Anzhi? Sim, Anzhi

Já está virando rotina. A cada semana um clube russo ou ucraniano, relativamente desconhecido por aqui, vem ao Brasil e leva algum jogador. Daí surge a pergunta: Anzhi o quê? Anzhi Makhachkala. Esse é o nome do time que tirou Roberto Carlos do Corinthians. Ou melhor, fez o favor que o jogador queria.
O Anzhi foi fundado em 1991, no último ano da União Soviética. Nos seus cinco primeiros anos de história, participou da nova terceira divisão russa, criada após o colapso da URSS. Em 1997 disputou pela primeira vez a segunda divisão e ficou com o título 1999. Na temporada seguinte, estreando na Premier Liga, conquistou um excelente quarto lugar.
Isso lhe garantiu participar da Copa Uefa em 2001/02, mas por causa dos conflitos na região do Daguestão (sobre a geografia, falarei mais abaixo), teve a disputa com o Rangers resumida a um único jogo, em campo neutro (Varsóvia), com vitória escocesa por 1 a 0. Durou na primeira divisão russa até 2002, quando caiu novamente e garantiu o retorno ao vencer novamente a segundona em 2009.
Na última temporada, foi discreto na Premier Liga. Terminou o ano apenas na 11ª posição, tendo lutado contra o rebaixamento até o final. A sorte do clube começou a mudar no início do ano, quando foi comprado pelo bilionário russo Suleyman Kerimov.
Com uma fortuna estimada em US$ 5,5 bilhões, ocupa a 136ª colocação no ranking da Forbes de homens mais ricos do mundo. Nascido no Daguestão, Kerimov é um empresário do ramo do petróleo, mineração e siderurgia (principais fontes de renda da região) e político desde 1999, quando assumiu um posto na Duma, o parlamento russo – nesse período também foi investidor da Gazprom. Em 2008 foi eleito para o Conselho Federal do país, equivalente ao Senado brasileiro, e estreitou seus laços com o governo de Vladimir Putin. Atualmente, faz parte também do Comitê de Mercado e Monetário do país – ele também ostenta um lado social, colaborando com diversas entidades sociais, principalmente após quase morrer em um acidente de carro em 2006, em Nice, na França.
Em 18 de janeiro deste ano, o empresário e político adquiriu oficialmente o Anzhi. Passou, então, a investir pesadamente na pequena equipe de sua república. Desde então muitos jogadores já deixaram o clube e alguns estão chegando. Além de Roberto Carlos, ele contratou o zagueiro brasileiro João Carlos, do Genk (BEL), e o lateral camaronês Benoît Angbwa, que deixou o falido Saturn, entre outros. Os dois últimos citados custam pouco ao Anzhi, já Roberto Carlos…
O lateral brasileiro deve receber algo em torno de € 8 milhões a € 10 milhões por um contrato de dois anos e meio – próximas duas temporadas russas: a primeira de transição para o calendário europeu, um ano e meio, e a segunda já acertada com o resto da Europa.
Pouca gente, porém, deu a devida importância a um detalhe do acordo: em seis meses, qualquer uma das partes pode romper o vínculo amigavelmente e sem multa. E Kerimov já prometeu, também, a chegada de mais umn grande jogador, oriundo de muito investimento. E esse pode ser Jucilei, realmente, pela bagatela de € 11 milhões.
Todos serão treinados pelo experiente Gadzhi Gadzhiev, no clube desde o ano passado, de 65 anos, que foi assistente da seleção soviética na conquista do ouro olímpico em Seul/1988, justamente sobre o Brasil na decisão. Trabalhou até 1999, também, nas comissões técnicas da seleção russa, até passar a rodar por clubes pequenos da Rússia e até mesmo uma experiência no futebol japonês.
Minha opinião sobre a transferência do(s) brasileiro(s) é que ele(s) estão se enfiando em uma grande roubada. Não fazem ideia para onde vão, e serão apenas figurantes na competição. Roberto Carlos disse que dinheiro não é o principal motivo que o levou até lá. Então qual é? Ele ao menos não disse. E Jucilei tem mercado para ir, no mínimo, para um grande da Rússia.
Além disso, chegou a hora de explicar o aspecto geopolítico da região. Algo que também precisa ser analisado.
O Daguestão é uma das tantas repúblicas que fazem parte da Rússsia, assim como os oblasts, krais e regiões autônomas, localizada no norte do Cáucaso. Possui uma população de aproximadamente 2,5 milhões e é a região com maior diversidade étnica da Rússia. Os caucasianos (principalmente das etnias Avar, Dargin, Kumyk e Lezgin) formam a maior parte, constituindo 75%, enquanto os russos representam apenas 5%. A religião predominante é o islamismo, seguida por 90% do povo daguestanês. Os demais 10% são cristãos.
