Itália

Os feitos da histórica carreira de Claudio Ranieri, agora aposentado aos 72 anos

Título com Leicester e as histórias com o Cagliari: Ranieri se despede do futebol

Um emocionante comunicado no site do Cagliari, seguido por um vídeo divulgado nas redes sociais nesta terça-feira (21), marcou o fim da carreira do histórico Claudio Ranieri aos 72 anos. Mesmo com contrato até o meio de 2026, o experiente comandante preferiu “sair por cima” ao deixar o clube da Sardenha após ter garantido a permanência na Serie A com uma rodada de antecedência.

— Chegou o momento de partir e espero ser lembrado como uma pessoa positiva, uma pessoa que pediu ajuda ao povo de Cagliari e da Sardenha porque sem eles, honestamente, não teríamos conseguido. A torcida tem sido realmente um homem a mais em campo. Nos momentos difíceis, tanto do ano passado como deste ano, os torcedores acreditaram nas minhas palavras: quando eu disse: “Vamos levar uns ataques no início, o barco vai tremer”. E assim foi. Mas conseguimos mantê-lo sempre correto graças a vocês.

— A torcida nunca nos abandonou, porque é muito difícil jogar em casa se a torcida reclama, vaia. Não, os torcedores de Cagliari sempre nos apoiaram e as reviravoltas que fizemos foram graças a vocês e por isso, sou eternamente grato. Espero ter sido um digno representante de Cagliari e de toda a Sardenha. Obrigado do fundo do meu coração. O último jogo será na quinta à noite e vou abraçá-los calorosamente — celebrou Ranieri, com orgulho nas palavras, convocando os fãs para partida contra a Fiorentina pelo Campeonato Italiano.

 

Foram mais de 50 anos dedicados ao futebol, se contar também o período como jogador. Para celebrar a linda trajetória, a Trivela listou algum dos feitos do gigante Ranieri à beira do campo.

O mais óbvio: Leicester 2016, um time para toda história

Virou comum. Em toda lista de maiores zebras da história do futebol, o Leicester campeão da Premier League de 2015/16 estará no topo ou próximo das primeiras posições. E é para tudo isso mesmo. O contexto da época diz tudo: aquele mesmo time tinha lutado para não cair na temporada anterior, só se salvando nos últimos momentos. A projeção para o ano seguinte era apenas continuar na elite, mas eles conseguiram mais do que isso.

Trocou a temporada, saiu o inglês Nigel Pearson e veio o carismático Ranieri, até então de currículo pesado (Juventus, Internazionale, Chelsea e outros), mas de poucos sucessos e títulos, vindo de um péssimo trabalho pela seleção da Grécia — com direito a derrota para Ilhas Faroé.

Mesmo com um elenco com uma das mais baixas folhas salariais, o técnico italiano conseguiu montar um coletivo perfeito para potencializar suas melhores peças. Defesa sólida, todo mundo extremamente dedicado no momento defensivo, e um contra-ataque vertical e mortal nos poucos momentos que tivesse a bola. Isso explica como o time teve o terceiro melhor ataque (68 gols), mesmo tendo apenas 42,7% de posse durante a competição — apenas Sunderland e West Brom tiveram menos a bola.

Mesmo quando encontrou dificuldades contra defesas mais fechadas, principalmente quando liderava e os times se adaptaram ao Leicester, “soube sofrer” e vencer no limite, seja num gol de bola parada ou algum brilho de Jamie Vardy e Riyad Mahrez. A mobilização daquele elenco foi um dos fortes do italiano, quase sempre bem-humorado e trazendo um bom ambiente para o clube.

— O treinador é bem tranquilo. Nos treinamentos, ele se diverte o tempo inteiro. Ele gosta de nos dizer: ‘sejam espertos, vocês são raposas’ — afirmou o argelino certa vez.

Tudo isso foi um terreno fértil para vermos Vardy e Mahrez brilhando no ataque. O centroavante inglês, poucos anos antes na quarta divisão local, terminou como o vice-artilheiro com 24 gols. Por isso virou jogador de seleção e foi o oitavo melhor jogador do mundo em 2016 pela Bola de Ouro, atrás justamente do colega argelino. N’Golo Kanté foi outro a ser absoluto na campanha. Dono do meio-campo, motorzinho e um empenho sem igual para roubar a bola. Tornou tudo mais fácil para o goleiro Kasper Schmeichel, que mesmo assim teve que trabalhar e terminou como um dos destaques do título.

Isso sem tirar as justas temporadas de Shinji Okazaki (quem não lembra do gol de bicicleta?), Wes Morgan e Christian Fuchs, todos com grande ajuda de um Ranieri que montou a estratégia perfeita para bater Manchester City, Liverpool e outros gigantes do futebol inglês.

Um feito para os livros de história, contra um Big Six, apesar de irregular naquela temporada, já muito rico. Foi a quebra de um tabu também, já que desde 1995, quando o Blackburn Rovers foi campeão, nenhum time sem ser City, Manchester United, Liverpool, Chelsea ou Arsenal tinha vencido a liga. Os Foxes continuam com essa marca até hoje, dificilmente superada pela gigante diferença financeira, ainda maior atualmente.

