Serie A

Cristiano Ronaldo engrandeceu sua lista de feitos na Juventus, mas não a ponto de transformar o clube como se apostava

O sonho da Champions League não se cumpriu e a Juventus abusou dos erros, embora Ronaldo tenha entregado muitos gols

Cristiano Ronaldo foi anunciado como novo jogador do Manchester United e encerra o ciclo de três temporadas na Juventus de uma maneira agridoce. Não se ignora que o craque viveu grandes momentos na Serie A e ampliou a lista de feitos de quem se reivindica entre os maiores da história. Quebrou recordes, conquistou títulos, liderou a artilharia. Quando se analisar a carreira de CR7, a Itália será mais um território conquistado pela lenda. Porém, o camisa 7 se despede da Velha Senhora menor do que as expectativas que se criaram em sua chegada. O jejum do clube na Champions League permanece, a dinastia na Serie A se rompeu, a equipe perdeu forças com o tempo. A ideia de transformar a Juve a partir de Ronaldo não se cumpriu. O português ainda foi gigante em Turim, mas não a ponto de agigantar mais os bianconeri e, assim, se gravar definitivamente como uma lenda bianconera.

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A história de Cristiano Ronaldo é tão fabulosa porque ele conseguiu causar impactos profundos e históricos em dois clubes titânicos, na Inglaterra e na Espanha. O Manchester United colecionava títulos com Sir Alex Ferguson, mas CR7 conseguiu se tornar a joia da coroa quando renovou o poderio de um esquadrão, pronto para se tornar tricampeão da Premier League e interromper um hiato de nove anos sem levar a Champions. Como protagonista, o camisa 7 serviu de fio condutor na renovação de uma trajetória vitoriosa dos Red Devils.

No Real Madrid, então, o peso de Cristiano Ronaldo conseguiu ser ainda maior. Chegou como maior contratação da história e fez jus aos devaneios galácticos, quando muito se sonhava e pouco de fato acontecia no Estádio Santiago Bernabéu. Ainda levou um tempo para que o processo desabrochasse, com a competição de outro gênio em campo e de outro timaço memorável. Todavia, CR7 elevou a competitividade dos merengues e possibilitou que o clube se tornasse novamente naquele temível monstro das copas europeias. Foram quatro taças continentais, recordes e mais recordes, a certeza de que um dos maiores da história estava ali. Tanto é que os madridistas penam para se recompor até hoje.

Cristiano Ronaldo comemora seu gol pela Juventus (Getty Images)

A Juventus parecia renovar os desafios de Cristiano Ronaldo. Chegava num clube igualmente titânico e em meio a uma série de conquistas fabulosa, mas numa trajetória que ainda faltava o passo além. Se a Serie A não saciava mais, CR7 se sugeria como o atalho para que a Velha Senhora levasse sua primeira Champions desde 1996. Faltava ter consciência de que, além do craque, era preciso também contar com o time. E o castelo de cartas juventino foi se desmanchando, por mais que o “rei de copas” estivesse presente em campo.

Diferentemente do que aconteceu em Manchester United e Real Madrid, a Juve não se transformou com Ronaldo. O patamar não se elevou em relação aos anos anteriores. Pelo contrário, a equipe se sugere num degrau mais baixo hoje, com ou sem o lusitano. Outros times prévios ao artilheiro na década passada, com Antonio Conte ou Massimiliano Allegri, deixaram marcas mais profundas em Turim.

Pessoalmente, Cristiano Ronaldo pode considerar sua passagem pela Juventus positiva. Já não era a versão mais impressionante do craque, como a vista tantas vezes no Real Madrid, mas os gols ainda vieram aos montes. Em apenas três temporadas, CR7 conseguiu anotar 81 gols na Serie A – apenas três a menos que seu total na Premier League, onde disputou o dobro de jogos. O português foi artilheiro da terceira liga nacional diferente na carreira e por duas vezes foi eleito o melhor jogador em atividade na Itália. Conquistou dois Scudetti, sendo primordial especialmente no segundo, quando carregou o time ao eneacampeonato. Com a camisa bianconera, quebrou até marca de Pelé em gols oficiais. Isso fica para sempre.

Cristiano Ronaldo, entretanto, não ampliou sua prateleira de Bolas de Ouro na Juventus. E isso acontece sobretudo porque o sonho juventino na Champions não se consumou. Foram três campanhas em que o clube não se colocou sequer entre os quatro melhores da Europa. Três campanhas em que os algozes foram adversários de poderio financeiro consideravelmente menor, ainda que parte deles com camisas tão pesadas quanto a da Juve. Ajax, Lyon e Porto foram capazes de brecar as pretensões dos bianconeri. CR7 marcou 14 gols nestas três edições de Champions pelo time, sete deles em mata-matas – com o ápice na fantástica virada contra o Atlético de Madrid em 2018/19. Contudo, ficava claro como ele não foi suficiente para levar a Velha Senhora nas costas, como parecia mais frequente no Real Madrid.

