Absolvição de Acerbi em caso de Juan Jesus pode silenciar denúncias de racismo?
Juan Jesus afirmou que Francesco Acerbi, da Internazionale, foi racista durante jogo da Série A
Uma nota pesada e sincera do Juan Jesus foi publicada na última quarta-feira (27) após saber que Francesco Acerbi, da Internazionale, foi absolvido pela Federação Italiana de Futebol (FIGC) da acusação de racismo contra o defensor brasileiro. O juiz que absolveu o jogador da Internazionale entendeu que não houve provas que comprovassem a prática do crime.
– [A absolvição] É uma avaliação que, embora respeite, tenho dificuldade em entender e isso me deixa com muita angústia. Estou sinceramente desanimado com o desfecho de um assunto grave em que só fui culpado de ter tratado “como um cavalheiro”, evitando interromper um jogo importante com todos os transtornos que isso causaria aos espectadores que assistiam ao jogo, e confiando que minha atitude teria sido respeitada e tomada, talvez, como exemplo – afirma Jesus, em trecho da nota.
Quando o relógio marcou os 15 minutos do segundo tempo entre Internazionale e Napoli, jogo disputado pela Série A em 17 de março, o brasileiro acionou o árbitro Federico La Penna para denunciar que foi vítima de racismo de Acerbi e apontou para o patch que tem nas camisas dos clubes italianos “Keep racismo out” (Mantenha o racismo fora). “Vá embora, negro, você é só um negro”, segundo Jesus é o que teria dito o defensor da Inter, que foi flagrado pelas câmeras do canal Mediaset pedindo desculpas ao colega: “me desculpe, não sou racista”, teria dito o italiano, segundo leitura labial.
Inicialmente, os jogadores da Inter tentaram contornar a situação, conversar com Jesus. Acerbi até apontou para o Marcus Thuram, como uma forma de dizer que tem colegas negros e não seria preconceituoso. Após o jogo, o zagueiro italiano não negou as acusações.
– Não me sinto de forma alguma protegido por esta decisão que se debate entre ter de admitir que “a prova da infração foi certamente conseguida” e sustentar que não há certeza da sua natureza discriminatória que, novamente de acordo com a decisão, apenas eu e “de boa fé” teria percebido. Eu realmente não entendo como a frase “‘vá embora, negro, você é só um negro…” pode certamente ser ofensiva, mas não discriminatória. Na verdade, não entendo por que houve tanto rebuliço naquela noite se realmente foi uma “simples ofensa” pela qual o próprio Acerbi se sentiu obrigado a pedir desculpas, o árbitro sentiu que deveria informar o VAR, a partida foi interrompida por mais de 1 minuto e seus companheiros [de Acerbi] estavam lutando para falar comigo. – continua Juan Jesus no pronunciamento.

Acerbi foi desconvocado da Seleção Italiana para última Data Fifa. Para Federação, o defensor afirmou não ter sido racista, mas mesmo assim sofreu essa “penalização”.
As falas de Jesus mostram uma indignição e sensação de impunidade. O brasileiro também disse que, mesmo esperando estar errado, teme que isso possa abrir um precedente para justificar comportamentos preconceituosos no futuro. Por isso, a Trivela entrou em contato com Marcelo Carvalho, fundador e diretor executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, para entender se a absolvição de Acerbi pode, realmente, ter um impacto negativo e de silenciamento das denúncias de racismo.
– O impacto da absolvição do Acerbi vai ser grande na Itália, mas vai ser grande também fora da Itália porque essa é uma notícia que está correndo no mundo. Se olharmos aqui para o Brasil, caso do Edenilson com o Rafael Ramos, também foi a mesma coisa [à época, o jogador do Internacional disse que o português o chamou de “macaco”. O STJD absolveu o atleta do Corinthians por falta de provas]. Essa questão da justiça não punir, porque faltam provas para além da palavra da vítima, coloca o risco de voltar ao silenciamento que a gente já teve no futebol, que era jogadores ouvirem as ofensas e não fazer nada. Então, assim, a gente precisa estimular que a vítima denuncie, mas se nada acontece a gente vai fazer o processo contrário, esse é o perigo. – reiterou Carvalho.
Há semelhança no sentimento em caso de Jesus com o que acontece com Vini Jr?
Se sentir desprotegido, como afirmou Juan Jesus, também se assemelha com ao que acontece Vinicius Júnior na Espanha, vítima de seguintes ataques raciais ao jogar como visitante, como conta o diretor do Observatório.
– O que o Juan fala tá muito ligado ao que o Vinícius Jr vem falando, né? Qual é a instituição que tá apoiando eles? Eles não estão sozinhos porque hoje vemos uma crescente de apoio a esses atletas, o Vinícius Jr. teve apoio da CBF, apoio do Ministério do Esporte, do governo brasileiro, que foram até Espanha, entraram com representação. Eu acho que muitas vezes quando se fala de falta de apoio é dentro do próprio futebol, e talvez eles estejam falando até dos colegas deles de equipe.
Nessa ausência de suporte dentro do futebol, o especialista utilizou o exemplo de Daniel Carvajal, colega de Vini no Real Madrid, que não quis condenar nenhum ataque ao brasileiro, afirmou que “tem amigos de cor de pele diferente e nunca houve problema” e ainda disse que algumas pessoas vão ao estádio para “desabafar” (o que seria cometer o racismo). Ao menos defendeu que esse público que supostamente “desafaba” não deveria entrar nos estádios.
