Leste Europeu

Copa do Mundo é na Rússia

A Rússia sediará a Copa do Mundo de 2018. Pela primeira vez na história a competição acontecerá no leste europeu, e justamente na maior nação da região. A escolha foi surpreendente, já que, apesar do favoritismo inicial, a candidatura russa perdeu força nos últimos dias, e o anúncio do cancelamento da viagem de Vladimir Putin a Zurique, nesta semana, parecia o golpe final.

Não há questionamentos sobre a capacidade financeira do país, ainda mais com o forte apoio do Estado e a fonte bilionária vinda do petróleo e do gás natural (vide Gazprom). A proposta russa inclui a construção de 13 estádios, com investimentos de U$ 3,8 bilhões – fora outros U$ 2,2 bilhões no futebol no país e U$ 11,5 bilhões em infraestrutura nos próximos anos. Ao todo, serão 13 sedes e 16 estádios, sendo que o principal – e único cinco estrelas da Uefa – já está pronto: Luzhniki, em Moscou. Vale lembrar, também, que o país é o maior em território do planeta (17.075.200 km²).

As cidades propostas para receber os jogos são: Yekaterimburgo, Kaliningrado, Kazan, Krasnodar, Moscou, Nizhny Novgorod, Rostov-na-Donu, Samara, São Petersburgo, Saransk, Sochi, Volgogrado e Yaroslavl. Assim como no caso da candidatura brasileira para 2014, algumas serão cortadas – suponho que três ou cinco. Destas, sete não tem equipes na primeira divisão russa.

A Rússia não é uma nação tradicional como a Inglaterra, por exemplo, no futebol, mas seu povo ama o esporte. O passado como União Soviética garante respeito e conquistas ao futebol do país, além de grandes jogadores, como o maior goleiro de todos os tempos, Lev Yashin.

Recentemente o calendário dos campeonatos nacionais foi adequado ao modelo utilizado em toda Europa. A Premier Liga russa de 2010 foi a última que iniciou no primeiro semestre e terminou no segundo. A próxima temporada terá três turnos, para que se torne 2011/12. Depois, os 16 times da divisão de elite voltam ao modelo tradicional de turno e returno.

Financiados por grandes companhias – petrolíferas e de exploração de gás normalmente -, os clubes russos têm ganho cada vez mais projeção internacional. Os títulos da Copa Uefa de 2004/05 (CSKA Moscou) e 2007/08 (Zenit) são provas disso. Fora que, para o mercado brasileiro, a Rússia tem virado vilã, afinal, diversos jogadores brasileiros que se destacam vão para lá há alguns anos.

A seleção, aos poucos, tem recuperado seu papel de destaque também. A década de 1990 foi praticamente perdida, mesmo com uma classificação para uma Copa do Mundo – ainda resquícios do trabalho nos tempos da URSSS. Após isso, demorou muito tempo para a federação russa reencontrar o caminho. Entrou nos eixos com o técnico Guus Hiddink, que conseguiu unir o talento dos jogadores e fazer um bom time.

Hoje, o responsável por comandar atletas como Igor Akinfeev (goleiro, CSKA Moscou), Yuri Zhirkov (lateral/meia, Chelsea), Diniyar Bilyaletdinov (meia, Everton), Aleksandr Kerzhakov (atacante, Zenit), Pavek Pogrebnyak (atacante, Stuttgart), Roman Pavlyuchenko (atacante, Tottenham), além de jovens talentos como Alan Dzagoev (meia, CSKA) é Dick Advocaat, que, aliás, tem sido bastante contestado. Mas o talento russo já não é algo questionável. Infelizmente, o acidente diante da Eslovênia, nas eliminatórias europeias, mascarou esse progresso.

Saindo do campo e indo para os abstidores, nomes como Vitaly Mutko, atual ministro dos Esportes e ex-presidente da federação, Evgeni Giner, presidente do CSKA Moscou e um dos principais líderes do futebol na Rússia, Sergey Fursenko, presidente da federação russa (RFU), Vyacheslav Koloskov, ex-presidente da federação soviética e depois da russa de futebol, Aleksandr Dyukov, presidente do Zenit e com ligações com a Gazprom, passarão a ser mais comentados no noticiário esportivo mundial. Fora, é claro, Roman Abramovich.

