Como time de vila com 700 habitantes tem encarado os grandes da Polônia de igual pra igual
O acesso à primeira divisão foi, por si só, incrível. Um ano e meio atrás, o Termalica, de Nieciecza, uma cidade com por volta de 700 habitantes a aproximadamente 100 quilômetros ao leste de Cracóvia, conquistou o direito de medir forças com clubes do tamanho de Legia Varsóvia, Wisla Cracóvia e Lech Poznan, e tem demonstrado que merece estar entre os grandes da Polônia. Recomeça o Campeonato Polonês, na próxima sexta-feira, como o quarto colocado, após 20 rodadas, a seis pontos do líder Jagiellonia Bialystok.
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O Termalica subiu com a velocidade de um torpedo pela pirâmide do futebol polonês até chegar à segunda divisão, em 2010. A transição para uma equipe capaz de chegar à elite demorou um pouco, mas, em 2015, com a ajuda do técnico Piotr Mandrysz, especialista em acessos, foi vice-campeão da Segundona e conseguiu a promoção. Mandrysz comandou o Termalica na estreia do clube na Ekstraklasa, com um aceitável 14º lugar na temporada regular e quinto no grupo do rebaixamento, evitando a queda.
Mas não foram resultados bons o bastante para o dono da equipe. O empresário Krzyztof Witkowski nasceu na vila de Nieciecza e decidiu financiar o clube local com o dinheiro que ganhou durante 30 anos com sua fábrica de materiais de construção, chamada Bruk-Bet, nome emprestado ao estádio local, cuja reforma foi bancada por ele para se adequar às normas da primeira divisão polonesa.
Quem toma as decisões no clube, no entanto, é a presidenta. Sua esposa Danuta ganhou a reputação entre jogadores e agentes de ser confiável e pagar salários em dia, o que nem sempre é uma regra no futebol polonês. O casal tem ótimas relações com a comunidade e um histórico de filantropia, como mostra esta reportagem do Guardian sobre o Termalica. Construíram uma nova escola quando a da cidade teve que ser fechada por falta de verbas. O estádio conta com uma moderníssima sala de cinema.
É com base essa confiança em Danuta que o Termalica consegue atrair jogadores para atuar em uma cidade com poucos atrativos. O elenco conta com sete eslovacos, com destaque para o meia Patrik Misak, vice-artilheiro do time no torneio, com quatro gols. O maior marcador é o lituano Vladislav Gutkovskis, com seis. A lateral-esquerda é responsabilidade de um brasileiro, Guilherme, ex-Caxias.
Como pode se notar, não se trata de um time muito ofensivo. O Termalica marcou 24 gols em 20 rodadas e tem o quarto pior ataque entre os 16 participantes da Ekstraklasa, ao lado do Arka Gdynia. Mas a defesa é a sexta mais sólida da liga, graças à forte parte tática comandada pelo treinador Czeslaw Michniewicz, conhecido como o “Mourinho polonês”. Michniewicz venceu duas vezes a Copa da Polônia e foi campeão nacional com o Zaglebie Lubin, em 2007, o que não foi um feito pequeno, considerando se tratar apenas do segundo título polonês do clube na história.
O Mourinho polonês, que substituiu Mandrysz no começo da temporada, conta com a ajuda de um analista chamado Kamil Potrykus, que passa detalhados relatórios sobre os adversários para Michniewicz e grava os treinamentos com drones para fornecer vídeos para os jogadores analisarem em casa. Durante a intertemporada na Turquia, também usou GPS para monitorar o posicionamento dos atletas. São instrumentos muito comuns em grandes clubes, mas não em equipes pequenas ou médias da Polônia.
O Termalica não saiu gastando na janela de inverno para garantir uma boa campanha. Michniewciz decidiu apostar na coesão do grupo que já conseguiu ótimos resultados, como vencer o Legia Varsóvia e Lechia Gdanks, segundo colocado, e empatar com Lech Poznan e o líder Jagiellonia Byalystok. Uma aposta até certo ponto arriscada porque os resultados anteriores à pausa de inverno foram ruins: três vitórias, cinco derrotas e um empate nas últimas nove rodadas do Campeonato Polonês.
Também por isso, Michniewciz não se empolga e afirma que o objetivo da temporada só será alcançado quando o Termalica tiver chegado aos 45 pontos. “Eu quero que a equipe continue funcionando até junho, alcançado a maior pontuação possível, e vamos ver o que foi bom e o que foi ruim”, afirmou, em entrevista ao Przeglad Sportowy. “Há vários exemplos de equipes que tiveram dificuldades para manter uma posição assim. Nós temos um começo muito difícil de primavera, quando jogamos contra Lechia, Lech e Legia. As partidas iniciais são de incrível importância”.
Os 45 pontos pretendidos pelo técnico seriam suficientes para classificar o Termalica à fase final da Ekstraklasa, em que as oito melhores equipes disputam um grupo especial valendo o título, em todas as três temporadas recentes que tiveram essa regra. E, mantendo a pegada, por que não sonhar com uma vaga em competições europeias? O pequeno clube, afinal, já foi muito mais longe do que se esperava.