Tim Vickery: Tottenham inova em sofrimento com Tudor
Clube já teve oportunidades de demitir o croata que não precisava nem ter chegado e só prolonga o drama da luta contra o rebaixamento
De antiguidade vem o conceito militar de uma vitória pírrica. Ou seja, uma vitória em que o custo do triunfo fica tão alto que, na verdade, parece uma derrota. É bastante possível que o Tottenham Hotspur tenha inventado, no domingo passado, o conceito de um empate pírrico.
O gol de Richarlison no fim do jogo evitou mais uma derrota dos Spurs, que voltaram de Liverpool com um 1 a 1 que, levando em consideração a fase do time, ninguém esperava. Foi a primeira vez que o Tottenham não perdeu com o técnico interino Igor Tudor, uma escolha pouco convencional para o time londrino.
Até o domingo passado, ficou bem claro que a crise do Tottenham só aumentou com a presença de Tudor, e na semana passada alcançou um novo ponto baixo na Champions League contra o Atlético de Madrid.
Tudor tomou uma decisão bizarra de trocar o goleiro — pareceu uma escolha de um técnico com mais ego que bom senso. Foi um desastre completo, precisando substituir o seu goleiro novato após 15 minutos.
Fim da linha para o Tudor? Não no Tottenham
Pelo jeito, era melhor fritar ele um pouco mais com mais uma derrota fora contra o Liverpool, abrindo espaço para um técnico novo entrar na cena e salvar o clube de um rebaixamento impensável.
Mas empatou — com méritos, em circunstâncias difíceis. Tudor ganhou uma sobrevida. Verdade, pode cair depois do jogo da volta contra o Atlético na quarta-feira.
Mesmo assim, um substituto teria pouco tempo para fazer a diferença antes, efetivamente, do jogo da temporada, o clássico de rebaixamento no domingo contra o Nottingham Forest.

De uma certa maneira, o próprio Forest é uma das grandes causas desta temporada tão preocupante do Tottenham. Vou explicar. O Tottenham é um gigante, um símbolo histórico da busca de glória. Tem uma torcida enorme, um estádio espetacular e um lema tradicional: to dare is to do (“ousar é fazer”, em tradução literal).
Mas também tem donos com vontade zero de ousar financeiramente. O clube até virou uma referência dentro da indústria por gastar relativamente pouco com salários e reforços. E se não vem ganhando muitos títulos ultimamente — a Liga Europa na temporada passada foi uma exceção –, lucra bastante, com os executivos olhando para as planilhas e se parabenizando.
O pensamento tem sido o seguinte: com essa política dos gastos controlados, não vamos ganhar o título inglês, por enquanto, mas vamos procurar garantir uma vaga na Champions League ou até levar uma copa. Mas esta temporada está mostrando os riscos de uma estratégia que parece conservadora. O Tottenham subestimou a Premier League.
- - ↓ Continua após o recado ↓ - -
E qual a diferença feita pelo Forest?
Os resultados na Champions League nesta semana estão mostrando que os melhores times ingleses não são bicho-papões. Mas se os melhores não são tão excepcionais, os piores são mais fortes que nunca — em grande parte por causa do Nottingham Forest. O Forest foi a surpresa e a sensação da temporada passada. Visto como forte candidato para rebaixamento, terminou em sétimo lugar e estava mais alto ainda durante bastante tempo.
Utilizando um modelo bem físico de jogo, de bloco baixo e contra-ataque. Virou referência para outros clubes modestos. Até a temporada passada, era normal ver os clubes recém-promovidos tentarem tocar a bola, saindo de trás, elaborando um jogo de posse da bola. Deu certo na segundona, mas contra os melhores acabou sendo suicídio.
Agora entenderam que deveriam lutar dentro das suas limitações, e o jogo virou mais físico, mais vertical, mais feio — uma tendência que, nesta temporada de bolas paradas, até contaminou os times lutando pelo título. Em um campeonato mais competitivo, mais brutal, o elenco do Tottenham parece leve, insuficiente para lidar bem com uma inesperada luta contra o rebaixamento.
Os cálculos mudaram, e aqueles números na planilha agora não são motivos para comemoração.
Perder contra o Forest no domingo seria motivo para pânico, e o lucro dos últimos anos vai parecer uma vitória pírrica.



