Inglaterra

‘Tentam jogar futebol de verdade’: O debate sobre o estilo da Premier League que viralizou

O debate sobre a qualidade do futebol da Premier League ganhou novo capítulo quando um de seus próprios jogadores a comparou a Champions League

Anthony Gordon, atacante do Newcastle, viralizou com sua declaração na última quarta-feira (28) sobre a diferença da Premier League e da Champions League. Para ele, no cenário europeu, os times “tentam jogar mais”, diferente do futebol inglês.

A principal liga de futebol do mundo já é conhecida há tempos como um campeonato de grande intensidade física, duelos e transições — e, agora, de bolas paradas. Mas o discurso de Gordon parece mostrar um incômodo com o rumo que a Premier League está tomando, principalmente em comparação com outros torneios.

Afinal, o campeonato inglês tem se tornado menos interessante? Ainda é justo dizer que é o melhor do mundo? E qual é a ligação de controle de jogo com qualidade?

Premier League x Champions League em números

Gordon falou sobre a Premier League ser uma liga muito intensa, física e que, muitas vezes, tem jogos resolvidos em duelos. O grande argumento do atacante era sobre como os times na Champions “tentam jogar futebol”.

Há o argumento óbvio de que, na maior competição de clubes do continente, estão, na teoria, os melhores times de cada país. Por isso, seria justo dizer que quem tem mais condições de controlar e propor o jogo está nesta competição e, consequentemente, tentaria fazê-lo. Apesar, claro, das óbvias exceções.

Os números que comparam as cinco principais ligas podem corroborar com o argumento de Gordon, principalmente no que diz respeito à liga inglesa ser maioritariamente de transição. Os números de posse de bola já respondem algo.

Gordon antes de jogo do Newcastle pela Champions League
Gordon antes de jogo do Newcastle pela Champions League (Foto: Imago)

Segundo dados do “FBref”, somando os times de Inglaterra, Alemanha, Itália, Espanha e França, entre os 20 times com maior média de posse de bola, apenas quatro são ingleses (Liverpool, Manchester City, Arsenal e Chelsea).

Enquanto isso, o top-20 tem sete italianos. LaLiga tem três, incluindo o 11º Elche, mas o top-25 faz esse número dobrar. No outro lado da moeda, entre os 20 com menor número de posse de bola, seis são ingleses.

O Arsenal, líder da Premier League, tem apenas o 13º melhor ataque entre as cinco grandes ligas europeias, mesmo com o maior número de jogos possível. Quando o assunto é gols por jogo, nenhum inglês entra no top-10 — o Manchester City é o 11º. Na verdade, desses dez primeiros, cinco são alemães.

Se o número de assistências indica um time que trabalha a bola com frequência e encontra oportunidades a partir do controle de jogo, o lado inglês fica ainda pior. No top-20 de assistência por jogo, somente o Manchester City (8º) aparece na lista, que é dominada por seis franceses e sete alemães.

Pior ainda: a Premier League é, entre as cinco, a liga que menos chuta a gol (12,2 vezes por jogo, em média), além de ser a que mais cruza (18,1 por jogo). E a impressão de Gordon sobre a fiscalidade também é ilustrada por números: é a liga com mais duelos por jogo (10).

Entre as dez equipes com mais duelos vencidos nas cinco grandes ligas, oito são inglesas e duas são italianas. E são sete no top-10 de mais interceptações.

Os números mostram uma realidade cartesiana, mas até mesmo a impressão de quem assiste não foge desse argumento. Não é de hoje que o futebol pausado, pensado e de tentativa frequente de domínio vem mais dos espanhóis ou italianos, por exemplo.

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Os traços da Premier League na Champions League: as bolas paradas

O mais marcante, no entanto, foi o ponto das bolas paradas. A crítica tem permeado a liga de todos os lados: torcida, imprensa e, agora, até mesmo jogadores.

“Na Champions League, os times vêm e tentam jogar futebol de verdade. Na Premier League, agora, tem os laterais longos, bolas paradas. Se tornou muito mais lento e baseado em bolas paradas”, disse o camisa 10 dos Magpies.

Dados do jornal inglês “The Times” apontam que o número de gols vindos de bola parada do início da atual temporada do campeonato até dezembro de 2025 cresceu 31% em relação à anterior. É feito, em média, praticamente um gol por partida (0,8) dessa forma.

Mikel Arteta ao lado de Nicolas Jover, técnico de bola parada do Arsenal (Foto: Imago)
Mikel Arteta ao lado de Nicolas Jover, técnico de bola parada do Arsenal (Foto: Imago)

Além disso, oito clubes da Premier League marcaram ao menos um terço de seus gols a partir de bolas paradas nesta temporada. E a qualidade do jogo entra em cheque nesse mesmo momento justamente porque, mesmo com mais gols de bola parada, a média total de gols tem diminuído.

Na Champions, os líderes em gols de bolas paradas são ingleses: Liverpool (8) e Arsenal (5). Todos os cinco ingleses que se classificaram para a fase eliminatória, inclusive, acabaram com saldo de gols positivo nas bolas paradas — ou seja, marcaram mais do que sofreram nesse quesito.

Os dados e a impressão visual caminham para um mesmo argumento. A Premier League pode ser a liga mais interessante do mundo: maior concentração de estrelas, melhores estádios, técnicos mais renomados e melhor estrutura. Mas o gosto por um futebol pausado, de controle, tentativa de domínio constante e menos “trocação”, na verdade, leva o telespectador para outro país.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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