O russo é a língua oficial, mas a região possui cerca de 30 outras faladas. Essa origem diversa é muito devido a sua topografia, que manteve as tribos e cidades incomunicáveis entre elas. O Daguestão passou a fazer parte do império russo em 1831, conquistado na guerra com a Pérsia. O clima, ao menos, é bem mais ameno do que em outras partes do território russo.
A região faz fronteira internacional com Azerbaijão e Geórgia ao sul, é banhada pelo Mar Cáspio a leste e na Rússia compartilha terras com a República Kalmykia (norte), Stavropol Krai (nordeste) e a República da Chechênia (oeste).
Com tanta diversidade, os conflitos, infelizmente no mundo atual, são inevitáveis – e o norte do Cáucaso é a mais problemática área da Rússia. A situação no Daguestão não se compara à da vizinha Chechênia, mas há um movimento de guerrilha na região. Este é liderado por muçulmanos radicais, também com apoio de chechenos, para formar uma república daguestã islâmica. Desde 2000 esse movimento tem se tornado mais violentos, com diversos atentados, inclusive na capital Makhachkala.
A cidade, aliás, será onde Roberto Carlos irá morar, e é sede do Parlamento do Daguestão. O atual presidente da república, Magomedsalam Magomedov, é, também, o presidente do Anzhi, recebendo ordens de Kerimov. Seu pai, Magomedali Magomedov, era o chefe de estado do Daguestão, até o posto de presidente ser criado em 2006.
Makhachkala, aliás, tem alguns aspectos um pouco diferentes do restante da república. A cidade, com quase 500 mil habitantes, possui mais russos (20%) e boa infra-estrutura logística (rodovias federais ligam ela a Moscou e Baku, capital do Azerbaijão, além de um aeroporto com voos regionais). A temperatura é amena, ficando em torno de 0°C em janeiro e 25°C em julho. É sede, também do Porto de Petrovsk, principal da região.
Por fim, e voltando para o futebol, Roberto Carlos atuará pela lateral-esquerda do estádio Dynamo, inaugurado em 1927, com capacidade para 16 mil pessos e classificado como “3 estrelas” pela Uefa. O gramado é grande, 105×68. Até quando RC correrá por lá é que não dá para saber.
Liga dos Campeões e Liga Europa
Dentre os representantes russos e ucranianos na Liga dos Campeões e na Liga Europa, sem dúvida o Shakhtar Donetsk é quem brilha mais na temporada.
Na última quarta-feira, na Itália, bateu a Roma por 3 a 2 pelo jogo de ida das oitavas de final da LC. Mais uma vez, contou com grande atuação de seu quarteto ofensivo brasileiro titular – Jádson, Willian, Douglas Costa e Luiz Adriano. Muita gente já dá a partida da volta como favas contadas. Muita calma nessa hora…
O Shakhtar é estreante em oitavas de LC, enquanto a Roma é um dos times mais tradicionais do Velho Continente. Pelo futebol jogado atualmente, os ucranianos devem avançar. Mas prudência e caldo de galinha não fazem mal a ninguém.
Partindo para a Liga Europa, sob o rigoroso inverno do Leste Europeu, comecemos pelas decepções previsíveis. O Rubin Kazan, após o fiasco protagonizado na Liga dos Campeões, seguiu com o vexame na LE. Em Moscou, no estádio Luzhniki – o frio fez com que a partida acontecesse na capital, algo que estava decidido há tempos – foi batido pelo Twente por 2 a 0. Time apático, sem iniciativa e que merece ficar de fora.
Na Ucrânia, em Kharkiv, o Metalist foi goleado pelo Bayer Leverkusen por 4 a 0. Resultado até certo ponto normal, dada a diferença técnica entre as equipes. Cleiton Xavier e Taison não são suficientes para transformar o time ucraniano em uma potência europeia – nem no país. O que assustou foi a fragilidade defensiva do Metalist nos últimos minutos, quando os alemães mataram, de vez, o confronto.
Antes de partir para quem foi muito bem na LE, fiquemos com um intermediário: na Suíça, o Zenit São Petersburgo perdeu para o Young Boys por 2 a 1, de virada. Foi-se, também, o aproveitamento de 100% da equipe, no entanto, uma vitória simples na Rússia garante a classificação, que é bem provável.
Agora os ótimos resultados: Besiktas 1×4 Dynamo Kiev, Basel 2×3 Spartak Moscou e PAOK 0x1 CSKA Moscou.
O Dynamo teve uma atuação espetacular e conquistou, sem dúvida, o melhor resultado entre os ucranianos e russos. Fora de casa, golear o Besiktas por 4 a 1 é uma tarefa para poucos. Está praticamente garantido nas oitavas de final.
Assim como Spartak Moscou e CSKA, que venceram longe de seus domínios também. Destaque para a raça do Spartak em buscar o resultado até o final, que veio com o gol do promissor Jano Ananidze, e no CSKA a estrela de Tomás Necid, que fez seu sexto gol na competição.


