Leste Europeu

As aventuras de Gullit

Nesta semana, o Terek Grozny, equipe que há três anos está na primeira divisão russa e é mais conhecida por ser da Chechênia do que por qualquer outro motivo, anunciou a contratação de Ruud Gullit para o cargo de treinador. Logo de cara, o anúncio causou um impacto muito grande. Afinal, o que Gullit acha que vai conseguir fazer com o Terek? Ele conhece bem o clube? Sabe onde está se enfiando? A resposta para todas essas perguntas é provavelmente “não”, e a passagem do holandês pela Premier Liga russa está fadada ao fracasso.

A começar pelo histórico do time. O Terek Grozny lutou contra o rebaixamento na última tempotada até as últimas rodadas. Sob o comando de Anatoly Baidachny, ex-treinador de Belarus, a equipe se salvou. Logo após o término da competição ele foi demitido e substituído pelo espanhol Victor Muñoz. Este não durou um mês no cargo, cedendo-o para Gullit.

Por trás dessas mudanças está Ramzan Kadyrov, presidente do clube e… da Chechênia. Kadyrov é um ex-rebelde checheno, que seguiu para o campo da política e do esporte. Tem diversas acusações de abusos contra os direitos humanos e já escapou de uma tentativa de assassinato. Chegou ao cargo indicado por Vladimir Putin e carrega consigo um discurso nacionalista soviético. Defende o estado russo.

Aos poucos, Kadyrov tem investido no Terek para fortalecer a imagem da região, mas os recursos são poucos para a formação de um grande time. Assim, Gullit não terá em mãos uma equipe para brigar, no mínimo, pelas vagas às competições europeias. Nem ao menos ganhou reforços em relação ao time da última temporada. Também não terá tranquilidade para trabalhar, já que a pressão da diretoria por resultados será grande. Ao que parece, servirá apenas como um pavão para toda Europa. Uma forma de todos olharem para o Terek Grozny, para Grozny, para a Chechênia.

Além disso, a experiência com treinadores estrangeiros trabalhando na Rússia e escolhidos no modo random não é boa. Exemplos: Zico e Juande Ramos no CSKA Moscou (2009), Nevio Scala e Michael Laudrup no Spartak Moscou (2004 e 2009) e Ivo Wortman no Dynamo Moscou (2005).

Todos chegaram sem o mínimo conhecimento sobre os jogadores locais, as rivalidades entre os times, o comportamento da torcida, o relacionamento com a imprensa russa, a adversidade do frio, enfim, nada ou pouco sabiam. Quiseram impor rotinas diferentes de treino, novas mentalidades à força. Não sou contra esse tipo de intercâmbio, mas é preciso calma para realizar uma transição. E, principalmente, conhecer muito bem as referências locais. O futebol russo tem suas peculiaridades.

Obviamente existem bons exemplos, como Dick Advocaat e Luciano Spaletti no Zenit São Petersburgo. Exemplos facilmente explicáveis: foram contratados pelo time mais rico do país, com carta branca para trazer jogadores de fora. Trabalharam com elencos “europeus”, o que facilitou a adaptação. Situação muito diferente pela qual passará Ruud Gullit.

Exceções também podem acontecer com treinadores extremamente talentosos e com currículo invejável, o que não é o caso do famoso holandês. E mesmo assim, a adaptação não se torna mais fácil.

Posto tudo isso, e concluindo, acho que Ruud Gullit terá vida curta na Rússia. O ex-treinador de Chelsea, Newcastle, seleção sub-21 da Holanda, Feyenoord e Los Angeles Galaxy chega, claro, com um salário que não será pequeno. Acho que ele deve ter pego algumas dicas com Guus Hiddink, seu compatriota e ex-treinador da Rússia. Na verdade, acho que Hiddink tivesse dado algum conselho este seria: “Não caia nessa”.

Reviravolta no Amkar

Algumas semanas após anunciar a desistência em disputar a primeira divisão russa por causa de problemas financeiro, o Amkar Perm deu uma reviravolta na história e mudou sua decisão. O clube conseguiu um novo patrocinador e agora quer jogar na Premier Liga. A mudança de opinião, porém, pode não ser suficiente, uma vez que a federação russa (RFU) ainda não se manifestou sobre o assunto.

A companhia petroquímica Sibur, gigante do ramo no Leste Europeu, deve injetar cerca de US$ 20 milhões no Amkar para saldar as dívidas e investir no time. No final do ano passado, a equipe havia anunciado que não teria condições de jogar a Premier Liga, por causa de dívidas de aproximadamente US$ 5,4 milhões.

Até o final do mês tudo será decidido pela RFU. Já o Saturn, que anunciara antes sua desistência, ainda não conseguiu qualquer salvador e deve mesmo ficar de fora do Russão. Com isso, apenas o Nizhny Novgorod – que já confirmou ter condições (entenda por $$$) de jogar na primeira divisão – deve ser puxado da segunda divisão na vaga extra.

Apenas lembrando, na última temporada, o Moskva passou pelo mesmo problema e foi extinto, cedendo sua vaga na divisão de elite ao Alania Vladikavkaz, que acabou rebaixado. Outro clube que atravessou pelo mesmo problema foi o Tom Tomsk que, após pedidos de Putin, foi salvo da falência por diversas companhias estatais de extração de óleo e gás.

Já o tradicional Torpedo Moscou não foi ajudado e há duas temporadas foi rebaixado para a quarta divisão (amadora). Aos poucos escala seu retorno à elite.

E a partir da próxima temporada, o Campeonato Russo seguirá o calendário outono/inverno, ou seja, começará em um ano (março de 2011), terminará no seguinte (junho de 2012) e terá três turnos.

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Equipe Trivela

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