Até que ponto o conflito na Ucrânia deixa o futuro do Shakhtar em xeque?

O enredo é comum no futebol do Leste Europeu. Não foram poucos os esquadrões da região que se desmancharam por culpa de guerras. O Estrela Vermelha de ampliar seu domínio na Liga dos Campeões. E o filme volta a se repetir, desta vez na Ucrânia. Não dá para dizer que o Shakhtar Donetsk foi tão brilhante quanto os exemplos citados acima. Mas, ainda assim, a grande potência do leste da Europa neste início de século. Agora, corre o risco de se desmanchar por conta do conflito civil no país.
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A situação não era boa na Ucrânia desde a temporada passada. A liga nacional teve o seu segundo turno atrasado e vários jogos de portões fechados a partir do momento em que as turbulências no país se intensificaram. Uma briga entre ultras, motivada por questões políticas, desencadeou a morte de 40 pessoas em Odessa. E o próprio título do Shakhtar acabou ofuscado pelas manifestações nas ruas de Donetsk em prol da independência da região.
Desde os primeiros meses do ano, alguns jogadores do clube já cogitavam a fuga do país caso os conflitos se tornassem mais intensos – algo que a embaixada brasileira tinha planejado e avisado os atletas nascidos no país. Os depoimentos dos brasileiros é que já não dava muito para sair às ruas. E a queda do avião da Maylasian Airlines foi o estopim para que parte do elenco se recusasse a voltar para a Ucrânia.
Após amistoso contra o Lyon, seis jogadores preferiram permanecer na França, cinco deles brasileiros: Dentinho, Fred, Alex Teixeira, Douglas Costa e Ismaily, além do argentino Facundo Ferreyra. Segundo a matéria do Terra, os atletas chegaram a avisar amigos sobre a decisão. “Estamos com muito medo. Agora a situação pegou de vez”, foi uma das mensagens. E outros clubes lidam com a mesma questão. Sebastian Blanco, do Metalist Kharkiv, também garantiu que não se reapresentará ao clube enquanto a situação permanecer assim.
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Historicamente, Donetsk não era considerada uma das cidades ucranianas mais seguras. A região industrial sempre foi marcada pelo domínio das máfias. E a própria revolução que viveu o Shakhtar teve início a partir de um atentado. Em 1995, a explosão de uma bomba no antigo estádio do clube matou o presidente Akhat Bragin (em ação ligada às gangues da cidade) e possibilitou a ascensão do magnata Rinat Akhmetov. A partir dos altos investimentos do empresário, o clube passou a dominar o cenário nacional e se tornou um clube relevante também nas competições europeias – campeão da Liga Europa e quadrifinalista da Champions.
O conflito entre o governo ucraniano e rebeldes pró-Rússia em Donetsk já vinha atrapalhando o ambiente no clube, com a eliminação precoce nas eliminatórias da Liga Europa. No entanto, o problema agora é muito maior, especialmente se os seis jogadores não se reintegrarem ao elenco de Mircea Lucescu. Na última temporada, Alex Teixeira e Douglas Costa estiveram entre os melhores do time, enquanto Fred teve um bom ano de estreia. Podem ser perdas consideráveis.
Com guerra ou não, o poder de mercado do Shakhtar segue intacto. A questão maior será a capacidade do clube em contratar jogadores, assim como manter suas estrelas. No último ano, Mircea Lucescu já havia passado por um processo delicado de reestruturação, especialmente depois das vendas de Fernandinho, Mkhitaryan e Willian. Na atual janela de transferências, três reforços foram anunciados, todos vindos da própria liga local – incluindo Marlos. Difícil vai ser atrair jogadores de fora, que não têm ideia do ambiente do país.
Se o meio-campo e o ataque cheios de brasileiros foram a fórmula do sucesso do Shakhtar na última década, o clube talvez precise repensar seu modelo se quiser ir além do pentacampeonato atual. No cenário doméstico, a força continua, embora na última temporada o clube já tenha dado brechas demais aos rivais. Na Europa, contudo, vai ser difícil imaginar campanhas tão boas quanto a alcançadas nos últimos anos. O período de baixas na Donbass Arena é iminente.


