Inglaterra

Tim Vickery: Como explicar o rebaixamento do Tottenham sair de impensável para provável

Colunista da Trivela e torcedor dos Spurs, Tim Vickery desabafa sobre momento do clube

No curso de poucos meses, o rebaixamento do Tottenham Hotspur passou de impensável para possível e agora provável. Faltando cinco rodadas de Premier League, um time sem vitórias neste ano precisa ganhar pelo menos três vezes para sobreviver.

Tem uma lição aí (na verdade, tem duas lições — uma é não nascer torcedor do Tottenham, mas aí a culpa é do meu pai). Mas o ensinamento principal é que o futebol trata-se de uma forma bem estranha de negócios.

Vou explicar.

Tottenham mais de olho nas finanças do que no futebol?

O clube tem uma torcida grande, uma tradição gloriosa, um estádio enorme e maravilhoso, um dos melhores do mundo. E tem a grana da conquista da Liga Europa na última temporada, e da participação nesta temporada, até as oitavas de final, da Champions League.

Conclusão fácil — se um clube assim está perto de cair, os dirigentes estão merecendo um certificado coletivo de incompetência. Mas, dentro da indústria, esses mesmos dirigentes têm sido vistos como referência, porque o clube tem lucro. Tem uma tendência à auto-parabenização.

Pouco tempo atrás, um executivo ia dar uma palestra se vangloriando sobre a maneira que transformou o clube numa marca global. A notícia vazou, alguns torcedores ficaram revoltados e a palestra foi cancelada.

A posição da torcida — totalmente compreensível — foi a seguinte: do que adianta ter um estádio tão sensacional, palco de shows de Beyoncé a eventos da NFL, se o time de futebol está na segundona?

Tottenham Stadium é um dos melhores estádios da Europa (Foto: IMAGO / News Images)
Tottenham Stadium é um dos melhores estádios da Europa (Foto: IMAGO / News Images)

O centro da questão, a contradição entre os impulsos de esporte e de negócios, fica aí — e justamente na busca para o lucro que acabou minando o desempenho no campo — que, em sua vez, ameaça o futuro dos negócios. O Tottenham tem poucos campeonatos — somente de 1951 e 61. Mas é uma força tradicional nas copas — por exemplo, foi o primeiro time inglês a ganhar uma taça continental.

Isso é uma consequência das prioridades. O clube sempre deu mais importância para o brilhante em cima do regular. Historicamente, trata-se de um time às vezes frustrante, mas com a capacidade de ser sensacional — porque contratava jogadores glamourosos, mas nem sempre constantes.

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O problema recente do Tottenham no mercado

O elenco atual não tem ninguém nem perto desse tipo, por um motivo bem claro: o clube não paga bem. O lema histórico do Tottenham se traduz no latim como “ousar é fazer”. Mas, como frisa o técnico da temporada passada, Ange Postecoglou, na sua política de contratações, o clube não tem nada de ousado.

Não paga em linha com a indústria, aí não atrai os talentos. E fica auto-parabenizando-se sobre isso. O Tottenham gasta um pouco mais de 40% da sua receita com os salários dos jogadores. Tem concorrentes gastando 95%.

Se esse último número é sustentável, é tema para um debate. Mas não tem debate sobre o primeiro número. Simplesmente não é sustentável expor o clube ao risco tão grande de rebaixamento.

Neste momento tão ruim do Tottenham, podemos apontar vários erros — na escolha dos técnicos, por exemplo. Mas tem um equívoco bem maior: subestimar a Premier League.

A estratégia do clube parece ter sido a seguinte: com essa política de pagamento, não tem como se envolver numa briga para o campeonato. Mas podemos ficar confortavelmente no meio da tabela e ter uma copa como alvo.

Tottenham subestimou mudança na Premier League

Georginio Rutter marca o gol de empate contra o Tottenham (Foto: PA Images / Icon Sport)
Georginio Rutter marca o gol de empate contra o Tottenham (Foto: PA Images / Icon Sport)

Só que esta temporada está sendo diferente, porque, na última campanha, paradigmas foram quebrados — em duas maneiras, por dois clubes.

Primeiro foi o recém-promovido Southampton com um jogo atraente de posse de bola, saindo desde atrás. Mas o que funcionou muito bem na segundona foi um desastre na Premier League, onde a margem para errar é bem menor.

Os clubes promovidos para a atual temporada iam precisar de um outro modelo. E uma fonte de inspiração veio do Nottingham Forest, a sensação da última temporada com um jogo de bloco baixo e contra-ataque.

Neste ano, então, os times menores apostam num modelo de jogo mais físico, mais brutal, menos elaborado. Esta temporada da Premier League não tem sido tão agradável de assistir, mas está se mostrando, lá no fundo da tabela, muito mais competitiva — e o planejamento do Tottenham não estava preparado.

Agora os supostos gênios de negócios estão na frente de um problemão. A busca por lucro é uma estratégia arriscada sem a vontade de investir. E num clube de futebol, o desempenho do time no campo nunca pode ser uma consideração secundária — senão, a Segundona chama.

Foto de Tim Vickery

Tim VickeryColaborador

Tim Vickery cobre futebol sul-americano para a BBC e a revista World Soccer desde 1997, além de escrever para a ESPN inglesa e aparecer semanalmente no programa Redação SporTV. Foi declarado Mestre de Jornalismo pela Comunique-se e, de vez em quando, fica olhando para o prêmio na tentativa de esquecer os últimos anos do Tottenham Hotspur

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