As lições para uma Itália fora de mais uma Copa do Mundo
Equipe comandada por Gattuso foi derrotada nos pênaltis pela Bósnia e não estará no Mundial de 2026
A seleção italiana protagonizou mais um grande vexame de sua história na última terça-feira (31) ao ficar de fora da terceira Copa do Mundo de forma consecutiva. A Azzurra sucumbiu ao fantasma das últimas repescagens e foi derrotada, na disputa por pênaltis, pela Bósnia-Herzegovina, o que fará a tetracampeã mundial amargar ao menos 16 anos sem disputar uma Copa.
Após avançar de forma segura na semifinal da repescagem contra a Irlanda do Norte, a Itália chegou confiante para o duelo com a Bósnia, como deixou claro no episódio viralizado de comemoração de atletas e membros da comissão técnica de Gattuso com a classificação de seus carrascos contra País de Gales. Posteriormente, Edin Dzeko, capitão bósnio, veio a público para alfinetar os italianos:
— A Itália não queria jogar no País de Gales, não sei porquê. Fomos lá, sem medo, e vencemos. Não sei por que a Itália deveria ter medo de Gales ou da Bósnia. É uma grande seleção, que já ganhou quatro Copas do Mundo — disse em coletiva pré-jogo.
Após o empate no tempo regulamentar, com gols de Moise Kean e Haris Tabakovic, além da expulsão de Alessandro Bastoni, que foi crucial para as pretensões do time de Gennaro Gattuso na partida, a vaga foi decidida na disputa de pênaltis. Enquanto Pio Esposito e Bryan Cristante desperdiçaram pelo lado da Itália, a Bósnia teve 100% de aproveitamento nas suas quatro cobranças. O resultado final acaba por sacramentar um enredo perfeito para as merecidas críticas da imprensa e torcedores italianos com mais um fracasso retumbante.
Resultados da seleção refletem o momento do futebol italiano
Carregando consigo o status de uma das grandes ligas europeias — em certo momento, a principal –, a Serie A pode servir como reflexo do momento da seleção. Assim, o jornalista italiano Fabio Larosa, diretor do “Calciodangolo”, promoveu uma reflexão interligando situações dos clubes com o fracasso ocorrido em Zenica, na Bósnia.
— O que se poderia esperar da seleção do país, no qual o time que está conquistando o campeonato [Internazionale] – e que conta com alguns dos jogadores mais importantes entre os Azzurri, como Bastoni, Dimarco e Barella – é brutalmente derrotado nos playoffs da Liga dos Campeões pelos semi-profissionais do Bodo Glimt? — começou por dizer.
Apesar do tom ácido ao mencionar o Bodo, a análise de Larosa merece atenção, já que os italianos voltaram a perder relevância em competições internacionais. Na atual edição da Champions League, com a queda da Atalanta para o Bayern de Munique, nenhum clube do país da bota está nas quartas de final da competição.
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Baixa produção de talentos
Somando o alto número de estrangeiros em sua liga (367) com o fato de não produzir e, muito menos, exportar talentos para os demais campeonatos, a Itália possui uma escassa lista de opções para uma convocação, se comparada ao nível que se acostumou ao longo da história. Este processo, na verdade, revela muito mais que uma dificuldade em trazer robustez ao grupo da seleção principal, mas escancara a dificuldade que o mercado italiano enfrenta.
Se há dificuldade de produzir talentos relevantes, haverá menor capacidade de compra. Além do mais, o jogador italiano não realiza tanto o movimento de ir para outra liga. Gianluigi Donnarumma, Riccardo Calafiori, Sandro Tonali e Mateo Retegui eram os únicos da última lista de convocados que atuam fora da Serie A. Assim, a Itália se depara com uma liga esvaziada de talentos nativos, sem poder para contratar os melhores jogadores do mundo e recorre a veteranos como soluções, como Larosa destaca Luka Modric no Milan:
— Hoje Modric chega à Serie A, com 40 anos, e impõe as regras. Porque ele é, sem dúvida, o melhor jogador da liga, e isso não é nada normal. Vardy chega, com 39 anos, e a Cremonese pede para ele marcar gols para não ir para a Serie B. Enquanto isso, as categorias de base formam jogadores que desde muito jovens são ensinados a matar o jogo mais bonito do mundo — afirma o jornalista.
Decepção e nostalgia
Por fim, a decepção pela ausência da terceira Copa do Mundo consecutiva, atrelada à nostalgia de épocas e gerações de ouro, toma conta do discurso de Fabio Larosa e, certamente, da maioria dos italianos apaixonados pelo futebol e acostumados às chamadas “grandes noites”.
— Nós, jovens idosos, que vimos, aplaudimos e exaltamos a Itália dos Baggios, dos Tottis, dos Del Pieros e dos Schillacis, carregamos as feridas mais profundas em nossos corações. Sabemos o que significa passar “Noites Mágicas” na frente da TV. E sabemos que não vamos passar por isso por muito tempo — finalizou.
Os principais jornais italianos também não pouparam críticas a atuação e, consequentemente, eliminação da seleção de Gennaro Gattuso. A “Gazzetta dello Sport” chamou de “derrota histórica” o revés para a Bósnia e condenou o zagueiro Alessandro Bastoni pela expulsão, criticando sua fase atual: “ano desastroso”. O “Corriere dello Sport”, por sua vez, intitulou a eliminação como “mais uma noite deprimente para o futebol italiano”.