Leste Europeu

Conheça Gil Paulista, o brasileiro que foi ser técnico na Ucrânia

São muitos os jogadores brasileiros que se aventuram no futebol da Ucrânia, mas Gilmar Tadeu da Silva não é mais atleta. Aos 43 anos, ele se aventurou no Leste Europeu para trabalhar fora de campo, como técnico, sem saber falar uma palavra de russo ou ucraniano. Depois de três anos e meio, adaptado à vida no país, diz que só volta ao Brasil se a proposta for muito boa. Afirma que técnicos brasileiros estão atrasados e que falta disciplina aos jogadores brasileiros.

Gil, como ele é conhecido, está próximo de tirar a licença Uefa Pro de técnico, que permitirá que trabalhe em qualquer clube do continente. Mesmo com os problemas com racismo, o treinador valoriza a experiência – aprendeu a falar russo – e espera conseguir uma chance no duro futebol do Leste Europeu. A oportunidade de ir para a Ucrânia apareceu por causa da Copa do Mundo de 2010, na África do Sul, mas não da mesma forma que os jogadores que se destacam.

O início

Gil foi técnico da Academia Internacional de Futebol Projeto Bilu, na qual trabalhava desde 2009. Comandou um time de garotos sub-17 carentes em uma espécie de Copa do Mundo das ONGs na África do Sul. O time foi campeão. “Foi a única seleção brasileira que foi campeã na África do Sul”, brinca. Foi ali que Gil fez os contatos que o levariam à Ucrânia, seis meses depois.

O destino era o Metalurg Zaporizhzhya, pequeno clube da Ucrânia. Em janeiro de 2011, quando Gil chegou, o clube vinha mal e acabou rebaixado. O trabalho do brasileiro, porém, era bom. Entre janeiro de 2011 e junho de 2013, foi treinador das categorias de base e comandou jogadores de 8 a 16 anos. E foi mais uma vez em um torneio de base que seu trabalho chamou a atenção.

“Ganhamos um torneio sub-12 na Turquia, invictos”, conta. Assim, Gil, que já tinha passado do período de três meses de testes, recebeu um contrato para atuar no time principal como assistente técnico. Também recomendou o lateral esquerdo Eduard Sobol, então com 17 anos, para o time principal. “Quando o viram treinar, viram que eu tinha razão”, afirma Gil.

O jogador acabou se tornando importante. Na campanha do time na segunda divisão, tornou-se titular, mesmo ainda jovem. No último jogo da temporada, na definição do acesso, Sobol marcou um gol na vitória por 4 a 2 sobre o Gelios Kharkiv, e o time garantiu a volta à primeira divisão. Sobol defende as seleções de base ucranianas desde o sub-16,em 2010. Fez a estreia pela seleção sub-21 em 2012. Neste ano de 2013, foi comprado pelo Shakhtar Donetsk, um dos principais clubes do país. “Ele me chama de pai e ma agradece pela oportunidade”, conta, sorrindo, o treinador brasileiro.

Dificuldades no time principal
Gil ajuda os brasileiros que vão para a Ucrânia a se adaptarem
Gil ajuda os brasileiros que vão para a Ucrânia a se adaptarem

No futebol, são recorrentes as histórias de clubes que atrasam os pagamentos. O sonho do futebol europeu não é sempre realizado. A situação financeira de alguns clubes é crítica. O Metalurgh Zaporizhya ficou seis meses sem pagar salários. “Nós fazíamos caixinha para pagar alguns funcionários, alguns que ganhavam US$ 900”, conta.

O clube foi novamente muito mal no campeonato e as dificuldades fora de campo só pioraram. O Metalugh Zaporizhya acabou em último no Campeonato Ucraniano e foi novamente rebaixado em 2012/13, com apenas 11 pontos em 30 jogos disputados. Como um dos times que subiu de divisão não recebeu licença por problemas financeiros e uma das equipes da primeira divisão perdeu a licença pelos mesmos motivos, o clube de Gil continuou na primeira divisão. “Ucrânia não é Europa”, diz o técnico. “Shakhtar, Dynamo Kiev e Metalist são exceções. Os clubes estão em dificuldades”.

Relação com outros brasileiros

A Ucrânia pode ser um ambiente hostil para quem não está acostumado, então alguns jogadores já pediram a ajuda do técnico brasileiro quando chegaram lá. “Matheus e Giuliano [ambos do Dnipro], quando chegaram, me pediram ajuda para se adaptar”, lembra o treinador brasileiro. Não é por acaso, a relação do técnico com os jogadores é boa.

Gil conversa com Willian, ex-Shakhtar e atualmente no Chelsea, e tem grande contato também com Fernandinho, outro ex-Shakhtar e que está no Manchester City. “Ele tem uma capacidade física impressionante”, diz o técnico, elogiando o meio-campista. “Ele está em todos lugares do campo”. Outro que recebe elogios rasgados é Douglas Costa. “É o melhor jogador atuando na Ucrânia”, afirma. “É muito talentoso. Em um jogo contra o nosso time, uma vez, ele me disse ‘vou dar uma caneta no seu lateral’ e saiu rindo. E ele deu mesmo. É um jogador excelente e temos uma boa relação”, diz. “Ele recebeu uma proposta do Borussia Dortmund, mas o Shakhtar não aceitou”.

O bom relacionamento com jogadores do Shakhtar quase o levou para trabalhar na base do time de Donetsk, mas isso acabou não acontecendo. “Quem sabe no futuro”, projeta.

Poder nas mãos do treinador

Na Ucrânia, o treinador tem mais poder do que o brasileiro está acostumado. A herança militar do país traz algumas consequências que assustam. “Teve um técnico do Metalurgh que usou inclusive força física. Ele bateu mesmo na cara do jogador. É algo que a gente não vê no Brasil. Ele tinha um estilo militar, general”, explica. Se alguém achava ruim isso? “Não, eles achavam normal”.

Futuro

Gil ainda não pode ser treinador, por isso está estudando qual será o seu próximo passo. Ele continua como assistente da comissão técnica do treinador com quem trabalhou no Metalurgh Zaporizhya, Serhiy Zaytsev. O ucraniano foi convidado para ser técnico da seleção sub-20, mas não aceitou. O Volyn também chegou a fazer proposta, mas também não foi aceita. Por enquanto, Gil ficará trabalhando na Academia de futebol do Projeto Bilu e deve comandar uma excursão de garotos à Turquia, em fevereiro de 2014. No mesmo mês, ele terá suas provas para tirar a licença Uefa Pro, que o permitirá atuar como treinador principal em qualquer clube europeu. Ele pretende ficar no leste europeu, até para aproveitar o conhecimento de russo que tem, mas não descarta treinar também na Ásia.

O primeiro membro de comissão técnica negro na primeira divisão da Ucrânia espera ser também o primeiro técnico principal negro. Com a sua trajetória até aqui, como duvidar?

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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