Pouca gente sabe, mas Abramovich, mesmo presidente do Chelsea, segue colaborando financeiramente com a RFU. Ele é o responsável pela construção de um moderníssimo centro de treinamentos para a seleção nos arredores de Moscou. Era ele, também, que pagava os salários astronômicos de Hiddink.

Entre os pontos negativos que foram levantados sobre a candidatura russa, a principal questão sempre foi o transporte. O país é provido de poucos voos internacionais e a capacidade de seus aeroportos é fraquíssima, realmente. Ou seja, boa parte dos bilhões citados no segundo parágrafo será destinada a obras que melhorem a logística. E que fique claro: entre junho e agosto faz calor na Rússia (por favor, não imaginem que vá nevar lá nesse período).

É preciso citar também a questão do racismo. Lá existe assim como em qualquer outra nação do planeta. É uma doença que afeta idiotas em qualquer canto. Na Rússia, no entanto, há uma sensação um pouco mais forte em determinadas partes do país, como em São Peterbursburgo. Para pegar um exemplo concreto: a diretoria do Zenit admite que evita contratar jogadores negros, porque seus torcedores não aceitariam tal fato.

Outro ponto que merece atenção é o terrorismo de algumas regiões em relação a Moscou – o mais conhecido é da Chechênia. A Rússia, com suas dimensões continentais, inclui diversas etnias. A população, no entanto, é formada basicamente por russos (representam 79,8% – tártaros 3,8%, ucranianos 2%, bashkires 1,2%, chuvaches 1,1%, chechênios 0,9%, armênios 0,8% e muitos outros que juntos somam 10,4%). Isso gera minorias que buscam afirmação e, em alguns casos, independência.

O país é dividido, basicamente, em oblasts (que seriam os nossos estados), repúblicas autônomas, territórios autônomos e outras regiões conhecidas krais e okrugs. Todas, no entanto, estão legalmente ligadas a Moscou.

Além disso há o idioma russo, que para maior parte da população global é imcompreensível. O russo é baseado no alfabeto cirílico, e realmente é necessário muito estudo para sua compreensão. O inglês, na Rússia, já é bem difundido, principalmente entre as gerações mais novas, obviamente, dado o passado comunista. Apesar de, em muitos casos, ser praticamente impossível compreender o que estão falando.

Muitas pessoas, também, ainda ligam a Rússia à União Soviética de forma negativa. O país passou por uma transformação muito grande após a dissolução soviética. As seguidas privatizações, no início, geraram muitos dos bilionários que vemos hoje em dia torrando suas fortunas em clubes de futebol. Além disso, a máfia russa também ganhou força pós regime.

Mas a Rússia é uma nação em constante transformação e crescimento. A própria escolha da Fifa deixa isso bem claro: a busca por novos mercados.

Sobre a distância entre as cidades, praticamente todas estão na parte europeia da Rússia. Para quem não sabe, o país localiza-se tanto na Europa como na Ásia. Somente Yaketerimburgo fica mais à leste. Logo após o anúncio de Joseph Blatter, já vi muita gente no twitter, principalmente, falando os tradicionais clichês e absurdos como “vão mandar times para a Sibéria”. Pois a tão temida Sibéria é uma região gigantesca do país, onde também faz calor, mas, de qualquer modo, não estará representada neste Mundial.

Após tantas informações, vou deixar um pouco de opinião também. A quem não me conhece, sou o criador desta coluna e escrevo sobre futebol russo desde 2006. Além disso, tenho um respeito gigantesco pela história do país e sou um devorador da literatura russa. Mantenho contato diariamente com jornalistas russos e acompanho seu noticiário da mesma maneira. Ainda sou um iniciante no idioma russo, mas até 2018 certamente estarei fluente.

Foi uma vitória merecidíssima. A Rússia tem plenas condições de organizar um Mundial excelente, com estádios cheios e magníficos, grande infra-estrutura e apoio popular. Mas enfrentará, também, diversas questões éticas, que o Brasil também enfrenta. O uso de dinheiro público será absurdo, e a última crise mundial afetou fortemente a economia do país.

Milhões de pessoas, que haviam deixado a situação de pobreza, voltaram após o fechamento de fábricas e milhares de demissões. O país se recuperou rapidamente, mas ainda há muita gente precisando de ajuda do governo, principalmente nas regiões asiáticas bem a leste.

Portanto, a Copa do Mundo de 2018 precisa ser usada em prol do país, e não contra. E precisará, sem dúvida alguma, de muita fiscalização sobre os gastos.

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Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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