Cristiano Ronaldo em treinamento da Juventus (Getty Images)

E cabe dizer aqui que essa conta não deve ser cobrada de Cristiano Ronaldo. Se o artilheiro vive uma natural curva descendente na carreira, é preciso ponderar que seu ápice foi repetido por raríssimos na história e que, além do mais, contam-se nos dedos (de uma mão) os craques que renderam tanto com 36 anos de idade. A noção de fracasso não está na incapacidade de Ronaldo para concretizar a conquista da Champions, mas bem mais na incapacidade da Juventus de gerir um projeto que depositou tanto as fichas em cima de seu craque.

A Juventus teve times bem mais competitivos em seu ciclo vitorioso na Serie A, seja pelo encaixe conseguido pelos treinadores ou pelo grupo mais equilibrado dentro de campo. Como bem listou o amigo Murillo Moret, esse gosto amargo ao redor de Cristiano Ronaldo passa por “diretoria confusa, contratações descabidas, três trocas de técnicos”. Sem continuidade, ficou bem mais difícil de imaginar uma progressão dentro de campo que pudesse resultar na conquista da Champions. Pelo contrário, o time sem um padrão e com lacunas em diferentes setores perdeu fôlego em relação a campanhas anteriores no torneio continental.

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Quando a Juventus contratou Cristiano Ronaldo, sabia que tinha uma cartada a curto prazo. O craque passava dos 33 anos e não poderia repetir um trajeto como o feito no Real Madrid, em que a consolidação com as principais taças levou certo tempo. O que a Juve não calculou bem foi o ônus que a operação trazia. Num mercado inflacionado do futebol, contratar CR7 é levar a bolha financeira ao limite do estouro. O atacante se beneficia dessa realidade, claro, mas ele também é um produto dessas cifras surreais e até mesmo um dos responsáveis por elevá-las tanto – por seus feitos em campo e pelo poder de sua imagem. Os juventinos assumiram o risco, mas lidaram bem mais com as consequências.

Cristiano Ronaldo, da Juventus (ISABELLA BONOTTO/AFP via Getty Images/One Football)

Nestes três anos, a Juventus não conseguiu construir uma equipe forte além de Cristiano Ronaldo. A política de buscar jogadores a custo zero não desabrochou, a exemplo de Emre Can, Adrien Rabiot e Aaron Ramsey. Para piorar, quase todas as apostas caras não se pagaram – numa lista encabeçada por Matthijs de Ligt, Arthur, Douglas Costa e João Cancelo. Também entra na conta a natural queda de rendimento de veteranos como Leonardo Bonucci e Giorgio Chiellini, que, mesmo primordiais, não são tão implacáveis quanto anos atrás. No máximo, as melhores notícias de mercado dos juventinos no triênio se concentraram em Federico Chiesa e Dejan Kulusevski, dois bons talentos, mas ainda em desenvolvimento.

A falta de uma linha de trabalho também agrava esse cenário. Allegri não continuou, Maurizio Sarri não se encaixou e a escolha de Andrea Pirlo só refletia como o departamento de futebol não sabia muito mais o que fazer. E isso com as contas apertando o calo, afinal. A chegada de um Cristiano Ronaldo eleva a folha salarial não apenas por seu custo, mas também pela forma como desencadeia aumentos aos companheiros. Muitos dos jogadores trazidos sem contrato, além do mais, só foram convencidos pela Velha Senhora diante de ofertas maiores do que eles realmente valiam. A pandemia e o fracasso da Superliga Europeia fizeram os bianconeri reconhecer que deram um passo maior do que as pernas.

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A saída de Cristiano Ronaldo pode se fantasiar na desculpa de que seria melhor montar uma equipe mais coletiva sem o craque ou de que ele não deu conta de ganhar a Champions quando as maiores fichas eram depositadas nele. Esportivamente, porém, ter um CR7 em campo sempre vai ser um trunfo. Só que isso depende da consciência de que a equipe não será apenas ele e que isso não faz o clube prescindir de outras questões básicas do futebol, como a própria montagem da engrenagem que culmine em seu protagonista. Isso não aconteceu e a Juve agora dá um passo para trás, antes de tentar seguir em frente.

A última semana deixou bem claro que um ponto primordial na saída de Cristiano Ronaldo estava em acertar as contas. Desfazer-se do craque virou necessidade da Juventus para adequar seus balanços. E, que não desse para prever a pandemia, foi também o clube que levou o movimento às últimas consequências pelas decisões tomadas. Trazer CR7 naturalmente teria ganhos comerciais e em imagem, além das montanhas de gols que o atacante fatalmente produziria. Faturar a Champions, entretanto, demanda muito mais um processo do que uma cartada. Em consequência, o adeus de Ronaldo aquém das expectativas faz com que o craque pague por erros que fugiram de sua alçada. Ainda foi ídolo em Turim, mas sem aquele impulso que o botou com status lendário em Madri e Manchester.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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