ucrânia. Mesmo sem que Yuri Alberto ficasse, o técnico se valeu dos muitos brasileiros para levar o penta.

Malcom faz a melhor temporada da carreira, com 22 gols e nove assistências em 26 partidas. Lidera o ataque que conta com as ascensões de Andrey Mostovoy e Ivan Sergeev. Claudinho segue importante no meio, com cinco gols e dez assistências, onde Wendel também apareceu bem com seus oito gols. O volante Wilmar Barrios e o meia Daler Kuzyaev são importantes por ali. Já na defesa, enquanto Douglas Santos usa a braçadeira de capitão, Rodrigão e Robert Renan formaram a dupla principal na zaga. Robert Renan, aliás, não sentiu a responsabilidade de substituir Lovren e tomou a posição de titular ao voltar de seu ótimo Campeonato Sul-Americano Sub-20. A questão do Zenit é que o impacto desses brasileiros acaba restrito. Enquanto não acontecer o fim da guerra, uma transferência que os valorize em outro centro parece menos provável.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
Botão Voltar ao topo