Cagliari: ato 1 – 1988/91

Um jovem e até então desconhecido, Claudio Ranieri pisou na Sardenha para comandar o Cagliari pela primeira vez no verão europeu de 1988. Aposentado dos gramados dois anos antes, só tinha trabalhado como técnico no Asd Puteolana 1902 e no Vigor Lamezia. Até pela pouca experiência, não encontrou um clube estrutura ou coisa perto disso. Na verdade, o Rossoblù estava à beira da falência e na Série C.

Líder quando jogador, normalmente capitão de suas equipes, Ranieri chegou dizendo que iria reerguer o time. Digo e feito. Em dois anos, o treinador atingiu um feito repetido poucas vezes na história do futebol italiano: saiu da terceira divisão para primeira em duas temporadas.

A história não foi fácil na Serie A de 1990/91. Um começo negativo, fechando o primeiro turno na penúltima colocação. Eis que Claudio mostrou novamente seu poder de mobilização para dar forças ao elenco. O resultado? A permanência na elite do futebol italiano com direito a uma rodada de antecedência.

Para temporada seguinte, os caminhos de Ranieri e Cagliari não seriam juntos. Foi prometido um retorno, e ele veio após mais de três décadas.

Cagliari: ato 2 – 2023-24

O técnico italiano chegou ao cargo em janeiro de 2023, quando o time se encontrava mal das pernas na segunda divisão italiana — roteiro parecido com o do fim dos anos 80. Não foi simples convencê-lo. Como assumiu no vídeo divulgado hoje, tinha medo de “manchar” a passagem anterior. Na verdade, o que pesou para aceitar o retorno foi uma mensagem do histórico Gigi Riva, ídolo absoluto do Cagliari — falecido em janeiro desse ano.

— Vocês sabem o quanto eu tive medo de voltar dizendo “por que eu deveria manchar [meu legado] se as coisas não vão bem, e os três anos que vivi aqui [1988-91]?”. Isso encheu meu coração, que nos momentos difíceis que um treinador passa porque sempre me agarrei ao Cagliari, a essa ilha feliz e não queria vir, sabe, muitos insistiram. Aí quando li aquelas palavras da Gigi Riva: “Claudio é um de nós, se quiser sabe que estamos aqui”. E nesse ponto eu voltei. Voltei porque falei: “Tudo bem, vamos deixar o egoísmo de lado, vamos lá…” — detalhou Ranieri.

Não deu outra, o sucesso foi imediato, mesmo chegando pedindo paciência: “me deem tempo”. Em poucos meses, o nono colocado virou o sexto em uma trajetória de apenas duas derrotas nas 18 rodadas que faltava quando o comandante chegou. Confirmado nas quartas de final dos playoffs de acesso à Serie A, passou pelo Venezia (2 a 1) e depois, na semi, bateu o Parma em casa e segurou o zero fora.

Na partida decisiva, frente ao Bari, empatou a ida por 1 a 1 no Estádio Sant’Elia e deixou tudo para a casa do adversário. Lá, com o placar igual até o fim, o experiente Leonardo Pavoletti saiu do banco para fazer o gol do acesso aos 49 do segundo tempo.

Já na Serie A, como aconteceu lá em 90/91, o começo foi complexo. Resultados ruins, momentos na zona de rebaixamento e o medo da queda. Mas, como se a história fosse escrita por um roteirista de cinema, a mesma retomada de 32 anos atrás. Tiveram vitórias sensacionais, como contra os ótimos Bologna e Atalanta. A confirmação da permanência veio, de novo, a uma rodada do fim, batendo o Sassuolo, e Ranieri cumprindo a missão de Gigi Riva.

— A sensação é a de vivenciar um filme, daqueles dignos de Oscar, que te conquistam com seu roteiro perfeito: um daqueles que te faz rir, mas que também pode te emocionar e emocionar. São lágrimas de alegria e gratidão para com aqueles que souberam escrever algumas das páginas mais bonitas da história do Cagliari: porque o que foi feito ficará indelével no coração de cada torcedor. Cagliari é e sempre será sua casa. Eternamente grato, senhor — descreve o comunicado no site oficial do clube italiano.

 

Outros feitos de Ranieri na longeva carreira

  • Título da Copa do Rei e da Intertoto de 1999 pelo Valencia, quebrando tabu de 18 anos sem título. Saiu no mesmo ano e voltou depois para vencer a Supercopa da Uefa de 2004/05
  • Quatro anos à frente da Fiorentina, vencendo a segunda divisão, a Copa da Itália e a Supercopa
  • Campeão da Ligue 2 pelo Monaco na última vez que o clube do Principado atuou na segunda divisão (2012/13)
Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius Amorim

Nascido e criado em São Paulo, é jornalista pela Universidade Paulista (UNIP). Já passou por Yahoo!, Premier League Brasil e The Clutch, além de assessorias de imprensa. Escreve sobre futebol nacional e internacional na Trivela desde 2023.
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