Leste Europeu

Bicampeão polonês e time do lendário Lato, o Stal Mielec volta à primeira divisão após 24 anos

Quando a Polônia estava nas cabeças do futebol mundial, o Stal Mielec aparecia entre os principais clubes do país. E uma mesma carequinha reluzente unia as duas histórias: Grzegorz Lato, um dos maiores jogadores do futebol polonês em todos os tempos, vestia a camisa do clube. O atacante transformou as dimensões da equipe de uma cidade pequena e a colocou no topo do país. O Stal Mielec, duas vezes campeão nacional, teria outros jogadores com nível de seleção e ainda traria o igualmente aclamado Andrzej Szarmach, mas aquela bonança não duraria muito além. Mesmo com outras campanhas na elite após a saída dos craques nos anos 1980, o Stal não disputava o Campeonato Polonês desde 1996. Chegou a ser refundado e, depois recomeçar na quinta divisão, retorna ao primeiro nível graças ao acesso selado nesta sexta-feira.

Fomentado pela forte indústria aeronáutica na região, o Stal Mielec tinha pouca representatividade no futebol polonês. Chegou a disputar a primeira divisão nos anos 1960, mas pouco depois caiu à terceirona. E deu sorte pelo fato de Lato crescer na cidade, graças ao trabalho de seu pai na aviação. A transformação dos alviazuis começou quando o prodígio chegou ao time principal, ainda na segunda divisão. O atacante seria responsável pelo acesso e por manter o clube no primeiro nível, cada vez melhorando seu desempenho. O primeiro título da agremiação veio em 1973, na terceira temporada consecutiva na elite. Lato foi o artilheiro da liga.

Quando a Polônia se classificou à Copa do Mundo de 1974, o Stal Mielec marcaria presença no elenco. Três jogadores do clube disputaram o Mundial: além de Lato, também o meio-campista Henryk Kasperczak e o atacante Jan Domarski – este, autor do gol no famoso empate contra a Inglaterra em Wembley, que valeu a vaga no torneio. Lato, de qualquer maneira, roubaria a cena na Alemanha Ocidental. O camisa 16 foi artilheiro do torneio e conduziu a campanha polonesa até a terceira colocação.

Em tempos nos quais a Polônia não permitia que seus melhores jogadores saíssem do país antes dos 30 anos, Lato não pôde aproveitar a repercussão na Copa para buscar um novo clube. Melhor ao Stal Mielec, que seguiu desfrutando do craque. Depois do vice em 1975, o título no Campeonato Polonês se repetiu em 1976. Lato fez 14 gols, numa conquista apertada, só garantida no saldo de gols. Aquela temporada ainda seria marcante pela campanha até as quartas de final na Copa da Uefa, com a eliminação diante do Hamburgo. O Stal só não dava sorte na Champions: eliminado na primeira fase em 1973/74 para o Estrela Vermelha, cairia logo cedo ante o Real Madrid em 1976/77.

Outro craque da seleção, Szarmach chegou ao Stal Mielec em 1976, trazido do Górnik Zabrze. Mas a reunião dos companheiros da equipe nacional não gerou novos títulos aos alviazuis, que não passaram da terceira colocação nas campanhas seguintes. Em 1978, eram quatro os representantes da agremiação na Copa do Mundo: Kasperczak, Szarmach e Lato, além do goleiro Zygmunt Kukla. O desmanche começou a partir de então. Kasperczak assinou com o Metz em 1978, depois do Mundial. Lato e Szarmach saíram em 1980, para Lokeren e Auxerre, respectivamente.

O Stal Mielec sentiria o baque com a perda de seus principais jogadores. Até chegaram a um honroso terceiro lugar em 1981/82, num time liderado por Wlodzimierz Ciolek (único representante do clube na Copa de 1982), mas caíram à segundona duas temporadas depois. O time seguiu nessa gangorra até o final da década de 1980. Depois, emendaria oito participações consecutivas na elite, quase sempre brigando para não cair. Até que o rebaixamento em 1995/96 marcasse o declínio completo da agremiação: com sérios problemas financeiros, os alviazuis figuraram na segunda divisão durante a campanha seguinte, mas faliriam e teriam que recomeçar sua trajetória na quinta divisão do Campeonato Polonês. O fim do regime comunista e a reestruturação econômica explicavam a bancarrota.

A reconstrução do Stal Mielec foi vagarosa. Refundado, o clube passou uma temporada inativo. Até conquistou o acesso imediato à quarta divisão quando retomou as atividades, mas ficou por lá durante longos 14 anos. A promoção à terceirona se deu em 2013 e só então os processos se aceleraram. Foram três temporadas até comemorarem a subida à segunda divisão e, melhorando pouco a pouco, ficaram mais quatro anos até completarem o retorno à elite. Apesar da paralisação da liga por causa da pandemia, o time voltou bem à segundona polonesa nesta retomada em junho e emendou vitórias até comemorar o acesso, com a segunda colocação na tabela.

O mais interessante é que o Stal Mielec não sofreu nenhum rebaixamento desde 1996. Nem sempre pegou embalo, mas teve um crescimento sustentável e chegou até mesmo a reformar seu estádio para oferecer uma melhor estrutura à torcida. A reaparição na primeira divisão se transforma no ápice da caminhada e recobra o passado imponente dos alviazuis. Manter-se na elite por mais alguns anos e, quem sabe, descobrir um novo Lato, já seria um sonho e tanto para a torcida que precisou perseverar nestas mais de duas décadas.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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