Ser eliminada pela Islândia foi uma tragédia tentadora demais para a Inglaterra recusar
A Inglaterra venceu todos os dez jogos das Eliminatórias da Eurocopa. Fez 31 gols e sofreu apenas três. Conseguiu bons resultados nos amistosos, principalmente uma emocionante virada por 3 a 2 sobre a campeã do mundo Alemanha. Levou à França um time jovem, com promessas interessantes, como Kane, Rashford e Delle Ali. Vinha jogando um bom futebol e pegou um grupo acessível. Era alta a expectativa de finalmente fazer uma campanha aceitável, depois de dez anos tomados por desastres. Mas ser eliminada pela Islândia nas oitavas de final acabou sendo uma tragédia tentadora demais para a seleção inglesa recusar.
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Por mais que a Islândia surpreenda a todos, com muitos méritos, e possa continuar fazendo isso a partir das quartas de final, ainda se trata da seleção de um país com 330 mil habitantes, população comparável à da cidade de Leicester, longe de ser uma das maiores da Inglaterra. O melhor jogador islandês, talvez o único realmente talentoso, atua pelo 12º colocado da Premier League, e o goleiro é cineasta. Como disse Gary Lineker, a seleção inglesa foi vencida por um país que tem mais vulcões que jogadores profissionais.
The worst defeat in our history. England beaten by a country with more volcanoes than professional footballers. Well played Iceland.
— Gary Lineker (@GaryLineker) June 27, 2016
O ex-jogador classificou essa como a pior derrota da história da Inglaterra. E olha que estamos falando de um time afeito a tragédias futebolísticas, como nem se classificar à Eurocopa de 2008 ou ser eliminada na fase de grupos, atrás de Uruguai e Costa Rica, sem ganhar um jogo sequer. Na verdade, desde 2006, quando ficou entre os oito primeiros da Copa do Mundo, a seleção inglesa não cumpre as expectativas, mesmo quando elas não são muito altas.
Desta vez, bastava eliminar a Islândia, chegar às quartas de final da Eurocopa, e ser derrotada de cabeça erguida pela dona da casa França. Era só o que a Inglaterra precisava para sair do torneio com alguma paz, sem crise. Mas nem isso conseguiu. Perdeu justamente no momento em que precisava perder para cruzar o Canal da Mancha com mais uma vergonha na bagagem.
O que torna a derrota ainda pior é que a Inglaterra levou uma virada da Islândia, aos 18 minutos do primeiro tempo, e teve mais de uma hora para pelo menos forçar a prorrogação. Mas quem teve as melhores chances do segundo tempo foram os nórdicos, com uma bicicleta de Ragnar Sigurdsson defendida por Joe Hart e um bom lance de Gunnarsson, que também parou no goleirão do Manchester City.
Roy Hodgson, treinador que renunciou em tempo recorde depois da derrota da Inglaterra, insistiu durante toda a Eurocopa em uma formação tática que não privilegiava o que de melhor havia na convocação que ele mesmo fez. Teimou com um engessado 4-2-3-1 sem ter levado muitos jogadores de lado de campo. Sterling e Lallana eram praticamente os únicos, com Sturridge, Rashford e talvez Milner podendo atuar por ali, se fosse necessário. E foi necessário, já contra a Eslováquia, quando Sturridge tomou o lugar de Lallana.
Por outro lado, havia Jamie Vardy no banco de reservas. Não seria melhor dar um jeito de encaixar os dois centroavantes que voaram na temporada que acabou de terminar em vez de manter-se fiel a um esquema que o obriga a colocar em campo jogadores, como Sterling e Lallana, que não foram tão bem assim pelos seus clubes?
Sem falar que Rooney ficou sobrecarregado na armação, tendo várias vezes que recuar até o círculo central para buscar a bola. Colocá-lo atrás dos dois atacantes, com uma trinca de meias centrais (Dier, Ali e Wilshere, por exemplo) dando o equilíbrio entre a marcação e a criatividade, poderia ter funcionado. Ou também poderia ter resultado na eliminação do time, mas pelo menos a Inglaterra não passaria tanto tempo pressionando a Islândia sem levar perigo algum.
As decisões de Hodgson durante a partida também não foram as melhores. Rashford entrou apenas a quatro minutos do final, tempo suficiente para incomodar a defesa islandesa mais que seus companheiros de ataque. Por algum motivo, Harry Kane, artilheiro, alto e bom cabeceador, cobrou faltas cruzadas na área. Bateu até mesmo o escanteio no último segundo de jogo, quando até Joe Hart estava na área, menos o camisa 9 da equipe.
Apesar de seus bons valores, de seus jogadores em boa fase, de suas atuações interessantes na preparação para a Eurocopa e de seu caminho acessível no torneio francês, a Inglaterra não resistiu à tentação de passar por mais um vexame. Manteve vivo o ciclo que leva a seleção da esperança ao escracho a cada dois anos. E continuará fazendo isso enquanto não conseguir, na bola e na cabeça, lidar com as pressões e justificar em campo o que se espera dos competentes jogadores que existem no seu elenco.
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