– Se o jogador sofreu racismo em um jogo, todo mundo tem que estar mais próximo dele, mais solidário, sair de campo, não vamos mais jogar, porque é isso. O caso do Juan é bem um retrato do que era o futebol antes: ‘cara, aconteceu em campo, morre em campo, não vou levar isso pra frente’. […] Então a gente precisa dessa rede de proteção e acolhimento. A gente quer de fato que os jogadores denunciem racismo e que eles tomem a frente do processo de luta antirracista no futebol. A gente tem que formar aqui a rede de proteção e acolhimento, só que isso ainda está em construção – diz Marcelo Carvalho.
🗣 Dani Carvajal: "I don't believe that Spain is a racist country. I come from a humble neighborhood in Leganés, there has never been any problem… I have friends of a different skin color, and there has never been a problem. Then there are people who go to the stadiums to let… pic.twitter.com/J1AZ23e4SY
— Madrid Xtra (@MadridXtra) March 25, 2024
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O que a Serie A pode fazer para combater o racismo de forma eficaz?
O caso do brasileiro não é o primeiro nesta temporada na elite do fuebol italiano. Em janeiro desse ano, o goleiro Mike Maignan foi alvo de ataque de racistas torcedores da Udinese. O francês avisou o árbitro e, com a continuação dos cânticos, até chegou a sair de campo, mas retornou. À época, o clube de Udine foi punido com um jogo sem torcida e um torcedor foi banido para sempre do Estádio Friuli.
Marcelo Carvalho entende a importância das punições e, em caso de reincidência, aumentar as sanções aos clubes que tiveram torcedores que praticam discursos de ódio. No entanto, ele também defende a importância da conscientização e educação.
– Punir tem que ser o caminho, e as punições têm que ser pesadas. Começa com uma parte do estádio fechada, na reincidência você fecha todo o estádio, e depois você tem que ir para a perda de pontos. Se até a perda de pontos não resolver, tem que ter a exclusão do campeonato. Você precisa ter punições severas onde o torcedor entenda que o tamanho do prejuízo que ele está causando ao clube, que outros torcedores entendam isso e também policiem os torcedores dentro do estádio para que não haja casos de racismo. Eu não acredito que o único caminho seja a punição. Tem que haver junto numa campanha dessa, tem que haver conscientização, tem que haver educação.
A Serie A, como citado, adota o patch “Mantenha o racismo fora” nas camisas de todos os clubes, mas não parece ser uma campanha que atinge outras camadas da organização da liga além do setor de comunicação, como aponta Marcelo Carvalho. Inclusive, Napoli não utilizará mais a imagem da campanha nos uniformes.
– A grande questão das campanhas, e entra a campanha da Série A italiana, é que muitas vezes elas são campanhas de comunicação, elas não conversam com os demais setores do futebol. Uma campanha desta tem que haver um diálogo muito grande com o Tribunal de Justiça Esportiva, que tem que estar atento para que os casos que cheguem até o tribunal, aconteça uma punição. Ou, se não acontecer a sanção, tem que ter todo um porquê que não aconteceu, que não seja simplesmente ‘não temos prova.’ – finalizou.
Napoli divulgou nota em apoio a Juan Jesus, após Acerbi ter sido absolvido pelo júri Desportivo, e afirmou que não vai mais aderir a iniciativas antirracistas “de fachada” da Liga.
Clube informa que tomará atitudes de combate ao racismo por conta própria. pic.twitter.com/V76JL4aRAb
— Diário de Torcedor (@DiarioGols) March 26, 2024
Leia, na íntegra, a nota publicada por Juan Jesus no site do Napoli
Li várias vezes, com grande pesar, a decisão com a qual o Juiz Desportivo considerou que não há provas de que fui vítima de insultos racistas durante o jogo Inter x Napoli no dia 17 de março. É uma avaliação que, embora respeite, tenho dificuldade em entender e isso me deixa com muita angústia.
Estou sinceramente desanimado com o desfecho de um assunto grave em que só fui culpado de ter tratado “como um cavalheiro”, evitando interromper um jogo importante com todos os transtornos que isso causaria aos espectadores que assistiam ao jogo, e confiando que minha atitude teria sido respeitada e tomada, talvez, como exemplo.
Provavelmente, depois desta decisão, aqueles que se encontram na minha situação agirão de uma forma muito diferente para se protegerem e tentarem acabar com a vergonha do racismo que, infelizmente, luta para desaparecer.
Não me sinto de forma alguma protegido por esta decisão que se debate entre ter de admitir que “a prova da infração foi certamente conseguida” e sustentar que não há certeza da sua natureza discriminatória que, novamente de acordo com a decisão, apenas eu e “de boa fé” teria percebido.
Eu realmente não entendo como a frase “‘vá embora, negro, você é só um negro…” pode certamente ser ofensiva, mas não discriminatória.
Na verdade, não entendo por que houve tanto rebuliço naquela noite se realmente foi uma “simples ofensa” pela qual o próprio Acerbi se sentiu obrigado a pedir desculpas, o árbitro sentiu que deveria informar o VAR, a partida foi interrompida por mais de 1 minuto e seus companheiros (de Acerbi) estavam lutando para falar comigo.
Não sei explicar por que, só no dia seguinte e desconvocado da seleção nacional, Acerbi mudou a versão dos acontecimentos e, em vez disso, não negou imediatamente, assim que a partida terminou, o que realmente aconteceu.
Não esperava um final deste tipo que temo — mas espero estar errado — poderia abrir um precedente sério para posteriormente justificar certos comportamentos.
Espero sinceramente que esta história, para mim, triste possa ajudar todo o mundo do futebol a refletir sobre um assunto tão sério e urgente.



